Washington, 13/02/2009 – A hostilidade dos Estados Unidos e da comunidade internacional em relação ao partido islâmico Hamás atrasa a reconstrução de Gaza e, assim, a unificação territorial necessária para a criação de um Estado palestino em paz com Israel, afirmam especialistas. Mesmo antes da guerra de três semanas dos israelenses contra a Faixa de Gaza, 80% dos 1,5 milhão de habitantes da área dependiam da ajuda para atender suas necessidades básicas.
Depois do maciço ataque por terra, mar e ar de dezembro e janeiro, as demandas políticas foram ultrapassadas pela necessidade de ajuda humanitária e por gestões para a reconstrução do território. Mas não fica claro quanta ajuda, em especial desde os Estados Unidos, será necessária para essa porção de terra de 360 quilômetros quadrados, fechada por todos os lados, cuja população está sufocada pela pobreza.
As fronteiras terrestres e a costa no Mediterrâneo de Gaza são controladas por Israel e Egito, que a bloquearam por 18 meses desde que o Hamás (Movimento de Resistência Islâmica) tomou o poder na faixa pelas armas em junho de 2007. a operação dividiu a Palestina territorial, política, econômica e socialmente em duas. Desde então, Israel, Estados Unidos e boa parte da comunidade internacional seguem uma política de isolamento em relação a Gaza e ao Hamás, assim como de fortalecimento de seu rival, o secular partido Fatah, que controla a Autoridade Nacional Palestina (ANP) e o território da Cisjordânia.
De todo modo, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, lidera os chamados da comunidade internacional para arrecadar fundos para a reconstrução de Gaza, após se reunir com o presidente da ANP, Mahmoud Abbas. Mas a reconstrução após a demolição de alvos tão variados como prédios residenciais, estradas, hospitais, universidades, estações de tratamento de água e infra-estrutura comercial ficará paralisada, seguramente, em um processo politizado destinado a marginalizar o Hamás e fortalecer o Fatah. “Isto é parte de uma luta política mais ampla entre esses dois grupos na Palestina”, disse Tâmara Cofman Wittes, da Instituição Brookins, especialista em política dos Estados Unidos no Oriente Médio.
Para a comunidade internacional, a reconstrução de Gaza representa uma oportunidade de demonstrar sua boa vontade em relação aos palestinos, mas as dúvidas as respeito são numerosas, devido às restrições e à oposição generalizada do Ocidente ao Hamás. O Quarteto, instância mediadora de paz formada pela Organização das Nações Unidas, União Européia, Estados Unidos e Rússia, exigiu do Hamás como pré-condição para integrá-lo às negociações o reconhecimento do Estado de Israel, respeito aos acordos já assinados pela ANP e renúncia à violência. Desse modo, disse o Quarteto, a ajuda continuaria fluindo para Gaza.
Nada disso aconteceu. Com o colapso das negociações para a formação de um governo de unidade nacional entre Hamás e Fatah, a ajuda estrangeira dirigi-se, através da ANP, apenas para a Cisjordânia. Tudo indica que o governo de Barack Obama manterá a política de isolamento de Gaza seguida por seu antecessor. Portanto, os Estados Unidos não se envolverão diretamente nos programas de assistência a esse território, nem mesmo nos dedicados à reconstrução. Essa política é vista pela população de Gaza como um castigo coletivo.
Em termos do processo de paz, as perspectivas são muito limitadas, pois para seu êxito é preciso um forte desempenho de Washington e a unidade da parte palestina. “A prioridade dos Estados Unidos é hoje restaurar sua credibilidade”, disse Robert Malley, ex-assessor de alto nível para questões do Oriente Médio do ex-presidente Bill Clinton (1993-2001) que hoje atua no não-governamental Grupo Internacional de Crise. “Devemos reconhecer o fracasso coletivo de nosso enfoque – compartilhado por Estados Unidos, Israel, ANP e o mundo árabe – sobre as questões do Hamás e de Gaza” acrescentou Malley. Um novo enfoque não deveria implicar necessariamente compromissos com o Hamás, mas, “uma posição pragmática e mais matizada”, explicou Malley.
O especialista considera que a participação em “um esforço maciço para ajudar o povo de Gaza” poderia ser uma maneira de cumprir o compromisso de Obama com um renovado compromisso dos Estados Unidos com o processo de paz palestino-isralense. Mas, para isso Washington deveria vencer numerosos obstáculos. Os mais notáveis são o bloqueio israelense de Gaza, as objeções ao não reconhecimento do Estado judeu por parte do Hamás e a conseqüente negativa do Quarteto – especialmente de Washington – a negociar com esse partido como único poder viável no território.
O ex-assessor de seis secretários de Estado norte-americanos Aaron David Miller, que hoje atua como especialista do Centro Internacional de Acadêmicos Woodrow Wilson, considera que Washington não tem muitas opções para assumir a reconstrução de Gaza, mas a comunidade internacional as tem. As leis norte-americanas proíbem dar apoio material ao Hamás, e o governo tem a política de “não fazer nada que fortaleça” esse partido. “Concordo com o senhor Malley de que uma das maneiras de dar credibilidade e confiabilidade aos Estados Unidos é abraçar o problema em Gaza, mas não o faremos, ou não podemos”, disse Miller à IPS. “O esforço para a reconstrução atrasará como conseqüência desses problemas políticos, o que é uma notícia ruim para os palestinos”, acrescentou.
Israel resiste a permitir a entrada em Gaza de materiais essenciais para a reconstrução, como aço, pois considera que poderia ser usado para fabricar armas. Por sua vez, a ONU distribui ajuda diretamente, disse Wittes, e às vezes chega ao extremo de transferir dinheiro de bancos ocidentais diretamente para a conta de funcionários públicos em Gaza. Alguns atores no conflito questionam este tipo de mecanismo. “Em qualquer conflito político, a ajuda humanitária se parece um pouco com um jogo de futebol”, ironizou a especialista da Instituição Brookings em declaração à IPS. A ajuda para a reconstrução é significativamente mais complicada do que a assistência humanitária, como a alimentar e médica. “O desafio é de outro nível, porque a transferência do dinheiro é mais difícil”, explicou. (IPS/Envolverde)

