EUA-IRÃ: Esperando uma mudança espontânea de regime

Washington, 13/02/2009 – O novo governo dos Estados Unidos já está confortavelmente instalado e fixando suas metas e políticas. Mas as próximas eleições no Irã semeiam dúvidas sobre um dos problemas mais embaraçosos: como tratar com essa república islâmica. “Estenderemos a mão se vocês afrouxarem o punho”, disse o presidente Barack Obama ao assumir o cargo. A declaração refletia suas promessas de campanha eleitoral de uma “diplomacia eleitoral ativa” com Irã.

Obama, em entrevista coletiva na segunda-feira, e seu colega iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, em outra entrevista na terça-feira, parecem ter relaxado um pouco os punhos, talvez abrindo caminho para uma melhoria nas relações bilaterais desde a Revolução Islâmica triunfante há 30 anos. O diálogo parece inevitável. Enquanto isso, transcorre um complexo debate em círculos políticos norte-americanos sobre como e quando iniciá-lo exatamente. O que Obama quis dizer, por exemplo, ao manifestar sua disposição de começar a dialogar “nos próximos meses”?

Com as eleições presidenciais iranianas programadas pra junho, em um processo que, além do mais, carece de pesquisas confiáveis, a alternativa de iniciar gestões antes ou depois de conhecido o resultado tem sérias implicações futuras. Quando o ex-presidente iraniano Mohammed Khatami (1997-2005) apresentou sua candidatura, essas dúvidas passaram a primeiro plano. Clérigo com dois mandatos presidenciais aos quais chegou por grande votação, o seu governo se caracterizou pelas tentativas de inclusão e de diálogo.

Seus esforços foram prejudicados por alguns elementos de linha dura entre os clérigos e pelo discurso belicoso do ex-presidente George W. Bush, que incluiu o Irã em seu “eixo do mal” uma semana após esse país ter cooperado com as primeiras instancias da campanha norte-americana no Afeganistão. A presidência de Khatami concluiu com o outrora popular movimento reformista desiludido e desmoralizado. Khatami, como presidente, poderia ser um excelente interlocutor de Obama, mas não se deve esperar muito dessa possibilidade. “A última coisa que Khatami precisa é ser considerado o candidato norte-americano”, escreveu o especialista em assuntos iranianos Trita Parsi no blog Huffington Post.

Do mesmo modo, comprometer-se em um diálogo com Ahmadinejad na presidência poderia afetar as possibilidades de Khatami. Mas os adversários do atual presidente acreditam que “será mais fácil lançar-se à diplomacia se as negociações começarem” já neste período, segundo Parsi. “Será mais difícil para os conservadores se oporem às conversações com um conservador na presidência”, explicou. O professor da Universidade de Columbia Gary Sick, ex-assessor para assuntos iranianos do Conselho de Segurança Nacional no governo Jimmy Carter (1977-1981), considerou que os Estados Unidos deveriam realizar pequenos gestos, mas com cautela, sem se envolverem demais na diplomacia nem nas eleições do Irã.

“Qualquer tentativa aberta de influir nas eleições quase certamente fracassará e terá conseqüências desastrosas”, escreveu Sick em uma análise para a revista National Interest. Além disso, “podemos estar seguros de que qualquer coisa que fizermos (e isso inclui não fazer absolutamente nada) será visto, registrado e interpretado em Teerã, provavelmente superinterpretado”, acrescentou.

Também propôs “passos simbólicos”, com a ratificação dos Acordos de Argel, de 1981, que puseram fim à crise dos reféns norte-americanos em Teerã e comprometeu Washington a não interferir nos assuntos iranianos. Ao mesmo tempo, se poderia preparar o caminho de organizações não-governamentais dos Estados Unidos no Irã e abrir uma representação diplomática de Washington em Teerã. “A reação iraniana” a esses pequenos passos “daria o rumo mais confiável para escolher e implementar uma estratégia de longo prazo”, disse Sick.

O colunista Roger Cohen, do The New York Times manifestou sua explícita preferência por um compromisso pré-eleitoral, embora limitado, com o Irã.

“O interesse mais forte do Ocidente é impedir outro mandato de Ahmadinejad. Como ele depende do enfrentamento com os Estados Unidos”, Obama não deveria se meter em seu jogo, disse Cohen. “Antes das eleições, Obama deveria declarar que seu governo busca um caminho de regime. Isso ajudaria Khatami ou, talvez, um conservador pragmático”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Ali Gharib

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