Nova York, 13/02/2009 – Os jornalistas estão cada vez mais desprotegidos diante da violência na América Latina, no Oriente Médio e no sudeste da Ásia, segundo o Comitê de Proteção de Jornalistas, dos Estados Unidos. “As ameaças contra a liberdade de imprensa são maiores hoje do que para a geração anterior, porque tem o objetivo de criar um clima de medo e intimidação”, afirmou Carl Bernstein ao apresentar o último informe da organização, com sede em Nova York. Bernstein, editor do The Washington Post, trouxe à tona, junto com Bob Woodward, o escândalo de Watergate nos anos 70, que levou à renúncia do presidente Richard Nixon (1969-1974).
Bernstein disse esta semana que a violência contra os jornalistas “ficou cada vez mais rotineira, porque é uma forma efetiva de frear seu trabalho sobe as circunstâncias mais horríveis”. No ano passado, pelo menos 41 profissionais foram assassinados. Mais de cem estão presos, segundo o documento “Ataque contra a imprensa 2008”, de 341 páginas. “Uma imprensa livre e enérgica esteve na vanguarda dos êxitos em matéria de direitos humanos nos últimos 30/40 anos, em sua luta para obter a melhor versão possível da verdade”, ressaltou.
“As ações e os atores mais depravados instauraram agora certo tipo de extremismo em sua tentativa por ocultar a verdade”, afirmou Bernstein na segunda-feira, em entrevista coletiva na sede da Organização das Nações Unidas. O presidente do CPJ, Paul Steiger, concordou, embora assinalando que houve “certos avanços”. A quantidade de jornalistas assassinados caiu de forma significativa, em primeiro lugar por uma redução das mortes registradas no Iraque, de longe o país mais perigoso para este trabalho. Nos últimos dois anos, 70% das mortes foram homicídios deliberados, segundo o informe do CPJ.
Em carta dirigida ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, Steiger pede a colaboração de Washington para defender o direito dos jornalistas realizarem seu trabalho sem serem alvo de disparos, agressões físicas ou detenções. “Nos últimos anos, esse apoio atingiu seu nível mais baixo. É hora de reafirmar esse princípio e investigar a morte de jornalistas assassinados por soldados norte-americanos e acabar com a prolongada detenção de profissionais no Iraque”, afirma Steiger na carta.
Por sua vez, o diretor-executivo do CPJ, Joel Simon, considerou que “a guerra contra o terrorismo” teve um impacto “devastador” sobre a imprensa, e acrescentou que ficou consternado pelo fato de o exército dos Estados Unidos ter matado 16 jornalistas no Iraque no ano passado. Simon também questionou o comportamento do governo chinês dizendo que Pequim, nervosa devido à pressão internacional, investiu contra os jornalistas.
“A tecnologia mudou o rosto do jornalismo. Os governos agora se interessam mais pelo uso da Internet. No Oriente Médio são suprimidas as notícias difundidas via satélite”, afirmou Simon. Na Rússia e na Geórgia, as autoridades assumiram o controle das ondas de rádio para reunir apoio às ações militares, disse Simon. As mensagens de texto por celular são hoje uma ferramenta fundamental para os jornalistas africanos, mas os “bad boys” também usam a tecnologia para ameaçá-los, acrescentou Simon. Consultado sobre o papel dos jornalistas norte-americanos, Steiger recordou que o CPJ, criado por correspondentes estrangeiros deste país em 1981, lidera desde então a luta pela liberdade de imprensa. “Pode-se justificar algumas críticas ao trabalho da imprensa norte-americana no período anterior à guerra do Iraque”, lançada em 2003, disse. “Mas, desde então houve uma grande cobertura que compreendeu todos os envolvidos e foi muito agressiva”.
Bernstein acrescentou que a cobertura jornalística de muitas das políticas controvertidas de George W. Bush foi “fabulosa”. Seu governo manteve muitos fatos sob o mais absoluto segredo, mas quase tudo o que se soube foi por investigação jornalística e não por ações do Congresso, por exemplo. Foi “algo terrível” limitar o trabalho da imprensa nas zonas de guerra aos profissionais que se integravam aos batalhões. “As restrições atentam contra o direito de saber do público”, disse Steiger. “As limitações impostas por Israel aos jornalistas em Gaza, alegando problemas de segurança, é uma desculpa, quando eles mesmos estão dispostos a correr os riscos”.
Simon disse que na Birmânia, China, Cuba, Tailândia e Vietnã foi onde mais se reprimiu o uso da Internet. Segundo ele, a imprensa independente no Irã “desapareceu”. Teerã “reprime muito os jornalistas”, assegurou. Perguntado sobre a liberdade de imprensa na Rússia, Simon respondeu que a situação foi “muito difícil e violenta” no ano passado e contou que um quarto jornalista da Novaya Gazeta foi assassinado. “Essa foi a mensagem para o jornal”, acrescentou.
A discussão “voltou ao ponto de partida”, segundo Bernstein. Na União Soviética, a censura à imprensa estatal era oficial e deixou “de funcionar pelas novas formas de comunicação, começando pelos vídeos”. A tecnologia mudou a equação “de forma gradual, por isso os governos repressores tiveram de buscar medidas mais draconianas, assim com os movimentos que se sentem ameaçados pelo fluxo de informação, para os quais os velhos métodos já não servem”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

