MIGRAÇÕES-EUA: Melhores oportunidades para os diaristas

Seattle, EUA, 04/02/2009 – Imigrantes e comunidades locais dos Estados Unidos juntam esforços para organizar o mercado de emprego dos diaristas, trabalhadores, em geral estrangeiros, que trabalham por dia e dependendo dia a dia da instável demanda. Há 25 séculos os antigos atenienses reservavam parte da praça principal da cidade (ágora) para facilitar o contato entre os trabalhadores que ofereciam seu trabalho e eventuais contratantes.

Nos Estados Unidos do começo do século XXI, esse intercâmbio acontece habitualmente na rua, isto é, nas esquinas diante dos estabelecimentos que vendem material de construção e jardinagem. Em muitos centros urbanos essa ágora evoluiu, com o esforço de diaristas, empregadores e cidadãos locais. Às vezes a preocupação que leva a essas soluções surge diante dos inconvenientes causados pela aglomeração de trabalhadores e contratantes na via pública, como, por exemplo, o tráfego congestionado e a falta de segurança. A instalação de centros de contratação impôs certa ordem nesse sentido, assim como justiça nos mecanismos de emprego temporário.

Entretanto, estes têm certas limitações. A maioria dos trabalhadores informais é de imigrantes sem residência legal. Isto dificulta seu contato com os empregadores formais e com as agências de colocação, bem como filiação a sindicatos. Também é restrito o alcance destes centros: um estudo de 2006 calculou que sua cota no mercado nacional de trabalho diarista era de aproximadamente 20%, enquanto 80% buscavam trabalho nas esquinas. A maioria destas organizações cresceu durante o auge econômico dos anos 90 e primeira metade desta década, quando o mercado da construção residencial estava aquecido. Agora, se esforçam para adaptarem-se ao colapso econômico.

Cada vez mais trabalhadores, imigrantes com residência legal ou não, recorrem ao mercado informal de trabalho após perderem empregos regulares. Em geral, as organizações de diaristas não se envolvem diretamente. Limitam-se a conseguir um lugar seguro para que trabalhadores e empregadores se reúnam, ajudam os trabalhadores a estabelecer salários mínimos e regras, verificam a capacidade do diarista e ajudam a resolver disputas. Em parte bolsa de trabalho, em parte cooperativas operárias, em parte organizações sem fins lucrativos, os centros de trabalho combinam várias modalidades para construir comunidades de apoio aos trabalhadores eventuais.

Não são sindicatos, mas desempenham algumas de suas funções. Impõem salários básicos, fornecem capacitação e defendem os direitos dos trabalhadores. Os diaristas dependem deles para conseguir trabalho, semelhante à bolsa de trabalho de um sindicato, e participam da tomada de decisões. Os sindicatos exploram maneiras de cooperar com eles. Não são organizações beneficentes, mas a maioria não tem lucro e não cobram de empregadores nem de trabalhadoras. Alguns se financiam em parte com dinheiro que obtêm de fundações e organizações afins.

Não são agências governamentais. Embora alguns recebam fundos de autoridades locais, também podem ter relações conflitivas com elas. Os centros de trabalhadores, um fenômeno híbrido, demonstraram durabilidade e produtividade em cerca de 60 cidades de todo o país. O primeiro abriu sua porta há menos de 18 anos na cidade de Los Angeles. Em Seattle, na costa do Pacifico, onde ficam as sedes das empresas Boeing e Microsoft, o Centro de Ajuda Solidária aos Amigos (conhecido como Casa Latina) serve aos diaristas há 15 anos.

Em uma das principais ruas, ao norte do centro da cidade, o Casa Latina atende trabalhadores e contratantes em um trailler e em um edifício de um andar aberto que dá para um pátio cercado. Quando o sol começa a surgir no fim da madrugada, já estão reunidas ali uma centena de pessoas, a maioria jovem e de idade média, entre elas umas poucas mulheres, buscando abrigo do intenso vento da baía de Elliott. Às seis horas começa o sorteio dos trabalhos diários. O pessoal do Casa Latina e voluntários no trailler completam os talões da rifa, a partir de listas de trabalhadores registrados em um computador.

“Eles lutam duro para ganhar a vida. São muito honestos e trabalhadores. Vêm aqui para seguirem em frente. E muitos construíram sua casinha ao regressar”, diz a coordenadora do Centro de Trabalhadores, Guadalupe Adams. Por volta das sete horas, um membro do centro chega com um grande recipiente de plástico contendo os boletos do sorteio. Adams os retira um a um e chama cada ganhador, escrevendo seu nome em uma lista numerada. Na medida em que são sorteados, à razão de 25 por dia, os operários partem para o trabalho em ordem.

Para muitos diaristas ficou difícil pagar moradia e alimento, e ainda mais enviar dinheiro para suas famílias no México ou na América Central, disse Pedro Jiménez, organizador do centro. Cada vez mais diaristas acabam nas ruas ou em abrigos para sem-teto, acrescentou. Muitos devem recorrer à caridade para se alimentar. Há dois anos podia-se trabalhar dois ou três dias na semana, lembra Juan Us Tiquiram,que trabalhou no setor da construção na Guatemala. “Na última semana e meia não trabalhei em nada. Nunca vi isto tão ruim”, disse Tiquiram, que não conseguiu pagar o aluguel nem do telefone.

Os trabalhos conseguidos pela Casa Latina diminuíram 70% há um ano, segundo a diretora do programa Araceli Hernández. Em outubro já haviam caído 50%.”Aqui as coisas estão muito ruins, mas em Los Angeles os números são ainda piores. É que muitas pessoas com emprego permanente foram demitidas”, acrescentou. Da maioria de trabalhadores que não consegue emprego através do sorteio diário, alguns buscam outro nas esquinas. Muitos continuam esperando que alguém lhes dê emprego diante do Centro de Trabalhadores até à tarde.

No meio da manhã, cerca de 20 voluntários vestindo jalecos laranja se reúnem para entregar folhetos em um bairro residencial para que os moradores saibam que seus serviços estão disponíveis. Jiménez, que organizou um sindicato no México, dirige um curso de capacitação em espanhol para sua equipe. “Estamos todos no mesmo barco. Hoje você distribui folhetos, amanhã será a vez de outros. É como uma cadeia”, disse. Ao aumentar a recessão nos Estados Unidos, e com uma situação ainda pior no México e na América Central, uns poucos adotam uma nova tática: dirigem-se ao norte, em busca de trabalho no Canadá. Alguns são presos na fronteira, mas outros encontram trabalho e asseguram que em território canadense são tratados com mais respeito por seus empregadores. (IPS/Envolverde)

Peter Costantini

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