Washington, 05/02/2009 – Há quase 30 anos, o xá Mohammad Reza Pahlevi, o autocrata monarca do Irã até então apoiado pelos Estados Unidos, fugiu de seu país para não mais regressar.
Ebadi pediu diálogo entre Estados Unidos e Irã, mas com uma base mais ampla do que uma mera deliberação entre governos, pois deverá incorporar cidadãos comuns e instituições da sociedade civil. “Há uma história de amizade entre os povos iraniano e norte-americano”, disse na segunda-feira, na lotada sala de conferencias da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, em Washington. “Quando falo de diálogo entre as sociedades civis dos países falo de conseguir algum entendimento entre os povos”, explicou. De todo modo, Ebadi também pediu a diplomacia pública, o diálogo entre presidentes e a deliberação entre funcionários governamentais.
Como concentra suas propostas nos povos, a prêmio Nobel rejeita as sanções contra seu país, que, adverte, castigam a população, e também as ameaças e inclusive o uso da força militar. As gestões para exigir o respeito dos direitos civis somente podem se realizar em um “período de paz”, afirmou Ebadi. Em sua campanha eleitoral Barack Obama expressou se desejo de dialogar com o governo iraniano, com isso deixando de lado as posições radicais de seu antecessor, George W. Bush, que não descartava o uso da força.
Aqueles que promovem sanções e ações militares contra o regime iraniano temem uma suposta corrida armamentista nuclear. O Irã enriquece urânio em suas centrais, e assegura que o faz com fins pacíficos. O governo do presidente Bush afirmava que Teerã tinha intenção de possuir armas atômicas. As deliberações ‘não deveriam se concentrar nas questões nucleares, mas no avanço dos direitos humanos”, afirmou Ebadi. “As negociações deveriam se concentrar nos povos dos dois países”. Obama ainda não deu detalhes de seus planos, que, em grandes traços, implicam comprometer-se em um diálogo diplomático sem pré-condições e descartar as ações para uma “mudança de regime”, pretendido por Bush, se Teerã mostrar mudanças em seu “comportamento”.
Alguns observadores mostram preocupação pela possível designação como enviado especial ao Irã de Dennis Ross, ex-negociador norte-americano nas gestões de paz entre Israel e o mundo árabe durante os mandatos de Bill Clinton (1993-2001) e Bush (2001-2009). Ross é co-presidente da campanha Unidos Contra um Irã Nuclear, tendo participado de sua fundação, e é um dos signatários de um estudo intitulado “Enfrentando o desafio: A política norte-americana para o desenvolvimento nuclear iraniano”. O informe, divulgado em setembro pelo Conselho Bipartidário de Políticas, propõe pré-condições para um diálogo com o regime iraniano. Ebadi não se referiu à questão nuclear em detalhe, mas rejeitou esse extremo. “Para resolver o problema, sempre preferi o diálogo sem pré-condições”, ressaltou.
As autoridades fecharam em dezembro a organização dirigida por Ebadi, o Centro para a Defesa dos Direitos Humanos, e confiscaram seus arquivos, com a desculpa de que praticava evasão de impostos. “Mas, continuamos com nossas atividades”, afirmou a ativista. Em janeiro, manifestantes cercaram sua residência e pintaram nos muros lemas contra a advogada, entre eles “Ebadi é norte-americana”. Um deles disse à imprensa iraniana que era membro do grupo paramilitar Basij, vinculado com a oficialista Guarda Revolucionaria. Consultada em Washington sobre seu regresso ao seu país e a possibilidade de pedir asilo político no Ocidente, Ebadi respondeu: “Sou iraniana. Nasci no Irã, vivo no Irã e morrerei no Irã. Depois de terminar minha visita aos Estados Unidos, voltarei diretamente para casa”.
As frases pintadas na casa da ativista refletem a tensa relação entre os dois países e a sensibilidade de Teerã diante do apoio dos Estados Unidos a ativistas pelos direitos humanos e a democracia no Irã. A feminista Sussan Tahmasebi disse à IPS em janeiro que os chamados do governo Bush para uma “mudança de regime” serviram de desculpa par ao governo iraniano reprimir os defensores dos direitos humanos. De todo modo, Ebadi afirmou que a comunidade internacional não deveria vacilar em exercer a crítica construtiva diante da situação dos direitos humanos no Irã. “Do mesmo modo que o governo iraniano pode falar das violações de direitos humanos na Palestina, outros podem falar sobre os que são cometidos no Irã”, ressaltou. (IPS/Envolverde)


