PERGUNTAS E RESPOSTAS: ' Disseram-nos Que Fôssemos para a Casa Mortuária'

NAIROBI, 16/03/2009 – Duas clínicas públicas com falta de pessoal e mal apetrechadas que atendem 600.000 pessoas: é em bairros como Dandora que se ganha ou se perde a batalha para reduzir a mortalidade materna. Os residentes deste bairro pobre na periferia de Nairobi muitas vezes têm de confiar na sua própria experiência – ou recorrer a charlatões – no que diz respeito a cuidados maternos ou quaisquer outras necessidades médicas.

A seis anos do prazo estabelecido para se alcançar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (MDG) das Nações Unidas, o Quénia continua atrasado quanto à redução da mortalidade materna (MM) em três quartos até 2015.

Um novo inquérito de saúde deverá estar concluído no fim de 2009; contudo, há seis anos o Inquérito de Saúde e Situação Demográfica do Quénia apontava para uma taxa de mortalidade materna de 414 mortes por 100.000 nados-vivos. O objectivo das Nações Unidas é 147 mortes por 100.000 nados-vivos até 2015.

A IPS falou francamente com Evelyn Mutio, enfermeira reformada, que trabalha agora no sentido de proporcionar cuidados de qualidade às pessoas de Dandora e de outros locais. A sua clínica privada, Casa de Saúde Mkunga, fundada em 1995, oferece principalmente serviços de saúde reprodutiva à comunidade desfavorecida – a preços mais baixos do que os cobrados em estabelecimentos de saúde pública.

IPS: Os últimos números oficiais relativos à mortalidade maternal no Quénia datam de 2003. O país teve algum progresso desde então?

Evelyn Mutio: A situação não mudou desde 2003. Se mudou, não é para melhor, pela simples razão que nem todas as mortes são registadas. Há mulheres que vão para os grandes hospitais, onde as mortes são registadas, mas o que é que acontece com aquelas mulheres que morrem a dar à luz em casa?

Ou aquelas nos bairros de lata como este onde, quando me comunicam que uma mulher sofre de complicações devido à gravidez, a comunidade já tentou ajudá-la, provocando um grande atraso na procura de ajuda profissional.

Quando decidem levá-la para o hospital, depois de deliberar qual é o hospital que podem pagar, começam com a minha clínica, mesmo aqui no terreno. Mas nessa altura é demasiado tarde, e não posso fazer o que é necessário; encaminho então o caso para o hospital Kenyatta (o principal hospital de referência do Quénia) ou a Maternidade Pumwani (a maior maternidade pública do país).

Quando juntam o dinheiro para chegar até lá, é demasiado tarde. Por vezes voltam a falar comigo para me dizer, “Quando lá chegámos, disseram-nos que fôssemos para a casa mortuária.”

IPS: Então o que é que pensa devia ser feito?

EM: É importante aumentar o número de estabelecimentos de saúde, aproximá-los das populações e reduzir custos ou até oferecer serviços gratuitos para que as pessoas possam ter acesso a tratamento profissional nos hospitais. A situação é ainda pior nas zonas rurais, como no Quénia Oriental, onde também trabalho. Morrem mulheres com complicações derivadas das suas gravidezes no caminho, ao palmilharem quilómetros para terem acesso a um estabelecimento de saúde.

Não só se devia construir mais hospitais e clínicas, mas estes estabelecimentos também deviam ter os trabalhadores de saúde profissionais necessários e estarem habilitados a lidar com complicações, em vez de encaminharem os pacientes para o Hospital Nacional Kenyatta em Nairobi, a agrande distância.

IPS: Que outros factores que contribuem para a mortalidade materna a preocupam?

EM: Também me preocupam as mortes causadas pelos abortos não seguros. As mulheres e as raparigas podem estar grávidas e as pessoas não sabem disso, porque elas escondem a gravidez por alguma razão. Não querem a gravidez e têm de se livrar dela. Fazem tudo para acabarem com a gravidez.

Por vezes vêm ter connosco e dizem “Preferia morrer a levar esta gravidez até ao fim.” Estes são os casos que nos preocupam mais. Digo isto porque, se uma mãe não quer aquela gravidez, vai ter silenciosamente com parteiras clandestinas ou algum charlatão, terá um aborto pouco seguro e depois aparecem as complicações.

Logo que descobre que não é aquilo que esperava, que está a sangrar muito e pode até morrer, nessa altura grita – e uma vez que estamos mais próximos da comunidade, trazem-na aqui a toda a pressa. Aí podemos ministrar o tratamento necessário, parar a hemorragia e salvar a vida da mãe.

IPS: Quão generalizado é este problema?

EM: Recebemos entre 20 a 30 pacientes todos os meses, número que baixou ligeiramente. Mas estão a fazer-se abortos não seguros, é um problema grave que deve ser resolvido porque contribui muito para a mortalidade materna.

IPS: Que desafios existem para resolver este problema?

EM: Há tão poucos prestadores de serviços de saúde que sabem o que é necessário fazer. Portanto precisamos de ter mais trabalhadores de saúde, em primeiro lugar para consciencializar a comunidade sobre como evitar gravidezes não desejadas. Falta esta informação.

Além disso, a informação sobre os diferentes tipos de anticoncepcionais também é crucial. A aceitação de alguns anticoncepcionais ainda é muito baixa. Agora estamos a defender o DIU (dispositivo intra-uterino), que é um método de planeamento familiar a longo prazo tão fácil de usar, não havendo o risco de o esquecermos como acontece com a pílula. Mas muitas mães não querem experimentar porque acreditam em mitos como aquele que diz que o dispositivo provoca cancro do colo do útero, ou que pode magoar o bebé quando decidirem engravidar.

Às vezes são os homens que se queixam que estão a ser picados durante as relações sexuais e portanto pedem às parceiras que removam o dispositivo. As mulheres vêm à clínica e, entre elas e nós, decidimos dizer que o removemos quando na realidade isso não foi feito. Quando regressam a casa, os maridos ficam contentes e vêm dizer-nos “muito obrigado. Agora não estou a ser picado.”

Assim ficamos a saber que está tudo na sua mente.

IPS: A disponibilidade de anticoncepcionais é um problema?

EM: Sim. Por vezes recebemos queixas que todos os métodos de planeamento familiar estão esgotados; não estão disponíveis nas clínicas governamentais. Uma vez que o governo nos fornece alguns desses produtos, quando se esgotam, também somos afectados. E depois temos de os comprar para dar aos nossos clientes.

O governo deve assegurar a fiabilidade dos abastecimentos para que as mulheres não sintam a falta de opções de planeamento familiar e se exponham ao risco de gravidezes não desejadas. É esta situação que pode levar a abortos não seguros, que representam um terço das mortes maternas.

Joyce Mulama

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