Medellín, Colômbia, 30/03/2009 – A crise econômica mundial levou os governos esquerdistas da Bolívia e do Equador a esquecerem suas críticas às instituições financeiras internacionais, compartilhadas por movimentos sociais, e pedir a recapitalização do Banco Interamericano de Desenvolvimento para que possa ampliar seus empréstimos. O Equador espera obter US$ 1,5 bilhão para financiar sua balança de pagamentos e gastos, somando US$ 500 milhões do BID e somas semelhantes da Corporação Andina de fomento e Fundo Latino-americano de Reservas (Flar). O anúncio foi feito pela ministra equatoriana das Finanças, Maria Elsa Viteri, na 50ª Assembléia Anual do BID, que começou sexta-feira e termina hoje nesta cidade colombiana.
O Flar, cirado em 1978 e integrado por Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Equador, Peru, Uruguai e Venezuela, empresta ou serve de garantia para empréstimos aos países-membros para apoiar suas balanças de pagamentos. A economia equatoriana sofre os efeitos da crise financeira mundial pela queda dos preços dos produtos básicos, especialmente do petróleo. A Bolívia, com problemas semelhantes, apóia uma nova capitalização do BID porque “a América Latina sofre as consequências da crise e precisa de mais investimentos”, disse o ministro do Planejamento do Desenvolvimento, Noel Aguirre, em entrevista coletiva em Medellín. Porém, o BID deve “apoiar o que os países fazem sem imposições e com uma visão que não afaste a economia das políticas sociais e que tenda a um desenvolvimento integral”, disse o ministro.
O desejo é que o Fundo de Operações Espciais do BID, destinado aos países mais pobres como Haiti, Honduras e Nicarágua, destine mais créditos, com juros menores e prazos maiores, explicou Hernando Larrazábal, diretor da instituição multilateral em representação à Bolívia.
Por outro lado, 42 organizações da sociedade civil reunidas em Medellín na Assembléia dos Povos rejeitaram a possível recapitalização do BID, marcando, assim, uma discordância com os governos boliviano e equatoriano que, em geral, contam com seu apoio. O BID “não merece esse aumento do capital”, que procederia de recursos públicos, disse à IPS Héctor Moncayo, professor de economia e pesquisador do Instituto Latino-americano de Serviços Legais Alternativos com sede em Bogotá. Seria melhor pensar em outra instituição regional, acrescentou.
O Bando do Sul, alternativa ao BID proposta pela Venezuela e à qual aderiram Bolívia e Equador, enfrenta dificuldades. O Brasil e outros grandes países resistem, por exemplo a idéia de em suas decisões cada país contar um voto, independente do capital aportado, disse Moncayo. Tampouco a idéia de capitalizar com reservas internacionais tem consenso, enquanto a crise mundial tende a agravar a discrepância e as desconfianças, acrescentou. Em sua opinião, a América Latina precisa de “medidas audazes”, como uma arquitetura financeira e monetária própria a partir de um sistema de compensação de pagamentos, e do fomento do comércio intrarregional. A crise econômica mundial “retarda a constituição do Banco do Sul”, o que dificulta ainda mais a captação de recursos, admitiu à IPS o ministro Aguirre.
O impacto da crise na região foi destacado por um informe da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), da Organização das Nações Unidas, divulgado sexta-feira. Os investimentos estrangeiros, que atingiram US$ 184 bilhões em 2007, caíram para US$ 89 bilhões em 2008 e podem diminuir para menos da metade este ano, enquanto é prevista uma queda de 9% nas exportações, segundo a Cepal.
Sem uma prestação de contas satisfatória e maior participação da sociedade nas decisões não se deveria ampliar o capital do BID, afirmaram membros da coalizão que organizou a Assembléia dos Povos em Medellín, como a peruana Pilar Camero, da organização não-governamental Direito, Ambiente e Recursos Naturais, e o argentino Juan Martín Carballo.
Na capitalização anterior, de 1994, já foram estabelecidas condições, como destinar mais crédito a projetos de redução da desigualdade na região. Mas os indicadores mostram que esse objetivo está longe de ser alcançado, apesar do grande aumento dos empréstimos do BID nesses 15 anos, destacou Diego Rodríguez, da fundação argentina M’Biguá de Cidadania e Justiça Ambiental. Para ele, é preocupante que o presidente do BID, Luis Alberto Moreno, anuncie reduzir os procedimentos burocráticos para diminuir pela metade, isto é sete meses, o prazo para aprovar projetos a serem financiados. O ativista considera que dessa forma se abandona o princípio da precaução.
O redução apressará empréstimos destinados a projetos que ameaçam a segurança alimentar e o meio ambiente, como os referentes à produção de agrocombustíveis que avançam sobre a floresta amazônica, destacou Margarita Flores, também do Instituto Latino-americano de Serviços Legais Alternativos. Além disso, a sede com que os países da América Latina buscam novos empréstimos em instituições internacionais pode gerar no futuro outra crise da dívida externa, acrescentou. A ministra Viteri anunciou à imprensa que o Equador vai divulgar em abril uma circular sobre como reestruturará parte de sua dívida externa, representada pelos bônus 2012 e 2030, que somam cerca de US$ 3,2 bilhões. O objetivo é reduzir essa dívida. IPS/Envolverde

