Cidade do Cabo, 30/03/2009 – Uma organização humanitária inaugurou um banco de alimentos na África do Sul que funcionará como um enorme depósito de onde será distribuída comida aos pobres. O conceito de banco alimentar é a última de uma série de iniciativas adotadas por organizações não-governamentais e Estados para reduzir a pobreza. Entre elas, a distribuição de cestas de alimentos, vales e subsídios sociais. O diretor-executivo do Banco de Alimentos da África do Sul, Patrick Andries, disse que o programa, que pretende se estender a todo o país, deseja ajudar os 20 milhões de sul-africanos pobres que vivem abaixo da linha de pobreza de um dólar diário.
“O conceito básico de banco alimentar é que existe um deposito central que coleta alimentos através de agências doadoras, fabricantes, agricultores, onde houver alimento disponível. Nós levamos esses alimentos para o depósito e reempacotamos e distribuímos às comunidades necessitadas”, explicou Andries. Mas, há dúvidas quanto a iniciativas como o Banco de Alimentos da África do Sul serem apenas soluções de curto prazo para o problema de longo prazo da segurança alimentar em uma das economias mais avançadas do continente.
Estatísticas da África do Sul indicam que a inflação anualizada dos alimentos chegou a 16,1% em janeiro, o que é surpreendentemente alto em comparação com as tendências mundiais de baixa. Nos Estados Unidos, por exemplo, a inflação foi de 2,7% e na Grã-Bretanha de 3,2%. “Somos (mais que) o resto do mundo afetado por elevados preços dos alimentos. Esta é uma preocupação importante para os grupos mais vulneráveis de nossa sociedade”, disse Priscilla Sehoole, encarregada de comunicações no Departamento de Agricultura. Grain South Africa, associação de produtores especializados em produtos derivados dos grãos, alertou que as abundantes colheitas do país dos últimos 10 anos diminuirão.
A associação informou que muitos agricultores estão abandonando o setor devido à falta de rentabilidade. Dados do Departamento de Agricultura mostram os primeiros sinais dessa tendência. A África do Sul produziu 12 milhões de toneladas de milho em 2008, três milhões a mais do que a demanda nacional. Para este ano se prevê que serão produzidos dois milhões de toneladas a menos. A África do Sul importa trigo, o que tem impacto direto sobre os preços de alimentos básicos como o pão.
O presidente da Grain South Africa, Neels Ferreira, disse à IPS que os produtores estão descontentes por questões relativas à baixa rentabilidade e ao alto risco da agricultura. Os produtores precisam de mais apoio e subsídios do governo para poderem produzir alimentos saudáveis e economicamente acessíveis, afirmou. “A capacidade dos agricultores em produzir alimento barato e gerar lucro é a única maneira de os sul-africanos estarem seguros de ter alimentos a um preço que possam pagar”, disse Ferreira.
John Rook, coordenador político do Programa Regional sobre Fome e Vulnerabilidade, disse que uma solução poderia ser a diversificação de alimentos básicos na África do Sul. Acrescentou que se deveria incentivar os agricultores a plantar e usar alternativas ao milho que sejam igualmente nutritivas, como o sorgo. Rook disse que a disponibilidade de mais produtos melhora a segurança alimentar e que, assim, os preços caem. “Como princípio geral para a África austral em seu conjunto necessitamos ver a segurança alimentar como uma dimensão multi-matéria-prima”, acrescentou.
As políticas agrícolas oficiais são criticadas por produtores e especialistas agrícolas e também por ativistas como Andile Mngxitama, que culpou o governo por não cumprir seu compromisso de redistribuir 30% da terra entre 1994 e 1999. Mngxitama disse que desde que a África do Sul se converteu em uma democracia, apenas 5% da terra foram concedidos aos pobres. Ele acredita que se a maioria dos sul-africanos pobres recebesse uma adequada terra fértil, a agricultura de subsistência aumentaria, promovendo a autosustentadabilidade.
Com tantos fatores afetando a segurança alimentar na África do Sul e no continente em geral, fica evidente que não haverá solução rápida para reduzir a insegurança alimentar, a fome e a pobreza. Para a professora Cheryl Hendricks, diretora do Centro Africano para a Segurança Alimentar, da Universidade de Kwazulu-Natal, em Burban. Solucionar o quebra-cabeça da segurança alimentar é uma tarefa que transcende às preocupações dos agricultores comerciais. Hendricks sugeriu um forte apoio aos pobres do país, mediante programas de desenvolvimento que busquem gerar renda.
Ela crê que os subsídios sociais poderiam ser um meio efetivo para a redução da pobreza se estivessem vinculados a condições de produtividade e desenvolvimento de capacidades. “Os investimentos no setor informal com programas de microfinanças, capacitação empresarial, de mercado e incubadoras empresariais também ajudam as famílias pobres a terem acesso a renda adicional”, acrescentou Hendricks, lembrando que todos os setores da sociedade têm de ter um papel na luta contra a pobreza.
“O setor privado pode ajudar ampliando as oportunidades de emprego para os pobres, dando oportunidades para o desenvolvimento de capacidades e renda. As organizações não-governamentais são muito ativas em vários papéis, desde o lobby até o desenvolvimento de programas de alimentação e atenção com a saúde. Se elas e o setor privado se unem, pode-se chegar a mais pessoas”, afirmou. IPS/Envolverde

