Havana, 03/03/2009 – Em sentido contrário às campanhas contra o tabagismo, consumidores, comerciantes e especialistas se reuniram na semana passada em Havana para fumar e tomar pulso do comércio de charutos cubanos, em um contexto que pode sofrer uma virada se os Estados Unidos modificarem sua política em relação a Cuba. Segundo executivos da Habanos SA, esta empresa que comercializa os exclusivos puros cubanos realizou vendas de US$ 390 milhões em 2008, 3% menos do que no ano anterior, devido às restrições ao fumo, à crise financeira mundial e à queda do turismo, entre outros fatores.
Porém, os diretores reagiram com moderação diante das notícias de Washington, onde a Câmara de Representantes dos Estados Unidos acaba de aprovar o fim de algumas restrições a viagens e existem alguns movimentos contrários ao embargo econômico e comercial que o governo norte-americano mantém contra Cuba. “Naturalmente, nestes tempos de crise uma possível abertura cairia muito bem para nós”, disse à IPS o vice-presidente da Habanos SA, Manuel García. É um mercado com “um potencial muito grande”, reconheceu, mas não quis calcular a quanto poderiam chegar as vendas de charutos para os Estados Unidos.
Cuba possui 70% do mercado internacional de charutos enrolados à mão, com exceção dos Estados Unidos e de seu Estado livre associado Porto Rico, fechados ao intercâmbio comercial com esta ilha desde a década de 60. García não acredita que os cubanos possam aspirar ter ali uma presença como a que possuem no resto do mundo. As estimativas indicam que anualmente são vendidos entre 380 e 400 milhões de puros no mundo, e 250 milhões correspondem a consumidores dos Estados Unidos.
“Este é um mercado que se acostumou a outro tipo de produto, mas penso que ali temos um potencial muito grande”, afirmou García. Mas, “com todos os problemas” que afetam o negocio do tabaco, é melhor nos ocuparmos com os mercados onde já atuamos, acrescentou. “Precisamos nos concentrar nisso e não em uma possível abertura do mercado norte-americano, porque ninguém sabe quando isso pode acontecer. Está fora do controle de nossa empresa”, disse durante o recesso de um seminário no qual alertou que em 2009 também não será fácil para o negócio do puro cubano. “No ano passado começou a crise econômico-financeira, e no atual entrará em ação a crise de consumo, e devemos estar preparados”, afirmou.
Os charutos cubanos, considerados os melhores do mundo, têm seu principal mercado na Europa, com 62% de suas vendas. A seguir estão América Latina (16%), Oriente Médio (10%), Ásia (7%), África (3%) e América do Norte (Canadá, com 2%). A empresa cubana tem 114 Casas do Habano distribuídas pelo mundo e presença em 150 países. Entre os fatores que reduziram o comércio em 2008 García mencionou a redução em 11% do transporte internacional de passageiros, pois quase um quarto das vendas eram feitas no setor comercial livre de impostos nos pontos de embarque.
O alívio nas restrições a viagens de cubanos-norte-americanos dos Estados Unidos para a ilha teria um impacto favorável. A proposta voltada na câmara baixa norte-americana permitira a essas pessoas visitar seus parentes em Cuba uma vez por ano e gastar US$ 170 por dia. O governo de George W. Bush limitou essas viagens para uma a cada três anos, com gasto diário até US$ 50 e uma permanência máxima de 14 dias. Por sua vez, o senador Richard Lugar, do Partido Republicano, chamou o governo de Barack Obama a realizar uma profunda revisão das políticas hostis à Cuba, que estão em vigor há meio século.
Em seu informe, baseado em uma visita de seus assessores a Cuba, Lugar disse que o embarco “não defende os interesses nacionais” dos Estados Unidos, em uma iniciativa que especialistas consideram significativa por criar um contexto que ultrapassa a questão do levantamento das restrições às viagens e às remessas de dinheiro. “Ao que parece, aqui está se dando uma importância muito pequena ao assunto, à espera de um pronunciamento de Obama”, disse à IPS um empresário latino-americano com negócios em Cuba. Durante sua campanha eleitoral, Obama falou de uma política mais flexível para Havana, mas com manutenção do embargo.
Mesmo sem o fim do bloqueio, o impacto maior no turismo, e, em consequência, nas vendas de charutos no mercado cubano em divisas, poderia vir do eventual fim da proibição de cidadãos norte-americanos viajarem par Cuba. Segundo estudos de mercado, não havendo essa restrição, no curto prazo visitariam esta ilha 1,3 milhão de turistas e meio milhão de viajantes de cruzeiros. Caso o bloqueio seja levantado, os visitantes norte-americanos chegariam a cinco milhões ao ano.
Apesar das proibições ao comércio impostas por Washington, uma emenda legislativa aprovada em 200 permite a compra cubana de alimentos nos Estados Unidos. De 2001 a 2008 essas importações somaram US$ 2,7 bilhões e podem aumentar se Obama suavizar as condições para tais compras. De acordo com as normas impostas por Bush, as transações devem ser feitas à vista e antes da chegada das mercadorias. A iniciativa aprovada na Câmara de Representantes, que ainda deve ser analisada pelo Senado, criaria uma licença geral de viagens a Cuba para os norte-americanos que lhe vendem alimentos e remédios e eliminaria a obrigação do pagamento em dinheiro adiantado da fatura agroalimentar. (IPS/Envolverde)

