Pequim, 03/03/2009 – Os pontos anotados pelos altos funcionários chineses com uma série de acordos energéticos obtidos nas últimas semanas para garantir abastecimento à sua voraz economia revelam o oportunismo de Pequim nesse assunto, segundo vários analistas nacionais. “O êxito dos acordos entre governos cria antecedentes para futuros empreendimentos de alto nível no setor energético”, disse Wu Jiandong, analista e assessor da revista China Reform. “As previsões indicam que a crise financeira internacional vai durar entre três e cinco anos, o que favorecerá o surgimento de mais países em fazer acordos de longo prazo com a China”, acrescentou.
As autoridades chinesas concluíram acordos com Brasil, Rússia e Venezuela por mais de US$ 41 bilhões. O mais chamativo é que os convênios foram obtidos por altos funcionários governamentais. Após a viagem do vice-presidente chinês, Xi Jinping pelos principais produtores de petróleo da América Latina, em janeiro, a Venezuela conseguiu empréstimo de S$ 6 bilhões para aumentar suas exportações de petróleo para a China. No Brasil, Xi fechou um acordo de “assistência por petróleo” com a Petrobras no valor de US$ 10 bilhões, que garante à China mais 160 mil barris (de 159 litros) por dia ao preço de mercado.
Além disso, o primeiro-ministro Wen Jiabao selou outro acordo com seu colega russo em Pequim, pelo qual a estatal russa de petróleo Rosneft e a responsável pelos oleodutos Transneft receberão US$ 25 bilhões em troca de 15 milhões de toneladas de petróleo por ano durante duas décadas. O acordo com Moscou foi obtido após quase 15 anos de negociações entre China e Rússia para estender um oleoduto-chave, da Sibéria ao nordeste chinês. Por apostar na venda de seu petróleo à melhor opção entre China e Japão, as autoridades russas não autorizaram a construção desse ramal.
Mas a visita o presidente Hu Jintao em fevereiro à Arábia Saudita, principal fornecedor deste país, revelou a determinação de Pequim em recorrer a uma diplomacia mais contundente para garantir o fornecimento de petróleo no longo prazo, segundo observadores locais. “A visita de Hu à Arábia Saudita e a decisão chinesa de diversificar suas fontes de petróleo fez soar o alarme em Moscou, que precisou se dar conta de que as coisas mudaram e que a China não está mais disposta a esperar”, disse Wang Lijiu, do Instituto de Relações Internacionais Contemporâneas à publicação China Business Journal.
A iniciativa da China para consolidar acordos acontece em um contexto de instabilidade mundial, que levou o preço do barril do máximo histórico de US$ 145, em meados de 2008, aos UIS$ 40 de hoje. Além disso, a queda dos lucros e a crise do crédito levaram as corporações estrangeiras e os governos, que antes eram cautelosos, a valorizarem mais as propostas das ricas empresas chinesas. “Esta é uma oportunidade que a China não pode desperdiçar”, afirmou Wang Xia, especialista em energia da estatal China University of Petroleum. “Se esperarmos a economia se recuperar e os preços voltarem a subir, será muito mais difícil garantir acordos de longo prazo”, disse.
Consciente de que a crise representa uma oportunidade única, a Administração Nacional de Energia criou um fundo especial para que as estatais do setor comprem petróleo no exterior. As beneficiarias dessa generosidade são China National Offshore Oil Corporation (CNOC), China National Petroleum Corporation e Sinopec. A destinação de quase US$ 2 bilhões às companhias beneficiárias propicia empréstimos a juros baixos e capital direto para financiar suas compras de petróleo. Mas a iniciativa pode fazer soar alarme internacional, pois as firmas estatais chinesas foram acusadas de dar às suas companhias vantagens sobre a competição.
Esse temor frustrou os planos da CNOC de comprar a norte-americana Unocal em 2005, apesar de sua oferta ser melhor do que a da Chevron. A pressão de Washington a obrigou a deixar a competição. Mas o aprofundamento da crise financeira e seu enorme impacto sobre os países ricos levou à mudança da percepção da situação, segundo a analista Tong Lixia. “Diante da falta de divisas, quando há dificuldade para conceder créditos fortalece a posição negociadora chinesa”, afirmou. E com a baixa dos preços de outros bens-chave, Pequim percorreu o mundo para garantir suas reservas de petróleo e de outros recursos naturais.
A estatal de alumínio Chinalco anunciou em fevereiro investimento de US$ 19,5 bilhões na empresa de mineração anglo-australiana Rio Tinto, especializada em minérios de ferro, cobre e alumínio. A China Minmetals Corporation adquiriu a australiana OZ Minerals, grande produtora de zinco, por US$ 1,7 bilhão. Alguns analistas sugeriram que além de garantir certos recursos-chave, as empresas chinesas deveriam aproveitar a crise para adquirir tecnologia e companhias estrangeiras. O próximo objetivo de algumas firmas da China poderia ser os atribulados fabricantes de automóveis dos Estados Unidos e da Europa, segundo Li Caokui, diretor do Centro para a China na Economia Mundial, da Universidade Tsinghua. (IPS/Envolverde)

