ECONOMÍA-CUBA: A volta do turismo

Havana, 24/03/2009 – O crescimento do turismo em Cuba nos primeiros dois meses deste ano renova as expectativas sobre o papel de um setor antes considerado a locomotiva do desenvolvimento desta ilha, por seu rápido aumento na década de 90 e pelos efeitos sobre as demais áreas da economia. A expansão de 5,2% nesta atividade até fevereiro, anunciado pelo ministro do Turismo, Manuel Marrero, representa uma notícia muito boa para Cuba, que tenta se recuperar a devastação provocada por três fortes furacões em 2008, em meio a uma crise econômica global cujas consequências ainda não são conhecidas com exatidão. “O turismo pode retomar o papel de locomotiva se forem levantadas as restrições às viagens de norte-americanos para Cuba”, afirmou o economista Pavel Vidal, em um artigo publicado no Economics Press Service, do escritório da IPS em Havana.

Na semana passada, o Congresso norte-americano aprovou uma lei que permite à comunidade cubano-norte-americana visitar seus familiares uma vez ao ano, o que – se espera – aumente o número de voos para Cuba, que caiu cerca de 75% desde 2004 por causa das restrições estabelecidas por George W. Bush. Estima-se que pelo menos um milhão de turistas procedentes dos Estados Unidos chegariam a esta ilha somente no primeiro ano, com a eliminação da proibição que pesa sobre os cidadãos desse país desde os anos 60, como parte das regras do embargo econômico. O economista Armando Nova afirmou em um artigo que o turismo tem um efeito multiplicador que se manifesta em investimentos em outros setores da economia.

Nos últimos 15 anos fora introduzidas transformações tecnológicas na agricultura, indústria leve, montagem e fabricação de elevadores e sistemas de climatização, comunicações e na indústria de materiais de construção, entre outras áreas, o que permitiu cobrir 68% da demanda gerada pelo turismo. Porém, afirma Nova, este impacto em outros setores diminuiu devido à redução dos investimentos, ao retrocesso no processo de integração com a indústria e a agricultura, às dificuldades para importação de insumos que garantam as produções nacionais e o encarecimento destas e, ainda, pela valorização do peso conversível frente a outras divisas. “Além de uma renda considerável, esta atividade de serviços possui um encadeamento para trás e para frente, e se distingue por melhorar a estrutura econômica do país e sua diversificação”, afirmou Nova em seu artigo.

Antes de 1990, o governo cubano centrou seus esforços no desenvolvimento da indústria açucareira, que lhe garantia um financiamento estável proveniente de seus aliados socialistas da Europa do leste. Até esse ano, o número de visitantes estrangeiros chegava a apenas 300 mil. Porém, a crise econômica forçou as autoridades apostarem em uma renda de divisas alternativa. Entre 1990 e 2006, o turismo atraiu a sétima parte dos investimentos totais, enquanto o número de viajantes aumentou até superar os dois milhões. Armando Nova não é partidário da existência de uma locomotiva da economia, mas de vários setores líderes. “O aceitável em economia é a diversidade de fontes de divisas, não ter apenas uma. Isso dá mais segurança constante, constância e sustentabilidade à economia”, afirmou.

A exportação de serviços profissionais e técnicos, em particular a cobertura médica fornecida à Venezuela, substituiu o turismo nos últimos cinco anos. Segundo o Escritório Nacional de Estatísticas, este item proporcionou divisas no valor de US$ 8,4 bilhões no ano passado, mais que o triplo obtido pela atividade turística. “Mas, não se pode dizer que essa seja a locomotiva da economia, pois tem poucos encadeamentos e efeito multiplicador sobre os demais setores”, disse Vidal. “O turismo cubano dispõe de uma competitividade intrínseca que se apóia principalmente em qualidade das praias, clima, condições sanitárias, segurança para o turista e riqueza cultural”, afirmou o especialista.

Em 2008 chegaram a Cuba mais de 2,8 milhões de turistas, aumento de 9,3%, ao mesmo tempo em que a entrada bruta de divisas cresceu 13,5%. Essa alta, após dois anos de queda, constituiu um resultado excepcional no Caribe. Segundo um informe da Organização de Turismo do Caribe (CTO) sobre o desempenho comparativo 2007/2008, 11 dos 26 países registrados reportaram quedas ou estagnação na chegada de visitantes estrangeiros. Em dezembro, as estatísticas confirmaram a queda em nações que recebem mais de um milhão de turistas, com Bahamas e Porto Rico, com baixas acima dos 2%, ao mesmo tempo em que a República Dominicana mantinha um nível idêntico ao de 2007. Entretanto, a Jamaica conseguiu crescer 3,9%.

A CTO considera que, no curto prazo, vários fatores poderão influir sobre o desenvolvimento deste setor vital para a região, entre eles a crise financeira global e seus efeitos nos Estados Unidos, principal mercado emissor; a instabilidade dos preços do petróleo e a debilidade do dólar frente a outras moedas. Em outro sentido, a percepção existente sobre o Caribe como uma região relativamente segura e estável favoreceria o desempenho do turismo. IPS/Envolverde

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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