IBERO-AMÉRICA: Cortar o círculo vicioso

Porto, 05/03/2009 – As palavras do ministro das Finanças de Portugal, Fernando Teixeira dos Santos, encontraram eco entre seus pares da América Latina, Espanha e Andorra quando alertou para o perigo que representa o círculo vicioso que se está criando entre o deteriorado sistema financeiro e a economia real. A reunião de ministros das Finanças e governadores de bancos centrais iberoamericanos, realizada na cidade do Porto, capital da Região Norte de Portugal, concluiu que o mais urgente é uma ação internacional coordenada que rechace o protecionismo, apóie o crescimento da atividade econômica e o emprego e reforce o sistema financeiro.

No domingo e segunda-feira (01 e 02/03), os ministros avaliaram a crise internacional e prepararam propostas de medidas a serem apresentadas na próxima reunião do Grupo dos 20, formado pelas principais potências indústrias e países emergentes, interessados no sistema financeiro internacional, que acontecerá dia 2 de abril em Londres. O G-20 é formado por Brasil, Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão, Rússia, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, China, Índia, Indonésia, México, República da Coréia, África do Sul, Turquia e um representante da União Européia. Embora a Espanha não faça parte do grupo, conseguiu um lugar na cúpula após realiza um intenso lobby.

A posição iberoamericana será exposta em Londres pelas delegações de Brasil, Argentina e México. Portugal exerce a presidência da Comunidade Iberoamericana e será o anfitrião da XIX Conferência de Chefes de Estado e de governo, que acontecerá em Estoril, distrito de Lisboa, nos dias 30 de novembro e 1º de dezembro deste ano, sob o lema “Inovação e Ciência”. Participaram da reunião no Porto os ministros das finanças de Braisl, Andorra, Argentina, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Chile, Cuba, Equador, El Salvador, Espanha, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Peru, Paraguai, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.

Também estiveram presentes o secretário-geral da Comunidade Iberoamericana, Enrique Iglesias; a vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe, Pámela Cox, e o diretor do Fundo Monetário Internacional para o Hemisfério Ocidental, Nicolás Eyzaguirre. Outros assistentes foram Enrique García, presidente da Corporação Andina de Fomento (CAF); Luis Alberto Moreno, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), e o secretário-geral da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), Angel Gurría.

O ministro Fernando Teixeira destacou que o encontro se destinou a refletir sobre “a melhor maneira de combater a crise econômico-financeira” com o propósito de adotar “uma postura coordenada dos países iberoamericanos”, que contribua para que na cúpula londrina se chegue a “soluções para o problema global” que o mundo enfrenta. Governantes e especialistas admitem as falhas do sistema de supervisão – assentadas na autorregulamentação e na suposta disciplina do mercado – difícil de garantir em momentos de otimismo exagerado como o que se vivia antes da crise.

O anfitrião destacou “a necessidade de conter tendências protecionistas”, dando importância à adoção de medidas “que promovam o comércio internacional e o correto funcionamento do mercado, aumentando os fluxos comerciais e de investimentos”. Em reforço aos conceitos do ministro português, Cox afirmou que “nenhum país do mundo vai escapar da crise” e que “o protecionismo não é solução”, sendo necessária uma estratégia internacional coordenada. Cox assegurou que “neste momento ninguém no mundo sabe o que fazer, mas se a crise revelou alguma coisa é o quanto estão interligadas as economias, não apenas pelos sistemas financeiros, mas também pelas exportações e produção de bens e serviços. Qualquer solução precisa de todos os países em volta de uma mesa”.

Durante o encontro, concordou-se que os efeitos da crise se estenderam rapidamente a todas as economias, incluídas as de reduzida exposição aos chamados “ativos tóxicos”, em referência aos investimentos em carteiras ruins ou de risco e ao mercado de dívidas hipotecárias dos Estados Unidos. As últimas previsões do FMI indicavam crescimento do produto mundial de 0,5% para este ano, contra 5,2% em 2007 e 3,4% no ano passado.

Entretanto, Eyzaguirre admitiu que a situação da economia mundial seria ainda pior, provavelmente com uma contração da atividade produtiva. “Esta é uma crise muito severa e verdadeiramente global, como se nota pelo colapso do comércio internacional e da produção industrial em todo o mundo, e não se pode dizer que as coisas estão melhorando”, destacou o funcionário do FMI. Outros dados preocupantes são os referentes ao desemprego que, segundo a Organização Mundial do Trabalho (OIT), passará dos 7% este ano, contra 6% em 2007 e 5,7% em 2008.

A América Latina, menos vulnerável aos efeitos da crise, segundo FMI e OIT, poderia experimentar crescimento de seu produto interno bruto, mas, mais modesto do que nos últimos anos. Iglesias recordou que para a América Latina esta é “uma crise importada” e o continente já sente seus efeitos, apesar de sua melhor preparação para enfrentá-la. Iglesias disse à IPS que é “motivo de grande preocupação” o avanço do protecionismo internacional, e recordou a experiência de 1930, quando “prevaleceram soluções de curto prazo que levaram ao protecionismo”.

Perguntado sobre o caminho a seguir, Iglesias destacou que “é importante olhar para a história, para que não se repita”. Hoje se vive “uma situação excepcional” após a qual “nada será igual”, mas, “daqui em diante sairá um mundo novo, que, esperamos, seja melhor”, concluiu. Por sua vez, o secretário-geral da OCDE fustigou o erro maciço “na regulamentação, supervisão e administração do risco” financeiro. Gurría destacou que será preciso “melhorar esses aspectos para que os mercados não caminhem mais rápido do que os reguladores e a inovação e a criatividade não sejam sinônimos de abusos e desordem, mas de progresso”.

As previsões do presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, indicam que os mercados financeiros terão produtos mais simples e mais transparentes depois da crise. Mierelles afirma que o período após a depressão deverá se caracterizar por menor exposição ao risco, com maior transparência, acompanhada por maior coordenação das entidades reguladoras financeiras dos países, para dar “respostas globais a problemas também globais”. Meirelles deu como exemplo “as enormes dificuldades” que o BC encontrou em plena crise para coletar informação sobre as colocações monetárias que as instituições financeiras tinham fora do Brasil.

Os maiores defeitos do sistema financeiro internacional – explicou – são a falta de supervisão de algumas operações, falta de previsão de riscos sistêmicos, desvalorização dos riscos de liquidez e excesso de confiança nas agências de crédito. Mierelles recomenda adotar “colchões reguladores” que atenuem os efeitos de uma eventual nova crise, bem como o estabelecimento de mecanismos que facilitem a intervenção dos bancos centrais. Desta forma, “o sistema continuará global, interligado e aberto”, concluiu. (IPS/Envolverde)

Mario de Queiroz

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