REPORTAGEM: Focas do Báltico ficam sem gelo

BERLIM, 31/03/2009 – (Tierramérica).- Uma aparente contradição marca a sorte de milhares de filhotes de focas aneladas no Mar Báltico: o derretimento do gelo as faz morrer de frio.

Foca anelada em águas do Mar Báltico - Photo Stock

Foca anelada em águas do Mar Báltico - Photo Stock

A s focas aneladas do Mar Báltico estão ficando sem as grutas geladas onde engordavam seus filhotes. Dessa forma, por culpa do aquecimento global, pode desaparecer o alimento do urso polar, afirmam cientistas. Desde que o filme Uma verdade inconveniente mostrou um urso polar (Ursus maritimus) nadando para um solitário e quebradiço bloco de gelo, o risco de extinção dessa espécie se converteu em símbolo das consequências da mudança climática. Essa cena do documentário feito pelo ex-presidente dos Estados Unidos Al Gore não foi filmada ao vivo, mas editada em computador. Porém, sua mensagem é coerente com os prognósticos de muitos pesquisadores: o urso polar está em perigo.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) classifica essa espécie como “vulnerável” e considera a mudança climática sua principal ameaça, sobretudo porque o derretimento das geleiras do Polo Norte, que constituem seu habitat, reduz suas possibilidades de alimentação. O principal alimento dos ursos polares são as focas, entre elas as aneladas (Pusa hispida), cujo habitat se estende das regiões árticas ao Mar Báltico. De acordo com o último informe do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), o degelo quase total de algumas regiöes do Báltico, em especial os golfos de Botnia e de Riga, e o arquipélago de Aland, colocam em risco a subsistência das focas recém-nascidas nessa área.

O Golfo de Botnia, entre Suécia e Finlândia, é a região mais setentrional do Báltico e o Golfo de Riga está situado entre Letônia e Estônia. O arquipélago Aland, sob jurisdição finlandesa, é constituído por cerca de 6.500 ilhas, também localizadas entre Suécia e Finlândia. “As focas aneladas dão à luz em meados de fevereiro e se abrigam em grutas formadas no gelo flutuante, durante as primeiras sete ou oito semanas de vida de seus filhotes, período em que acumulam gordura suficiente para sobreviver à gelada água do mar”, disse ao Terramérica a especialista em Biodiversidade do Mar Báltico, Cathrin Münster, do WWF. “Por causa da falta de gelo nas Ilhas Aland e no Golfo de Riga, as focas nascidas neste inverno não terão essa proteção e seguramente não sobreviverão”, acrescentou.

Com a banquisa (placa de gelo flutuante) debilitada ou insuficiente, os filhotes são obrigados a nadar sem a vital proteção de gordura nas águas frias do mar, e morrem de hipotermia e desnutrição. No início do século XX, a população de focas aneladas do Mar Báltico era de 180 mil animais. Atualmente, segundo estimativas do WWF, está entre sete mil e dez mil exemplares. “Durante o século passado, a caça e a contaminação ambiental dizimaram a população de focas no Báltico”, disse Münster. Nos últimos anos, como acontece com o urso polar, o principal inimigo das focas é a mudança climática. Aland e Riga são habitat de cerca de 1.700 focas. Isto significa que o degelo da placa flutuante ameaça a vida de quase 25% da população total da espécie no Báltico.

O inverno boreal que está terminando será o segundo consecutivo com alta mortandade de filhotes de foca por falta de gelo. No inverno 2007-2008, a maioria dos recém-nascidos morreu em três das quatro regiões bálticas habitadas pela espécie. De acordo com a agência federal alemã de Hidrografia e Navegação Marítima (BSH), o degelo do inverno passado no Báltico foi o maior observado em quase 300 anos, desde 1720, quando começaram as primeiras medições. Segundo a BSH, em todo o século passado, com exceção das temporadas de inverno entre 1960/61 e 1988-89, o Golfo de Botnia se mantinha completamente gelado em fevereiro e até meados de março. Mas, em invernos recentes, o degelo é tão rápido que, em meados de março, a massa de gelo é tão pequena quanto a observada em dezembro.

Estimativas do Instituto Meteorológico da Finlândia confirmam esta observação: a placa de gelo flutuante do Báltico alcançou em fevereiro uma superfície de 105 mil quilômetros quadrados. Embora essa área tenha duplicado a registrada no inverno anterior, representa apenas 25% da de 1985, a temporada mais gelada na história da região, quando a cobertura de gelo chegou a 400 mil quilômetros quadrados. Münster acredita que a morte em massa de focas bálticas é o anúncio e a consequência da mudança climática. “Sem gelo a foca anelada, como muitas outras espécies das regiões mais setentrionais, não pode sobreviver”, afirmou. A foca precisa de pelo menos 90 dias no gelo para não morrer. Além disso, a placa de gelo flutuante deve ser suficientemente extensa e espessa para garantir a proteção dos recém-nascidos.

Projeções de várias entidades, especialmente do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC), alertam que se nas próximas décadas a temperatura média do planeta aumentar mais do que dois graus, até o final do século XXI o volume das geleiras do Polo Norte e regiões próximas poderá diminuir em até 80%. O derretimento da placa de gelo flutuante significará que durante o inverno no Báltico haverá gelo suficiente apenas para a sobrevivência das focas por um período máximo de 50 dias, disse Münster.

* O autor é correspondente da IPS.

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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