JORNALISMO-PERU: As mulheres dominam, mas não mandam

Lima, 01/04/2009 – Quando começaram neste mês os cursos nas universidades do Peru, as mulheres ocuparam entre 65% e 72% as salas dos primeiros anos das faculdades de Comunicação, um fenômeno da feminização do jornalismo visível nas redações de todo o país.

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Mas nos postos de direção dos meios de comunicação peruano, impressos, audiovisuais e digitais, os homens continuam sendo ampla maioria. “É preciso reconhecer os fatos: as mulheres dominam as redações em quantidade, mas, não mandam”, disse à IPS Zuliana Laínez, dirigente da Associação Nacional de Jornalistas, no III Encontro Nacional da Mulher Jornalista, realizado este mês em lima. “Como acontece em países tão diferentes quanto Rússia ou Suécia, as mulheres no Peru são a mão de obra do jornalismo, mas não chegam a capataz”, afirmou.

Nenhum jornal comercial tem à frente uma mulher e estas apenas aparecem nesses cargos em algumas revistas dirigidas a questões femininas ou de espetáculos. As mulheres dirigem apenas três das 49 integrantes da Coordenadora Nacional de Rádio, que reúne emissoras comunitárias regionais, e encabeçam um punhado de programas de rádio em nível nacional. Na televisão, as profissionais estão à frente apenas de dois programas jornalísticos de alcance nacional, um deles dominical. Porém, são quase sempre as escolhidas para apresentar os noticiários e ler as notícias nas rádios, em geral acompanhadas por um homem.

Não há dados detalhados atuais sobre a porcentagem de homens e mulheres que exercem o jornalismo no Peru. Mas a organização não-governamental Calandria indica que a mudança é dramática em relação a 1997, quando foi feito um grande informe sobre gênero no mercado profissional das comunicações neste país. O estudo “Comunicadoras: competição pela igualdade” estabeleceu que há 12 anos 31% dos periódicos eram femininos, enquanto na televisão caía para 26,8%. Calandria é uma associação de redes sociais que desde 1984 promove no Peru a igualdade de gênero na comunicação, como forma de impulsionar a liderança feminina e assim melhorar o gerenciamento.

Rosa Maria Alfaro, autora do estudo, afirmou que a presença cada vez mais numerosa das mulheres nas redações e nos cursos de comunicação existentes a cada ano nas 34 faculdades de Ciências da Comunicação do Peru se contradiz de forma chocante com a baixa presença de profissionais femininas nos cargos de produtoras, executivas, chefes de redação, editoras ou diretoras. Tanto em 1997 quanto agora “existe uma descompensação entre uma imagem pública de participação das mulheres na mídia e em seu lugar de protagonista real nos mesmos”, disse à IPS Rosa Maria, que agora coordena um novo estudo latino-americano sobre Gênero e Mídia, que está em sua fase inicial.

Teto de vidro universal

O Projeto Global de Observação da Mídia revelou no último de seus estudos quinquenais, de 2005, que 57% dos apresentadores de televisão eram mulheres, mas apenas 29% das notícias eram redigidas por mulheres. Ao mesmo tempo, somente 23% das chamadas “notícias sérias” foram cobertas ou redigidas por mulheres, as quais podem ser encontradas com maior frequência no que é definido como informação “leve, como assuntos sociais, família, arte e vida”. Nessa área, mais de 40% dos profissionais são mulheres.

Em 2002, o informe da Associação Canadense de Jornais afirmava que as mulheres ocupavam apenas 8% dos postos de redatora-chefe e 12% eram editoras. A Associação de Jornalista do Leste da África assegurava em 2008 que menos de 20% dos cargos de edição eram ocupados por profissionais femininas na região. Laínez integrou estes dados à realidade da América Latina, onde, segundo a Federação Internacional de Jornalistas (FIP), 27,3% dos profissionais são mulheres. Dessa porcentagem, um número ínfimo conseguirá atingir um posto de direção.

O que falta para romper este sortilégio que parece campear nas redações? A essa preocupação expressada no encontro peruana da Mulher Jornalista, a FIP respondeu que os sindicatos e as associações devem impulsionar decididamente o aumento do número de mulheres nos órgãos de direção dos meios de comunicação. No manual da FIP Instalara o Equilíbrio se destaca a necessidade de abordar a relação mulher-mulher dentro dos meios de comunicação, e para isso é preciso promover a solidariedade de gênero. O documento assegura que somente assim se poderá construir uma liderança feminina dentro da mídia, que abra caminho e oportunidades para mulheres cada vez mais capacitadas.

Lutar com os preconceitos

Enith Fasanando, diretora de um programa de rádio em Tarapoto, cidade da selva peruana, contou à IPS uma situação que muitas profissionais podem sentir de perto. ‘Era difícil estar nomeio de cinco homens e poder dirigi-los porque não deixavam. Por exemplo, estava apresentando o noticiário com meu companheiro e ele fazia com que eu ficasse mal ou tentava minimizar minhas opiniões”, disse. “É bastante doloroso alguém de sua mesma profissão tente te discriminar e não te dê o valor que merece e que conquistou com seu esforço apenas por ser mulher”, acrescentou. Fasanando teve de levar o problema ao proprietário da rádio para solucioná-lo.

Zenaida Solíz, uma das jornalistas mais populares do país e que durante três décadas acompanhou cotidianamente os peruanos e as peruanas através da televisão e do rádio, contou à IPS que teve de se rebelar para não ser enquadrada no papel de “garota bonita”. Quando chegou à televisão, os homens estavam a cargo das notícias e das entrevistas mais importantes, mas, pouco a pouco, conseguiu introduzir comentários e opiniões, até que criou um estilo ao qual se manteve fiel “sem hipotecar minha consciência”, amparada em uma voz muito pessoal e grande recordação.

Solís, finalmente, conseguiu apresentar por 15 anos um programa diário de rádio, do qual afastou-se apenas curtos períodos para criar seus filhos, já que suas jornadas de trabalho habituais eram extremamente longas. Por seu programa passaram políticos, empresários e líderes de opinião de cada momento, que deviam enfrentar um microfone aberto aos ouvintes. “Tive problemas com os donos dos meios de comunicação onde trabalhei”, disse Solís, convencida de que não há outra forma de encarar a profissão. Os empresários tentavam evitá-la mais do que os políticos. “Mas nenhum conseguiu uma entrevista amável”, ressaltou.

Solís disse que é, no fim, o grande poder econômico que decide a continuidade ou não de um projeto jornalístico e de sua equipe. Os proprietários tradicionais sempre pretendem manter com os jornalistas uma relação funcional de acordo com seus interesses, “e às vezes não conseguem, sobretudo com os mais jovens”, assegurou. “Por isso, se age com honestidade e ainda por cima é mulher, chega o momento em que tem de ir embora”, concluiu.

Trabalho igual, salário desigual

Existem condições eqüitativas para as mulheres no exercício do jornalismo? Fasanando não duvidou em responder: “Não. O fazemos por amor à camisa, à profissão, mas as barreiras são de todo tipo, a primeira e principal e o salário. Meu colega, que tinha as mesmas responsabilidades, ganhava o triplo; e era eu que assumia toda a responsabilidade diante da audiência”, contou. Por sua vez Solíz lembrou uma anedota do proprietário de um meio de comunicação impresso. Ele pagava mais aos homens porque, afirmava, “estes são os que param a onda (levam a comida)” e não contratava muitas mulheres porque “só trabalham bem até se apaixonarem”.

Diante de responsabilidade igual, as mulheres continuam ganhando menos que os homens. Ao mesmo tempo, são mais vulneráveis em termos de segurança trabalhista, promoções e status legal, afrimou-se no encontro da Mulher Jornalista. Um aparente oásis de igualdade de gênero ocorre nas associações de defesa dos trabalhadores. “Nos sindicatos há duas mulheres dirigentes e o restante é de homens, mas trabalhamos lado a lado, promovemos os mesmos objetivos e vamos adiante com nossas reivindicações”, disse Fasanando.

Vítima mantém estereótipos

No encontro de Lima também foi abordado o problema da “vítima-vitimária”, como é o caso de mulheres que sofrem nas redações com preconceitos e estereótipos sexistas e tendem a repeti-los em seu trabalho de comunicadoras. “a mulher, vítima de discriminação em sua vida e na profissão, aprofunda, repete e impõe percepções machistas da mulher, sua coisificação e objeto, nas redações”, diz Calandria em um estudo de 1997, que para as jornalistas costuma inscrever-se em muitos casos atualmente “com ponto e virgula”. É como se parte das comunicadoras aceitasse “seguir em seu papel de lavar os pratos, mas agora em público”, disse uma participante do encontro.

Destacou-se como os meios qualificados de femininos que são as em maior dirigidas por mulheres são, precisamente, onde mais persiste o retrato da mulher como objeto, que replica as visões mais anacrônicas e machistas de seu papel: “a sofisticada gatinha sexy, a mãe modelo, a bruxa, a inflexível ambiciosa na empresa ou na política”. O fenomeno dos estereótipos foi denunciado na Declaração adotada pela Quarta Conferência Mundial sobre a Mulher, das Nações Unidas, realizada em Pequim em 1995, que fez um chamado aos proprietários de meios de comunicação e aos profissionais para que desenvolvessem e adotassem códigos ou pautas para promover uma melhor e mais correta apresentação das mulheres na mídia. IPS/Envolverde

Blanca Rosales

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