ISRAEL-PALESTINA: Cresce a tensão em Jerusalém oriental

Jerusalém, 10/03/2009 – Enquanto as chamas da miséria humana continuam ardendo em Gaza, a situação em Jerusalém oriental mantém seu potencial explosivo para o Oriente Médio e para a região. A condição estatutária da cidade no longo prazo é um tema de importância primordial para os palestinos, para os israelenses e para os simpatizantes que ambos têm em todo o mundo. A tensão relacionada a Jerusalém desatou várias ondas de violência entre os dois povos. Uma delas em 1997, quando o então primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que assumirá o mesmo cargo em breve, inaugurou as obras do assentamento judeu de Har Jomá, no leste da cidade.

Em setembro de 2000, a visita do entoa líder opositor Ariel Sharon à área conhecida pelos judeus como Monte do Templo e pelos muçulmanos como Explanada das Mesquitas – acompanhado por mil guardas de segurança – disparou a segunda intifada (revolta popular palestina contra a ocupação israelense). Agora, pacifistas dos dois povos alertam que as provocações de colonos judeus em Jerusalém, com apoio do governo israelense, podem desatar outra séria escalada. Cerca de 200 mil palestinos vivem em Jerusalém oriental, que até à Guerra dos Seis Dias, de 1967, era o centro comercial e administrativo da Cisjordânia.

Desde esse ano, Israel ocupa a cidade, sucessivos governos implantara vastos (e caros) assentamentos israelenses na cidade, cujas fronteiras também expandiram unilateralmente. Cerca de 200 mil colonos israelenses vivem hoje nesse assentamentos, que cercam o centro da cidade, povoado por palestinos. Há alguns anos, simpatizantes dos colonos – financiados por doadores norte-americanos – também construíram redes de postos militares para proteger os assentamentos em meio a território palestino. Duas áreas de ocupação agora são Silwan e Sheikh Jarrah. No primeiro, a municipalidade de Jerusalém emitiu a ordem de demolição de 88 casas palestinas para no lugar instalar um parque temático sobre a história judia.

No segundo, uma enorme força policial armada desalojou às 3h30 de uma madrugada de novembro um casal de idosos para que um grupo de colonos pudesse se mudar. O homem, Abu Kamel al-Kurd, sofria de uma doença crônica. Ele e sua mulher, Um Kamel, se mudaram para uma barraca de campanha em uma área próxima. Poucos dias depois, Kamel morreu de ataque cardíaco. Sua mulher continua vivendo ma barraca, em meio ao frio e às tempestades. Um Kamel se propõe a permanecer ali até que tenha sua casa devolvida, em uma atitude que convoca à resistência não-violenta diante dos planos de Israel de continuar colonizando Jerusalém oriental. A policia israelense desmantelou sua barraca seis vezes, a última no dia 23 de fevereiro. Mas, em cada ocasião os que a apóiam – entre eles palestinos islâmicos e seculares – a levantaram novamente.

Barracas como a de Um Kamel se converteram em uma lembrança de todo os palestinos expulsos de seus lares desde 1948, quando cerca de 750 mil foram desalojados ou fugiram de suas casas do território que se converteu no Estado de Israel. A nenhum foi permitido voltar, apesar das resoluções da Organização das Nações Unidas que assim exigiam. Muitos palestinos refugiados em Gaza – a maioria descendente dos refugiados de 1948 – voltaram a viver em barracas de campanha nos últimos tempos.

Os palestinos do assentamento jerosolimitano de Silwan se manifestam contra a ordem de despejo, que afetará cerca de 1.500 pessoas, e também instalaram uma barraca como ponto central de seu protesto. “Nos obrigam a viver em barracas. Mas não queremos barracas nem doações. Tudo o que queremos é respeito pelos nossos direitos. Ninguém pode passar por cima do direito de outros como os israelenses fazem com a gente. Judeus, cristãos e muçulmanos necessitam viver juntos aqui, na Palestina, em paz e igualdade”, disse Um Kamel à IPS.

Os palestinos de Jerusalém oriental viveram muitas décadas em situação precária. No final de junho de 1967, os novos ocupantes israelenses da cidade expandiram as fronteiras municipais e declararam que a partir disso a lei israelense se aplicaria diretamente à cidade. Em 1980, a Knesset (assembléia legislativa) aprovou a lei de anexação, ilegal, segundo o direito internacional. Mas os Estados Unidos nunca protestaram muito contra essa lei. De fato, funcionários de Washington estão envolvidos em complexos exercícios verbais para evitar o reconhecimento de Jerusalém oriental como território ocupado.

Isto significa que todos os assentamentos israelenses ali são ilegais e que os moradores palestinos originários da cidade deveriam receber toda proteção especificada na quarta Convenção de Genebra. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, declarou no último dia 4 que os planos de Israel para demolir as casas em Silwan eram “de pouca ajuda” e uma violação do plano de paz apoiado pelos Estados Unidos. Mas, a situação dos palestinos piora progressivamente.

Quase imediatamente depois de assinados os Acordos de Oslo de 1993, as autoridades israelenses estabeleceram controles rodoviários e outras medidas que isolaram os palestinos jerosolimitanos de seus compatriotas e familiares de outras partes da Cisjordânia. E, aos palestinos de outras localidades da Cisjordânia, proibiram que entrassem em Jerusalém oriental, e muitas das instituições outrora florescentes na cidade – como escolas, hospitais e editoras – começaram a decair.

Até 1993, Jerusalém oriental foi o centro nacional da política palestina. Depois que Yasser Arafat (1929-2004) voltou à Cisjordânia para estabelecer a nova Autoridade Nacional Palestina, com mandato pelos Acordos de Oslo, foi forçado a instalá-la em Ramalah, não em Jerusalém. Os israelenses impediram que a ANP localizasse alguma de suas instituições em Jerusalém oriental e os palestinos que ali viviam foram submetidos a crescente pressão para abandonar sua cidade ancestral. Depois de Oslo, sucessivos governos israelenses também aceleraram a construção de novos assentamentos judeus dentro da cidade.

Har Jomá, iniciado por Netanyahu em 1997, agora tem mais de seis mil moradores e vastos projetos adicionais de construção estão em curso ali e em Guiló, que fica próximo. Em 201, após o início da segunda intifada, o então primeiro-ministro israelense Ariel Sharon começou a consolidar a separação de Jerusalém da Cisjordânia construindo muros de concreto de nove metros de altura, salpicados por torres de vigilância cilíndricas que agora serpenteiam em torno das áreas edificadas da cidade. E, às vezes, atravessando-as caprichosamente.

Os palestinos de Jerusalém sempre se negaram a adotar a cidadania israelense, alegando que isso equivaleria a aprovar os reclamos de Israel sobre toda a cidade. Sem cidadania e o poder de voto que ela dá, sofreram várias discriminações em todas as áreas, incluindo o fornecimento de serviços municipais básicos. Além disso, sua voz está excluída dos processos de planejamento urbano. Palestinos recebem regularmente ordens de despejo de casas construídas muito antes de 1967 ou erguidas desde então e cujos donos não realizaram o burocrático e caro processo para obter as autorizações necessárias.

Por outro lado, a maioria dos construtores judeus recebe forte apoio financeiro e administrativo para seus projetos. Nas últimas semanas, simpatizantes dos colonos de Silwan e Sheikh Jarrah receberam forte apoio da municipalidade – dominada pela direita – para uma escalada em suas atividades. A municipalidade também intensificou a demolição de casas palestinas “ilegais’ em muitas partes da cidade, ao ritmo de duas ou três por semana. Com Netanyahu prestes a ser novamente primeiro-ministro, o cenário parece estar pronto para maiores enfrentamentos nesta cidade tão cara para milhões de crentes de todo o mundo. (IPS/Envolverde)

Helena Cobban

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