FINANÇAS-EUA: Como Wall Street pagou seu próprio funeral

Washington, 05/03/2009 – Um novo informe conclui que Wall Street é o único culpado pela desregulamentação que derivou na atual crise financeira internacional. Apresentado pela Fundação por Informação Essencial e para a Educação do Consumidor, dos Estados Unidos, o estudo documenta milhares de milhões de doares gastos pelo setor financeiro no que finalmente seria sua própria perdição. O informe apresentado ontem, intitulado “Sold out: how Wall Street and Washington betrayed América” (Esgotado: como Wall Street e Washington traíram os Estados Unidos), mostra que o setor financeiro investiu mais de US$ 5 bilhões para comprar influência política durante a última década.

Cerca de três mil lobistas conseguiram desregulamentações e outras decisões políticas que derivaram diretamente no atual colapso financeiro. “O informe detalha, passo a passo, como Washington sistematicamente esgotou Wall Street”, disse Harvey Rosenfield, presidente da Fundação, organização não-governamental com sede na Califórnia. “Os programas da era da Grande Depressão que teriam evitado a crise financeira iniciada no ano passado foram desmantelados, e os alertas dos que previam o desastre foram afogados em um oceano de dinheiro político. Os norte-americanos foram traídos, e estamos pagando um alto preço (bilhões de dólares) por essa traição”, acrescentou.

Segundo o informe, os órgãos reguladores do Congresso e do Poder Executivo permitiram nas últimas três décadas a erosão do sistema que impedia que o setor financeiro agisse segundo suas próprias tendências. De 1998 a 2008, intermediários financeiros de Wall Street, bancos comerciais, fundos de investimento, companhias estatais e conglomerados do setor de seguros fizeram contribuições políticas no valor de US$ 1,7 trilhão e gastaram outros US$ 3,4 bilhões em lobby, o que significou uma força devastadora que aniquilou a regulamentação federal.

“O Congresso e o Executivo responderam aos subornos legais do setor financeiro anulando os padrões do senso comum, impedindo que os reguladores fixassem as pautas para enfrentar os problemas emergentes”, disse Robert Weissman, principal autor do informe. “A progressiva erosão das muralhas restritivas permitiu uma inundação de maus empréstimos, bem como um tsunami de más apostas baseadas nesses maus empréstimos. Agora, há ruínas no panorama financeiro”, disse. O informe documento uma dúzia de ações de desregulamentação que juntas, provocaram a crise.

Por exemplo, a Lei de Modernização dos Serviços Financeiros de 1999 formalmente revogou o estatuto de 1933 e outras normas relacionadas que proibiam os bancos comerciais de oferecerem bancos de investimentos e serviços de seguros. O informe diz que os reguladores não agiram para evitar práticas abusivas de financiamento e proteger em particular os proprietários de moradias, o que poderia ao menos ter aliviado a crise do setor hipotecário. A Reserva Federal adotou apenas três ações formais contra prestamistas de hipotecas de alto risco (subprime) de 2002 a 2007. O Escritório Controlador da Moeda, que tem autoridade sobre quase 1.800 bancos, agiu apenas em três oportunidades para proteger os consumidores entre 2004 e 2006.

O informe apresenta informação sobre as contribuições de campanhas por várias instituições financeiras e revela grandes investimentos na pressão sobre o setor político. “As decisões foram influenciadas por gastos políticos e um lobby extraordinário”, disse Weissman. Por exemplo, algumas empresas financeiras investiram mais de US$ 504 milhões em contribuições de campanha, e outros US$ 576 milhões em lobby, enquanto bancos comerciais gastaram mais de US$ 154 milhões em campanhas e US$ 383 milhões em grupos de pressão.

Algumas firmas gastaram dezenas de milhões de dólares nas duas coisas. Durante a última década, a Godman Sachs gastou mais de US$ 46 milhões na compra de influência política, o Citigroup mais de US$ 108 milhões e a caída em desgraça Merril Lynch mais de US$ 68 milhões. (IPS/Envolverde)

Marina Litvinsky

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *