MULHERES: Crise financeira afeta as mais vulneráveis

Nova York, 05/03/2009 – A propagação da crise financeira mundial, que afetou um grande número de banqueiros, investidores e especuladores, também tem um efeito devastador em alguns dos grupos mais vulneráveis e marginalizados da sociedade, como as mulheres e as crianças. A crise “arrastará milhões para uma pobreza mais aguda e derivará na morte de milhares de crianças”, alerta um novo estudo divulgado esta semana pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Kevin Watkins, um dos autores do estudo, disse: “Os doadores poderiam claramente fazer mais para proteger as pessoas mais pobres do mundo de uma crise criada pelos financistas e pelo fracasso das regulamentações nos países ricos”.

O impacto da crise também foi um dos temas na sessão de duas semanas da Comissão das Nações Unidas sobre o Status das Mulheres (CSW), que começou segunda-feira. Ao falar na comissão, o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Econômicos e Sociais, Sha Zukang, disse: “Historicamente, as recessões econômicas jogam uma carga desproporcional sobre as mulheres”. Além disso, afirmou que as mulheres têm mais probabilidades do que os homens de terem empregos vulneráveis, estarem subempregadas ou desempregadas, carecer de proteção social e ter um acesso limitado aos recursos econômicos e financeiros.

O impacto negativo mais propagado poderia estar na Ásia-Pacífico, região que tem uma das mais altas porcentagens de mulheres em idade economicamente ativa e onde 65% das trabalhadoras possuem empregos vulneráveis, em sua grande maioria no setor informal. Muitas não têm benefícios, como pensões ou licença maternidade, nem segurança trabalhista, e estão em grande risco de cair na pobreza por causa da crise econômica, segundo a Comissão Econômica e Social da ONU para a Ásia e o Pacífico (Escap). O acesso desigual das mulheres a oportunidades de emprego decente custa à região entre US$ 42 bilhões e US$ 47 bilhões por ano.

Thelma Kay, diretora da divisão de Desenvolvimento Social da Escap, disse à IPS que em muitas famílias os gastos gerais, como alimentação e cuidados com os filhos, são administrados por mulheres. “As mulheres dependentes devem cuidar de famílias inteiras com menos renda, e as trabalhadoras têm de apoiar suas famílias apenas com seus salários que, em média, são menores do que os dos homens”, explicou. Além disso, os preços dos alimentos aumentaram nos últimos dois anos, obrigando-as a tomarem difíceis decisões financeiras. “E quando os custos da escola ficam insustentáveis, são as meninas que, em geral, são obrigadas a abandonar os estudos”, acrescentou.

Na semana passada, a alta comissária da ONU para os direitos humanos, Navy Pillay, disse que as mulheres e meninas, em geral, estão expostas a maiores riscos de violência em tempo de crise e que seus direitos econômicos e sociais também podem ser violados. “Elas têm reduzidas suas chances de emprego, são forçadas a aceitar trabalhos marginais e mal pagos e renunciam a serviços básicos para garantir alimento e abrigo”, afirmou. Os efeitos negativos da crise financeira são sentidos de forma desproporcional nos países em desenvolvimento e menos industrializados, os mais pobres dos pobres, disse Pillay.

Rachel Mayanja, assessora especial da ONU para Assuntos de Gênero e Progresso das Mulheres, disse na CSW que a confluência da crise global – incluindo a recessão econômica, a carestia, o aumento do desemprego, a instabilidade, as hostilidades, a violência contra as mulheres e a deterioração ambiental (já há um sério impacto no caminho para a igualdade de gênero). Esses desafios ameaçam reverter o progresso alcançado desde a Quarta Conferência Mundial sobre a Mulher (Pequim, 1995).

Kay, da Escap, disse à IPS que em muitos casos as mulheres são as primeiras a serem demitidas e, no geral, estão menos capacitadas, por isso são consideradas mais prescindíveis. Embora ainda seja muito cedo para encontrar ampla informação confiável, sabe-se que na Indonésia, por exemplo, a crise financeira deixou sem trabalho mais mulheres do que homens nos últimos meses. “Pode-se também lembrar da crise financeira asiática de 1996 e 1997, quando o apoio predominantemente feminino do setor exportador foi seriamente prejudicado”, afirmou. Nos setores dominados por homens e mais atingidos pela crise, como a construção, as mulheres também foram afetadas.

Kay explicou que as crises econômicas agravam as pressões sobre as mulheres submetidas a relações abusivas, as imigrantes e as vítimas do comércio sexual. “Recebemos notícias recentes sobre o crescente número de mulheres na indústria do sexo e sobre aumento dos incidentes de violência de gênero, tudo relacionado com a crise financeira”, destacou Kay. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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