Pequim, 16/03/2009 – A China se concentrará em garantir a estabilidade de sua economia antes de considerar ser o salva-vidas da comunidade internacional, que afunda em consequência da crise financeira.
Antes da queda livre dos mercados e da falta de crédito que asfixiam cada vez mais as economias de muitos países, os US$ 2 trilhões de reserva das China são a esperança do mundo. Mas o primeiro-ministro deixou bem claro que Pequim impõe condições para estender sua mão. Diante da pergunta se a China consideraria aumentar sua contribuição para o fundo de resgate do Fundo Monetário Internacional, Wen respondeu que esse compromisso deve ser voluntário e em função das condições individuais de cada país, mas de todos em função de sua cota”, entregue a esse organismo multilateral de crédito.
Além disso, deixou clara sua preocupação pela segurança dos investimentos chineses nos Estados Unidos quando pediu ao governo do presidente Barack Obama que “cumpra as promessas de garantia”. “Emprestamos uma grande quantidade de dinheiro aos Estados Unidos, e para ser honesto, estou um pouco preocupado”, disse o governante. Na qualidade de maior credor desse país, a China tentará “evitar os riscos” e salvaguardar seus próprios interesses, assegurou. A China investiu US$ 969 bilhões em bônus do tesouro dos Estados Unidos no dia 31 de dezembro.
O primeiro-ministro dedicou um tempo considerável da entrevista de duas horas, preparada de antemão, para defender a política de Pequim no contexto da crise financeira internacional e disse que as autoridades estão dispostas a tomar medidas adicionais para impulsionar sua economia, a terceira do mundo. A China tem “munições adequadas” para reforçar a frágil confiança do público e pode aumentar seu pacote de estímulo de US$ 585 bilhões a qualquer momento, assegurou Wen. Consciente do impacto que tem a permanente divulgação de dados negativos sobre a confiança depositada no governo, o governante ressaltou várias vezes a necessidade de reforçar esse aspecto.
“A confiança é mais importante do que ouro e dinheiro”, afirmou Wen durante a entrevista, televisionada para todo o país. “O primeiro e mais importante é fortalecer a confiança. Somente quando tivermos conseguido isso, teremos mais valor e força e só após termos valor e força poderemos superar as dificuldades”, acrescentou. Mas, quatro meses depois do anúncio do primeiro pacote de estímulo, a situação continua igualmente precária. O produto interno bruto cresceu 6,8% no ano passado, o mais baixo desde 2001 e a metade dos contundentes 13% de 2007.
Os investimentos superaram as previsões de 26,5% nos primeiros dois meses, a respeito do mesmo período do ano anterior, mas a queda das exportações significou a pior contração comercial em muitos anos. O principal indicador de atividade econômica da China da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE) caiu ao seu nível mais baixo em seus 26 anos de história, superando a queda de 1989, ano da brutal repressão de uma manifestação pró-democracia na praça de tiananmen.
O congresso Nacional do Povo aprovou na sexta-feira o pacote de estímulo e um déficit orçamentário sem precedentes para este ano, a fim de lidar com a depressa. “Estamos preparados para uma crise prolongada e muito difícil”, afirmou Wen. Um dos “problemas mais graves” da débâcle econômica par ao governo chinês é o aumento do desemprego. Cerca de 11 milhões de trabalhadores imigrantes continuam sem emprego após seu regresso à China depois do descanso de ano novo, em janeiro, segundo o calendário lunar, de acordo com estatísticas oficiais divulgadas na semana passada.
O Partido Comunista se preocupa com a possibilidade de aumento do descontentamento social entre imigrante se os seis milhões de universitários que se formarão este ano e que poderão não encontrar trabalho. “O acordo alcançado entre o PC e os intelectuais após as manifestações pró-democracia de 1989 parece cada vez mais frágil”, disse Ian Buruma, professor de direitos humanos do Bard College de Nova York. As autoriades permitiram que enriquecessem em troca de um acordo tácito para se manterem à margem da política, afirmou Buruma na semana passada em Pequim. “Mas esse pacto está prestes a ser rompido, pois em grande parte depende da promessa de prosperidade permanente”. O primeiro-ministro reafirmou o compromisso do governo para conseguir que o crescimento do PIB seja de 8% este ano, mesmo se as economias dos Estados Unidos e do Japão se contraírem. O objetivo é “difícil, mas, possível, se nos esforçarmos o suficiente”, disse Wen. (IPS/Envolverde)


