ECONOMÍA: Esquerda sem respostas

Berlim, 12/03/2009 – “Pós-neoliberalismo” é uma palavra tão complicada de pronunciar quanto pensar alternativas ao sistema capitalista em crise. No momento é uma incógnita saber se é um termo da moda ou uma síntese de idéias novas. Ana Esther Ceceña, professora de econômica da Universidade Autônoma do México, considera que as novas idéias se expressam no chamado a consumir menos e se opor aos falsos projetos de desenvolvimento, e ainda assim levar uma “boa vida”. Mas, como conseguir por em prática essas idéias é outro assunto. Esse foi o propósito do congresso Kapitalismus am Ende? (Fim do capitalismo?, em alemão), organizado pela filial alemã da francesa Associação para a Taxação das Transações Financeiras para Apoiar os Cidadãos (Attac).

Esta associação, criada na França há 11 anos para combater o neoliberalismo, agora conta com escritórios em muitos países europeus e da América Latina. Cerca de 2.500 acadêmicos, sindicalistas, representantes de organizações não-governamentais e estudantes da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina analisaram a crise financeira internacional e, concretamente, como se desfazer do neoliberalismo, no congresso realizado em Berlim entre os dias 6 e 8 deste mês. “Os movimentos populares da América Latina há tempo entenderam que a crise global do neoliberalismo é social, econômica e ambiental”, disse Ceceña à IPS. “Agora sabemos que o capitalismo neoliberal nos leva para uma catástrofe em grande escala e que é preciso enfrentá-la com uma mudança radical em nossas vidas”.

Ceceña se referia à maciça oposição a projetos mineiros no Chile, Peru, Guatemala e outros países da América do Sul, e à crescente resistência no Brasil ao desmatamento da Amazônia. “As pessoas acabaram percebendo que destruir a selva amazônica para plantar soja, cana-de-açúcar ou milho para destilar e produzir biocombustíveis destrói o meio ambiente e é um preço muito alto para pagar em falsos projetos econômicos que, em geral, apenas beneficiam as multinacionais e as oligarquias locais”, afirmou. “Ao consumir menos e se opor a esses projetos, as pessoas prejudicam os objetivos das multinacionais e obriga o capitalismo a se repensar”, acrescentou.

Mas, ninguém parece saber qual é a alternativa. Muitos dos participantes expressaram suas dúvidas sobre a capacidade de algumas organizações críticas do atual sistema econômico de levar adiante suas idéias, isto é, conseguir uma mudança radical no equilíbrio do poder político no âmbito nacional e internacional. “A questão não é se é preciso acabar com o neoliberalismo, mas como fazê-lo”, insistiu uma estudante alemã de ciências políticas. Esse foi o assunto de peso no congresso. Por um lado, o encontro foi um sucesso porque os organizadores não esperavam mais de mil participantes. Mas, por outro, não houve consenso sobre quais medidas adotar, apesar de todos coincidirem nas causas da crise financeira.

Houve muitas propostas radicais até para os mais esquerdistas. Michael Brie, professor de filosofia social, propôs que o governo alemão nacionalize a atribulada fábrica de automóveis Opel e a use como plataforma tecnológica para reinventar o sistema de transporte público. A medida não foi recebida com muito entusiasmo. Por sua vez, Sven Gigold, um dos fundadores da Attac Alemanha e agora candidato pelo Partido Verde às eleições do Parlamento Europeu, tem outra estratégia “pós-neoliberal” que chama de “novo trato verde”, em referência ao plano de recuperação criado pelo presidente dos Estados Unidos Franklin D. Roosevelt (1881-1945), em razão da crise de 1929. A proposta de Gigold aponta para um grande investimento estatal em energias renováveis, novas políticas sociais para enfrentar o desgaste do Estado de bem-estar e promover um comércio global justo.

A ínfima quantidade de propostas apresentadas no congresso revela o que um dos participantes chamou de “impotência da esquerda frente à crise internacional do capitalismo”. Hans-Juergen Urban, presidente do maior sindicato metalúrgico da Alemanha, o IG Metall, destacou que “tivemos razão quando previmos a crise do capitalismo e dissemos que nos levaria a uma catástrofe social e ambiental. Mas agora que o capitalismo realmente fracassou, não temos respostas adequadas. Esquecemos de pensar de forma critica” sobre o sistema. As propostas viáveis foram escassas. Por isso não surpreende que a primeira reação tenha sido organizar manifestações maciças.

(IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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