COMÉRCIO: “Negociadores ignoram perspectiva de gênero”

Genebra, 28/04/2009 – A liberalização comercial pode por em risco o sustento de muitas mulheres, que sentem de maneira diferente o impacto do comércio.

Simonetta Zarrilli - Diego Oyarzun/IPS

Simonetta Zarrilli - Diego Oyarzun/IPS

Mas as negociações internacionais continuam ignorando a problemática feminina. O comércio influi no mercado de trabalho, nas migrações, nas pequenas e médias empresas (Pemes) e na agricultura, e as mudanças nesses setores prejudicam mais as mulheres do que os homens, segundo mostram diferentes dados.

Entretanto, as políticas e os acordos comerciais continuam sem considerar a dimensão de gênero e se declaram “neutras”, afirma Simonetta Zarrilli, da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), os políticos não estão capacitados para considerar a questão de gênero. A necessidade de modificar esta situação foi discutida no mês passado por especialistas durante uma reunião da Unctad. Mas a perspectiva de gênero não deve ser um requisito adicional para o acesso a mercados, pois é uma condição difícil de ser cumprida para as nações em desenvolvimento, especialmente da África, explicou Zarrilli à IPS.

IPS – A liberalização comercial melhora ou piora a vida das mulheres?

Simonetta Zarrilli – Suas consequências não são homogêneas. Algumas vezes melhora sua situação, especialmente quando se cria postos de trabalho nos setores formal e informal. Mas, outras vezes destrói os setores onde elas trabalham.

IPS – Quais consequências tem para as mulheres, especialmente para as africanas?

Simonetta Zarrilli – Em geral, a liberalização comercial cria novos postos de trabalho, mas ara ter acesso a eles as pessoas devem adaptar-se e adquirir novas ferramentas. Para as mulheres é especialmente difícil porque estão menos capacitadas, têm menos mobilidade e realizam mais tarefas domésticas. Elas costumam ter os piores trabalhos devido ao desequilíbrio entre sua capacitação e os requisitos do mercado. Além disso, a liberalização comercial também aumenta as migrações.

As mulheres representam cerca de 50% da população migrante do mundo. Nos países que as recebem acabam fazendo trabalhos que exigem menor capacitação porque sofrem uma dupla desvantagem, ser mulher e imigrante. Mesmo assim, ganham dinheiro e enviam para seus países e ajudam a melhorar as possibilidades de outras mulheres. As imigrantes costumam enviar aos seus países uma porcentagem maior de sua renda e com maior regularidade do que os homens. A agricultura também é afetada pela liberalização comercial, que favorece cultivos de alto rendimento econômico como café e cacau. O problema é que costumam ser colhidos por homens, enquanto elas praticam uma agricultura de subsistência.

Passar de cultivos tradicionais para outros de maior rendimento econômico pode gerar problemas em matéria de segurança alimentar, o que afeta mais as mulheres que assumem o lar. Definitivamente, a liberalização comercial dinamiza a agricultura masculina. Por fim, também tem consequências sobre as Pemes. Na África, assim com em outras nações em desenvolvimento, as mulheres dirigem entre 40% e 50% desses negócios. O comércio internacional cria oportunidades para as pequenas empresas capazes de se tornarem competitivas em um mercado liberalizado.

Para isso devem adquirir tecnologia mais moderna e melhorar suas possibilidade.s o problema é que as mulheres não têm tempo para se capacitar ou melhorar suas habilidades. Não costumam contar com informação sobre os mercados nem têm conhecimentos sobre tecnologia. Além disso, as tradições e as rígidas normas que regem o comportamento feminino dificultam seu deslocamento para outras cidades. As mulheres não costumam ter as ferramentas exigidas pelo mercado.

IPS – Como as políticas comerciais podem incluir as mulheres africana?

Simonetta Zarrilli – Que tipo de política comercial? Quando se desenha políticas e se negocia acordos comerciais, o componente gênero está praticamente ausente. Os negociadores não pensam nas consequências que pesa sobre os mais pobres, as mulheres e os jovens. Sua única idéia é que o comércio é bom para o crescimento econômico. As políticas comerciais ignoram o assunto, tanto as da Organização Mundial do Comércio (OMC) quanto os acordos regionais bilaterais.

IPS – Por quê?

Simonetta Zarrilli – Porque os políticos não estão capacitados para levar em conta esse aspecto. Além disso, a análise das consequências que o comércio tem sobre as mulheres é complexo. É necessário ter dados, saber em quais setores trabalham e ter capacidade analítica. A maioria das nações em desenvolvimento não a tem por falta de recursos humanos e financeiros.

IPS – Na reunião da Unctad de março, o que se concluiu a respeito da inclusão da perspectiva de gênero nas políticas comerciais, especialmente na África?

Simonetta Zarrilli – Foi dada pouca ênfase à questão de gênero, mesmo nos países ricos. Se faz muito, mas da boca para fora. Costuma-se dizer que é preciso criar mais possibilidades para as mulheres, mas não passa de simples declaração de intenção que custa a se concretizar em programas e ações. Os acordos comerciais e de cooperação têm cada vez mais referências à questão de gênero, mas, em geral, figuram em seções que não são obrigatórias, como o preâmbulo. No melhor dos casos, dizem que os países devem dar atenção a esse assunto e a outras questões sociais e ambientais.

Mas os requisitos de gênero não devem ser uma condição prévia para o acesso a mercados. Uma coisa é criar mais possibilidades para as mulheres e outra começar a impor requisitos rígidos e novas condições que os países pobres não poderão cumprir. Será contraproducente e um impedimento adicional. IPS/Envolverde

Annelise Sander

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