ENERGÍA-BRASIL: Caminho leva a dois destinos

Rio de Janeiro, 28/04/2009 – O governo brasileiro defende uma nova matriz energética baseada em fontes renováveis, sem deixar de apostar na expansão futura de seus tradicionais recursos fosseis, como gás e petróleo Esse novo equilíbrio de fontes energéticas foi exposto pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, na reunião ministerial do Grupo dos Oito países mais poderosos do mundo, realizada entre 22 e 24 deste mês em Siracusa (Itália), da qual o Brasil participou como convidado.

Esse propósito se enquadra no espírito da Cúpula das Américas, realizada também este mês em Trinidad e Tobago, onde foi avaliada a possibilidade de, até 2015, o continente gerar metade de sua energia em fontes renováveis, com menor emissão de gases causadores do efeito estufa, considerados responsáveis pelo aquecimento global. Setenta e cinco por cento da matriz energética brasileira se baseia em eletricidade, um padrão que o governo quer reforçar com mais centrais, mas que não causem maior desmatamento em áreas como a selva amazônica.

Para isso, segundo Minc, será dada prioridade a iniciativas em bacias hidrográficas que representem menor inundação de áreas de floresta, a partir do uso da “tecnologia de bulbo”, que – explicou – se baseia em turbinas submersas no leito do rio que captam o fluxo de água e geram mais energia em áreas menores. Nesta direção, o governo espera produzir nos próximos dois anos 50 milhões de megawatts de usinas hidrelétricas. O ministério destaca outras medidas, como a recém-adotada pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente que obriga novos projetos de centrais termoelétricas a carvão e óleo combustível a reduzir as emissões de gases estufa plantando árvores, por exemplo. “Assim estamos encarecendo as termoelétricas e, ao mesmo tempo, implementamos políticas para baratear energias renováveis como a eólica”, destaca o ministério.

Mas o governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva investirá mais fortemente em outras alternativas renováveis, como biodiesel a partir de oleaginosas como palma, girassol, rícino e amendoim, mas em especial na expansão do agrocombustível mais consumido neste país, o etanol, extraído da cana-de-açúcar. Diante das objeções a este tipo de energia, que poderia contribuir para um desmatamento maior em áreas cruciais como a Amazônia, o governo diz que vai estimular a recuperação e o aproveitamento de áreas degradadas para plantar a cana. Segundo a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), 46% da matriz energética brasileira já são renováveis e 16% correspondem ao etano, ou álcool combustível.

No Brasil, 90% dos novos veículos – que são 25% da frota nacional – têm motores Flex, que usam gasolina ou álcool. Isso, segundo o presidente da Unica, Marcos Sawaya Jank, reduziu as emissões brasileiras de dióxido de carbono, principal gás estufa, em 50 milhões de toneladas desde 2003, equivalente à plantação de 150 milhões de árvores nesse período, comparou. A promoção que a Unica faz desperta críticas, com as que falam do dilema entre plantar energia e alimentos: utilizar grãos comestíveis para a geração energética pode causar uma crise de carestia alimentar.

Outras fontes também questionam a suposta ação benéfica dos biocombustíveis para o meio ambiente. O Conselho Internacional ara a Ciência (ICSU) diz que a produção de agrocombustíveis pode aumentar, a não diminuir, o aquecimento global, como se argumenta. Segundo o ICSU, o óxido nitroso que se desprende de zonas cultivadas com plantas como a cana-de-açúcar, no Brasil, e milho, nos Estados Unidos, se contrapõe aos benefícios da redução de emissões de dióxido de carbono resultante da combustão de álcool em lugar da gasolina.

Para o especialista em energia Jean Paul Prattes, “a questão da competição direta” dos biocombustíveis com os alimentos é “real” e “não há como esconder”. Mas, Prattes, secretário de Energia do Rio Grande do Norte, disse à IPS que essa competição dependera das terras livres e cultiváveis de cada país. Nesse aspecto, o Rio Grande do Norte, e o Brasil em geral, têm áreas extensas e inclusive degradadas onde é possível produzir biocombustível sem desmatar, afirmou. Brasil e Estados Unidos respondem por 70% da produção mundial de etanol.

A política energética traçada pelo governo brasileiro tem como meta produzir 23,3 bilhões de litros por ano e exportar cinco bilhões. Quanto ao biodiesel, a intenção é chegar a 2010 com uma oferta anual de 3,3 milhões de litros. Até a Petrobras, com capitais públicos e privados, uniu-se aos esforços para produzir, expandir e promover a pesquisa científica de biocombustíveis. Com três novas usinas de biodiesel, a empresa pretende produzir 640 milhões de litros por ano até 2013. Incluindo também o etanol, a Petrobras anunciou que gastaria US$ 2,8 bilhões até esse ano.

Para José Sergio Gabrielli, presidente da Petrobras, o importante em termos de exportação é aumentar as vendas para se converter em um dos principais negociadores mundiais de etanol. A experiência de 40 anos do Brasil com álcool combustível indica que não houve problemas de segurança alimentar, pelo contrário, aumentou a produção de alimentos, disse Gabrielli à IPS. Além disso, aumentou “a capacidade de produção de maneira adequada da terra para o etanol” e até as “condições de trabalho” do pessoal que atual na área da cana-de-açúcar, afirmou. “Acreditamos ser possível aumentar a produção em áreas degradadas, nas que não são dedicadas à produção de alimento, para aumentar os biocombustíveis”, acrescentou.

Segundo o governo, a área nacional destinada à cana-de-açúcar supera apenas o 1% das terras aptas para a agricultura. A principal aposta da Petrobras é desenvolver tecnologias para produzir em escala industrial os biocombustíveis de segunda e terceira geração. Os de segunda poderiam ser obtidos da celulose de qualquer vegetal, aproveitando toda a planta e não somente seus grãos e, dessa forma, reduzindo o consumo de água, por exemplo, segundo Prattes. Os de terceira geração podem ser extraídos inclusive de ambientes extremos, como desertos, lugares gelados ou do mar, cultivando organismos como algas, acrescentou.

O objetivo é, precisamente, “tentar minimizar esse debate sobre a competição direta entre plantar e energia e plantar alimentos”, disse Prattes. “Se o Brasil puder plantar biocombustíveis nas condições atuais – sem comprometer supostamente as terras para alimentos – e ainda avançar para biocombustíveis de segunda e terceira geração, teremos um futuro promissor”, afirmou. Mas, nem o governo e nem a Petrobras estão dispostos a deixar de explorar e inclusive ampliar sua atual produção de petróleo e de gás natural.

A Petrobras produz atualmente 1,9 milhões de barris por dia. Mas com a descoberta de novos poços marítimos a milhares de metros de profundidade e sob uma camada de sal, espera aumentar essa produção para 3,10 milhões de barris/dia até 2020. Além disso, a companhia está construindo cinco refinarias de petróleo para aumentar sua capacidade de refino até 3,2 milhões de barris diários até 2020. “O que queremos eu aumentar nossa capacidade de refino de modo a termos uma posição de grande produtor de produtos refinados. Nossa opção não é apenas transformar a Petrobras em um grande exportador de petróleo, mas também de derivados”, disse Gabrielli.

Esse modelo, segundo Prattes, será “totalmente distinto do apresentado pelos exportadores tradicionais de petróleo, como os países árabes ou a Venezuela. Será um modelo voltado ao consumo interno, para atender nossas necessidades energéticas, e o restante para exportação. E ainda assim irá gerar riqueza para o País”, afirmou. IPS/Envolverde

Fabiana Frayssinet

Fabiana Frayssinet nació en Buenos Aires, Argentina. Ha colaborado con IPS desde 1996, abordando con reportajes y crónicas la realidad brasileña. Se desempeña como corresponsal extranjera desde 1989, primero desde América Central y luego desde Brasil, donde se instaló en 1996, colaborando con medios internacionales de radio, televisión y prensa: CNN en Español, Univisión, Telefé de Argentina y los servicios latinoamericanos de Radio Suecia y de Radio Nederland.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *