Cabul, 16/04/2009 – Diariamente, uma nuvem de esmog e pó baixa sobre as ruas da capital do Afeganistão. Gruda no rosto das pessoas, queima os olhos e mancha as mãos, embaço os vidros dos carros e obstrui a visão das montanhas distantes. “Meus amigos e eu preferimos ficar dentro de casa e nunca nos encontramos porque não podemos suportar o ar de fora”, disse Habib Zahori, de Cabul. O maior assassino nessa cidade pode não ser o movimento islâmico Talibã, mas a contaminação do ar. Especialistas consideram que Cabul é uma das cidades mais contaminadas do mundo, e a escala do problema motivou uma grande campanha governamental.
“A contaminação do ar é um grande problema aqui”, disse o diretor para saúde ambiental do Ministério de Saúde Pública, Amanullah Hosseini. “Provoca muitas doenças respiratórias, alergias, abortos espontâneos e até câncer”, acrescentou. O ministério estima que cerca de três mil pessoas morram por doenças causadas pela contaminação em Cabul a cada ano, convertendo-a na maior causa de morte não violenta nesta cidade de cinco milhões de habitantes. Quase 80% dos pacientes nos hospitais sofrem de enfermidades causadas pela contaminação do ar e da água, segundo a Agência Nacional de Proteção Ambiental (Nepa).
Por causa do aumento na expansão de 10 microgramas por metro cúbico de partículas em suspensão, “há um amento de 6% nas doenças cardiovasculares e de 8% nas mortes por câncer de pulmão por ano”, diz um recente informe do ministério. Cabul tem um nível três vezes maior de partículas em suspensão por metro cúbico do que qualquer outra cidade dos países vizinhos, segundo a Nepa. E esse índice é ainda maior em comparação com países industrializados. Uma mostra de dióxido de nitrogênio em Cabul, uma substância perigosa, registra nível de 52 partículas por milhão (ppm, medida científica usada para determinar a contaminação), enquanto a mesma leitura nos Estados Unidos mostra nível de 0,53 ppm.
Nos anos 80, Cabul era uma cidade pitoresca com exuberantes paisagens verdes e ar limpo procedente das montanhas. Mas a guerra, a queda dos serviços públicos e a explosão populacional fizeram a cidade sofrer uma contaminação pouco vista no mundo. Os principais culpados são os 900 mil veículos que obstruem as ruas da cidade, afirmou o subdiretor da Nepa, Muhammad Baheer. “Mais de 90% dos veículos têm mais de 10 anos”. A maioria dos habitantes não pode comprar carros novos e os velhos não contam com catalisadores (sistema que trata os gases expelidos pelo motor) e outros avanços tecnológicos que limitam as emissões prejudiciais.
E, em geral, os carros trafegam por ruas sujas e sem pavimentação, espalhando grande quantidade de pó que flutua no ar durante dias até chover, o que significa um grande perigo sanitário para as pessoas. Além disso, o Afeganistão importa combustível de qualidade muito ruim. Os gases gerados por esse combustível lançam vários contaminantes na atmosfera, incluindo o chumbo. Uma pesquisa da Nepa com 200 pessoas escolhidas ao acaso concluiu que 80% tinham altos níveis de chumbo no sangue. “Sei que este combustível causa problemas no ar. Meus olhos queimam no fim do dia, mas tenho de viver de alguma maneira”, disse Sayed Farhad, dono de um posto de abastecimento.
No norte do país, o combustível procede do Turcomenistão, e, no oeste, do Irã. Os comerciantes importam o de menor qualidade para terem mais lucro. “As pessoas querem fazer mais dinheiro. Não dão atenção à vida dos outros. Só querem lucrar”, disse Baheer. Nas noites em que Cabul fica às escuras (a eletricidade é intermitente na cidade) se propaga o uso de geradores a diesel. A Nepa estima que mais de 200 mil desses aparelhos funcionam nessas noites, deixando o ar mais contaminado.
Outro problema é a crescente população de Cabul. A cidade foi planejada para 500 mil pessoas, mas agora tem quase cinco milhões, na maioria refugiados que voltaram depois que o Talibã foi derrotado pelos Estados Unidos em novembro de 2001. Cabul produz quase duas mil toneladas de lixo sólido por dia, quando a capacidade para tratá-lo é de 400 toneladas, disse Baheer. Além disso, “Cabul é a única capital do mundo que conheço que carece de um sistema de esgoto”, acrescentou. O problema é tão grande que o presidente, Hamid Karzai, criou uma equipe especial para enfrentá-lo.
A Nepa lidera um grupo interministerial para cuidar das causas da contaminação, começando com o combustível. O governo estuda a possibilidade de impedir a importação de combustíveis de baixa qualidade. Uma delegação visitou o Ministério do Petróleo do Turcomenistão, que se comprometeu a colaborar desse lado da fronteira. Também instalará estações de vigilância para inspecionar todos os carros que entrarem e garantir que cumpram os padrões de emissões. “Depois, planejamos inspecionar os carros que já existem no país. Analisaremos as emissões e pediremos aos proprietários desses veículos que os adaptem”, disse Baheer.
A prefeitura de Cabul também lançou uma campanha contra outros contaminantes, como os fornos à lenha, usados em particular na fabricação de pão. Funcionários disseram que mais de 2.400 padarias na cidade usam esses fornos. Uma solução mais efetiva, segundo analistas, seria um completo programa urbano. Cabul se expande, tem esgoto a céu aberto, assentamentos ilegais, ruas cheias de lixo e tráfego que deixa as ruas congestionadas. A cidade não tem um plano completo para assimilar os milhões de novos residentes, disse Baheer. Uma das visões mais comuns nas ruas de Cabul é a de vendedores e guardas de segurança com lenços tapando nariz e boca. “Se houvesse uma lista de desejos, respirar o ar limpo estaria em primeiro lugar”, disse Zahori. IPS/Envolverde
* Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).

