AMÉRICA LATINA: Empresários descobrem as bondades do Estado

Rio de Janeiro, 16/04/2009 – Representantes do poder econômico e político da América Latina e do Caribe tentam pela primeira vez dar respostas a um problema pelo qual não se consideram responsáveis – a crise mundial – mas parte da solução. A voz principal foi do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que como anfitrião, ontem da edição latino-americana do Fórum Econômico Mundial (FEM) aproveitou para reiterar, novamente, os conceitos emitidos nos últimos encontros semelhantes. “Não há solução sem participação efetiva dos países em desenvolvimento. não criamos o problema, mas somos parte fundamental da solução”, destacou Lula, que abriu o fórum junto com o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe.

As soluções, segundo Lula, passam por uma nova ordem mundial, que tanto defendeu em seu tempo de sindicalista e que hoje é apontada como necessária por mandatários de vários países ricos. Para o Presidente, a região pode dar resposta propondo um novo sistema financeiro “democrático” que crie controles não apenas para as nações em desenvolvimento, mas também para as desenvolvidas. Trata-se de um sistema que não esteja baseado no “lucro fácil” do passado, uma “economia virtual” que substituiu a produção pelo “intercâmbio de papeis e mais papeis”, acrescentou Lula ao se referir à especulação financeira.

Nesse contexto, perguntou com “é possível uma parte do mundo tão conhecedor de tudo, que dava tantos conselhos sobre economia aos países emergentes”, não percebesse essa realidade. Lula critico o fato de “toda essa gente que durante anos ganhou trilhões de dólares, que aparecia na lista dos mais ricos do mundo da revista Forbes”, não ter percebido que suas “fortunas não cresciam junto com o aumento do produto interno bruto dos países pobres e da melhoria de vida da humanidade”.

O discurso foi ouvido atentamente por Uribe, que buscou marcar suas diferenças ideológicas ao se referir ao que chamou de Estado participativo, mas, não todo-poderoso. Documentos que circulam no fórum, que termina hoje, destacam que o maior desafio para a América Latina é “harmonizar a expansão econômica” sem acentuar as desigualdades sociais.

A região, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), verá neste ano cair pela metade o volume dos investimentos estrangeiros diretos, que somariam US$ 43 bilhões. O diretor do FEM para a América Latina, Emilio Lozoya, considera, por dados como estes, que a natureza da crise não é financeira para a região, mas uma consequência da redução da demanda externa de seus produtos. Também, segundo informes divulgados no fórum, as exportações da América Latina para outros mercados terão, pelo menos, queda de 9% em 2009.

Ao coincidir com outros participantes do FEM que a região está mais “sólida”, financeiramente para enfrentar a recessão mundial, Lozoya considerou necessário enfrentar a queda das exportações para os países ricos com estímulos visando aumentar a demanda interna, por exemplo, ampliando a capacidade de crédito. “Há uma grande oportunidade para investir no correto em uma situação de crise”, disse Lozoya à IPS. “A América Latina teve uma taxa de crescimento interessante nos últimos cinco anos, de 5%, mas, não estava crescendo como as taxas de China e Índia – mercados mais dinâmicos – porque os grandes gargalos eram a infra-estrutura e a educação”, afirmou.

O brasileiro Marcelo Odebrecht, executivo da construtora Odebrecht, concordou com a necessidade de investir em obras de infra-estrutura para ativar o mercado interno, representantes dos maiores grupos econômicos da região agora vão mais longe em sua descoberta de que é preciso um Estado mais ativo. Este construtor, que investe em vários países além do Brasil, deu com exemplo a necessidade de incentivar obras públicas “de cunho social”, com programas de moradia popular.

“Não cabe a nós, América Latina, corrigir o que fizeram os países desenvolvidos, mas temos de combater os efeitos”, disse Odebrecht à IPS. Esta é uma “tarefa de casa” para os governos e as empresas da região, que estão “preparados” para fazê-la, acrescentou. A “crise como oportunidade” para a região prevaleceu como conceito entre outros participantes latino-americanos.

Para um governante como Luiz Inácio Lula da Silva, a oportunidade que abre é a de exigir mudanças e controles nos órgãos multilaterais de crédito, entre outros. Porta-vozes do sistema financeiro nacional, como Ricardo Villela Marinho, consideram que a crise é “fundamental para que a região se una, coopere e aumente seu comércio” intrarregional. Marinho é chefe-executivo do banco Itaú-Unibanco,com ambições de maior expansão mundial.

“Alguns acreditam que o mundo está desmoronando, mas, na verdade, está se unindo para encontrar soluções aos desafios atuais”, destacou Marinho em entrevista coletiva na qual destacou atitudes com a do Brasil, que decidiu emprestar dinheiro ao Fundo Monetário Internacional. Os presentes a esta reunião do FEM discutem outros temas, como políticas de desenvolvimento sustentável, integração e combate ao narcotráfico, em um âmbito prévio à Quinta Cúpula das Américas que acontece entre amanhã e domingo em Trinidad e Tobago. IPS/Envolverde

Fabiana Frayssinet

Fabiana Frayssinet nació en Buenos Aires, Argentina. Ha colaborado con IPS desde 1996, abordando con reportajes y crónicas la realidad brasileña. Se desempeña como corresponsal extranjera desde 1989, primero desde América Central y luego desde Brasil, donde se instaló en 1996, colaborando con medios internacionales de radio, televisión y prensa: CNN en Español, Univisión, Telefé de Argentina y los servicios latinoamericanos de Radio Suecia y de Radio Nederland.

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