Havana, 30/04/2009 – O presidente de Cuba, Raúl Castro, renovou ontem sua disposição de “conversar sobre tudo” com os Estados Unidos, mas acrescentou que esse eventual diálogo não inclui “gestos” unilaterais nem negociar o sistema político ou os assuntos internos deste país. O esclarecimento de Castro, em uma concorrida reunião do Movimento de Países Não-alinhados (Noal), aparece quando funcionários das duas nações mantêm em Washington encontros “informais” para abordar assuntos de interesse comum. Um porta-voz da Casa Branca disse esta semana que se trata de contatos que ocorrem “periodicamente”.
Castro deixou instalado o segmento ministerial da reunião do Noal, que dá os toques finais aos documentos que serão apresentados, para sua aprovação, à XV Cúpula do movimento, que Cuba preside desde 2006. o projeto de declaração final, de 467 parágrafos, inclui uma condenação ao embargo norte-americano contra este país.
“Não há pretexto político nem moral que justifique a continuidade dessa política, disse Castro em seu discurso, após considera que as medidas de flexibilização anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, são “positivas”, mas, de alcance “mínimo”. O “bloqueio permanece intacto”, ressaltou. Em meados de abril, Obama anunciou o fim das restrições que desde 2004 pesavam sobre as viagens e envios de remessas de cidadãos cubano-norte-americanos para Cuba. Alguns dias antes, o governo norte-americano começou a pedir a Havana reciprocidade, como a libertação de “presos políticos e outros passos”.
“Não é Cuba que tem de fazer gestos”, insistiu Castro, após recordar que seu país “não impôs sanção alguma aos Estados Unidos nem contra seus cidadãos” e tampouco “é quem persegue as transações financeiras realizadas pelos bancos norte-americanos. Reiteramos nossa disposição de falar sobre tudo com o governo dos Estados Unidos, em igualdade de condições, mas não de negociar nossa soberania nem nosso sistema político e social, o direito à autodeterminação, nem nossos assuntos internos”, disse o mandatário.
Em uma primeira reação, o porta-voz do Departamento de Estado, Robert Wood, renovou o interesse de Washington de dialogar com Cuba. “Mas creio que a comunidade internacional quer ver passos dados por Havana, para avaliar a seriedade desse governo sobre um diálogo a respeito de uma série de temas”, acrescentou. “Cremos que Cuba tem um apoio de toda a comunidade internacional”, disse, diante dos jornalistas o chanceler do Equador, Fander Falconi, lembrando que a reclamação do fim do bloqueio esta presente em todos os fóruns públicos.
Da reunião em Havana participaram delegações de 111 países Noal, integrado por 118 nações, que foram exortadas por Castro a apoiar a realização em junho de uma conferência da Organização das Nações Unidas sobre a crise econômica e financeira e seu impacto no desenvolvimento. Segundo o presidente cubano, que em julho deverá ir ao Egito para passar a esse país a presidência do Noal, a reunião da ONU constitui “o contexto imprescindível para debater e buscar soluções de consenso para esta grave situação. O Movimento de Países Não-alinhados deve apoiar sua realização”.
Essa conferência será a oportunidade de analisar o problema e oferecer sugestões de solução, disse o presidente da Assembléia Geral da ONU, Miguel D’Escoto, que exortou no sentido de aproveitar a reunião para criar uma nova arquitetura econômica e financeira mundial. “Pela primeira vez na história, todos os países do mundo, incluindo os que pagam, terão agora a oportunidade de participar desse desenho”, disse o diplomata nicaragüense.
A reunião de Havana termina hoje debatendo temas contidos na declaração final, que incluem migrações, tráfico de drogas, nova ordem econômica, terrorismo e meio ambiente, entre outros. Também se analisa o apoio do Noal ao presidente da Bolívia, Evo Morales, e o apoio ao direito do povo palestino a um Estado soberano. O chanceler boliviano, David Choquehuanca, pediu o apoio do Noal à demanda do Estado Plurinacional da Bolívia para eliminar a proibição de mastigar folha de coca, estabelecida na Convenção Única sobre Estupefacientes, de 1961.
“As restrições e proibições à mastigação de folha de coca constituem um atentado aos direitos dos povos indígenas. Não queremos que este pensamento colonial continue e consideramos que a luta contra este enfoque tem de continuar sendo parte da prática deste movimento”, disse Choquehuanca. Observadores não descartaram que essa demanda boliviana seja um dos temas cuja inclusão no texto final estava em discussão. IPS/Envolverde

