AIDS-ÁSIA: Usuários de drogas tratados como seres humanos

Bangcoc, 30/04/2009 – Taiwan conseguiu reduzir em 50% em três anos a infecção pelo HIV, vírus da síndrome de deficiência imunológica humana (Aids), entre os usuários de drogas intravenosas, com uma campanha que renova as esperanças de seus vizinhos da Ásia na luta contra essa doença As gestões da ilha para conter o HIV e a Aids nesse setor da população de alto risco receberam aplauso unânime dos especialistas de todo o mundo reunido em Bangcoc. Em 2005, Taiwan bateu seu recorde de novas infecções pelo HIV, 3.300, quase o dobro do ano anterior. Em 2008, essa quantia diminuiu para 1.752 casos.

O segredo do sucesso foi o enfoque humano da aproximação aos usuários de drogas intravenosas, através de um programa nacional de redução de danos, disse quem liderou até o ano passado o Ministério da Saúde, Sheng Mou Hu, aos participantes da conferência de Bangcoc. “O tempo demonstrou que tínhamos razão”, afirmou Sheng. “Pelo nosso enfoque a prática da redução de danos deveria se basear nos direitos humanos”. Assim, os usuários dessas drogas de Taiwan não foram considerados pelas autoridades como delinquentes, pelo contrário, eram apresentados ao público como “pacientes” que necessitavam de ajuda.

A iniciativa de saúde pública lançada em 2006 pelo governo de Taiwan consistiu em rastrear com mais afinco os portadores de HIV que usavam drogas injetáveis, facilitar-lhes o controle de seu estado clinico, estabelecer um programa de entrega de agulhas novas e outro de terapia por substituição de drogas (heroína por metadona). Mas, “encontramos enorme resistência nos meios de comunicação e no parlamento”, recordou o ministro Sheng. Estas iniciativas puderam ser implementadas em meio a fortes críticas desde vastos setores do público.

“Nenhum outro país da Ásia iguala os êxitos de Taiwan”, disse Ton Smitys, diretor-executivo da não-governamental Rede Asiática de Redução de Danos (AHRN), baseada na cidade tailandesa de Chiang Mai. “Na maioria dos outros países as políticas de controle de drogas estão em conflito direto com as políticas relacionadas com o HIV, o que, por sua vez, afeta os programas de redução de danos em toda a região”, explicou. “No sudeste asiático, apenas 3% dos usuários de drogas injetáveis têm acesso a serviços de redução de danos. O financiamento desses projetos passa por uma crise. A brecha que deve ser coberta para este ano é de 90”, disse Smits.

Quatro países da região que se encaminham na mesma direção que Taiwan em 2006 – China, Malásia, Tailândia e Vietnã – mostram sinais animadores. Seus governos deram passos no sentido de ajudar os que usam drogas injetáveis por meio de um enfoque de saúde pública, uma mudança em relação aos anteriores baseados na repressão e na ação policial e judicial. Mkas a região ainda tem um longo caminho pela frente, pois os usuários de drogas intravenosas são uma das comunidades mais vulneráveis ao HIV. “Estima-se que em 2006 pouco menos da metade dos portadores de HIV na China eram pessoas contagiadas por compartilhar agulhas contaminadas”, informou no ano passado o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV e Aids (Onusida), acrescentando que “os cenários são semelhantes em partes da Índia no Paquistão e no Vietnã”.

Na Ásia vivem hoje mais de cinco milhões dos 33 milhões de portadores de HIV. E os usuários de drogas injetáveis são cerca de 16 milhões em 158 países, segundo a Associação Internacional de Redução de Danos (IHRA), que organizou a conferência na capital da Tailândia. “A esmagadora maioria, 80%, vivem em países de renda baixa e média”, diz o informe. “A prevalência do HIV entre usuários de drogas injetáveis varia consideravelmente em todo o mundo. Estima-se que mais de três milhões deles sejam portadores do vírus”, diz um informe divulgado na conferência da semana passada.

Algumas estimativas se referem à existência de mais de 6,6 milhões de pessoas que usam drogas injetáveis em todo o mundo. Mas o financiamento para atender esta comunidade vulnerável é muito limitado. ‘Somente entre 2% e 3% (entre US$ 200 milhões e US$ 300 milhões) dos recursos destinados à luta contra o HIV são canalizados para redução de danos”, disse Gerry Stimson, diretor-executivo do IHRA. “Falando seriamente, precisaremos de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões este ano e no próximo”, alertou. “Os usuários de drogas e ativistas reclamam tratamento. Mas os usuários são castigados. O tratamento deveria começar nos vendo como seres humanos”, disse Paisan Suwannawong, cofundador do Grupo de Ação e Tratamento da Aids, da Tailândia.

Não ajudar quem usa drogas injetáveis e tem HIV equivale a condenar essa pessoa a uma morte precoce. “O acesso ao tratamento antirretroviral garante a qualquer portador de HIV entre 20 e 30 anos de idade no mundo industrial cerca de 40 anos a mais de vida’, disse Michael Kazatchine, diretor-executivo do Fundo Mundial de Luta contra a Aids. “Mas os usuários de drogas intravenosas vivem 12 anos menos”, acrescentou. IPS/Envolverde

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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