Atenas, 08/04/2009 – Por mais de uma década, imigrantes e refugiados acabaram em uma favela da central cidade marítima grega de Patras à espera de um barco que os levasse à Itália O assentamento fica perto do porto dessa cidade de 160 mil habitantes, 220 quilômetros a sudoeste de Atenas, e foi criado por curdos, mas mais de 95% de seus habitantes atuais são originários do Afeganistão. As condições de vida e higiene são, no mínimo, impróprias para seres humanos. E embora estes sejam problemas crônicos, a situação geral se agravou com a crescente hostilidade dos membros e das autoridades da comunidade local em relação aos refugiados.
“As autoridades municipais não respondem aos nossos pedidos para regular o problema, acreditando que desaparecerá quando a pressão da comunidade local obrigar os refugiados a partirem”, disse à IPS Andréas Vgenopoulos, membro de um grupo de cidadãos que dá apoio aos estrangeiros em Patras. “O que não entendem é o desespero dessa gente. Só se entende de onde vêm, sabem que não voltarão, se ficarão até poderem ir mais para oeste”, acrescentou. Desde maio, a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) administra uma pequena unidade de primeiros socorros no assentamento com um especialista em condições de crise humanitária e um psicólogo. Christos Papaioannou, coordenador do projeto, disse que as pessoas enfrentam grandes perigos apenas com a falta de condições de higiene.
No geral, entre cinco e 10 pessoas dormem em cada um dos 200 barracos feitos de madeira, papel e plástico. Há apenas quatro banheiros disponíveis no assentamento. A população é estritamente masculina, e inclui muitos menores abandonados. O lixo e as fossas cépticas raramente são limpas, enquanto a lama se acumula em torno do lugar, o que representa uma ameaça não apenas para os refugiados, mas também para os moradores e casas vizinhas.
“Desde maio assado examinamos cerca de sete mil pessoas no assentamento. A maioria tinha problemas dermatológicos e respiratórios devido à falta de higiene, bem como várias feridas. Algumas também sofriam depressão, estresse extremo e desordens do sono”, disse Papaioannou. “Qualificamos a situação em Patras de emergência médica, o que significa que um grande número de pessoas vulneráveis não têm acesso livre aos serviços básicos”, acrescentou.
Segundo a lei grega, os imigrantes ilegais podem ser aceitos em hospitais somente em casos de emergência. O tratamento, mesmo quando são pessoas muito doentes, depende estritamente da boa vontade do médico. A MSF estima que há entre 1.200 e 1.500 pessoas no assentamento, mas os números exatos são difíceis de precisar, pois a população está em constante movimento. Alguns vivem em Patras há anos, e outros apenas alguns dias. Sobrevivem graças a empregos que conseguem no mercado informal e de donativos dados pro alguns cidadãos.
Vgenopoulos disse que as feridas são, em geral, resultado de abusos cometidos por guardas-costeiros e policiais que vigiam o porto. “Há muitos casos em que as autoridades tratam brutalmente quem tenta subir em uma embarcação. A decisão para aumentar as medidas policiais gerou uma situação em que as pessoas desesperadas se arriscam a tudo com a intenção de chegar a um barco”, afirmou.
No dia 2 de março, o motorista de um caminhão tentou atropelar um afegão que havia subido na carroceria do veiculo. Os imigrantes, em geral, se escondem debaixo e dentro de caminhões na esperança de terem acesso aos ferrys. O caminhoneiro em questão foi acusado de tentativa de homicídio, mas isto não melhora a situação, disse Vgenopoulos. “É preocupante que gradualmente se adote um enfoque radical por parte de uma pequena parte dos moradores de Patras. Isto estimula a extrema-direita e os elementos racistas que acreditam que o tema só tem uma solução radical”, acrescentou.
No dia 21 de janeiro foi registrado um incêndio no assentamento. Foi dito que alguns vizinhos gritavam: “Deixem que se queimem”, e tentavam impedir o acesso dos bombeiros. Outros foram vistos cuspindo nos refugiados desde suas sacadas. Um terço do local, incluindo o recinto da MSF, ficou destruída, deixando 500 pessoas sem teto. Os habitantes de Patras também se voltam contra os que defendem os refugiados: “Algumas pessoas foram tão longe a ponto de dizerem que nos beneficiamos com esta situação”, lamentou Vgenopoulos. “Não temos nada a ganhar com o sofrimento dessas pessoas. A culpa de ter reféns como estes é das redes de contrabando, em que figuras-chave são protegidas por elementos das autoridades, e o vergonhoso papel da Grécia no amplo tema da política européia sobre migrações”, acrescentou. IPS/Envolverde

