Pequim, 08/04/2009 – O momento em que a Coréia do Norte decidiu disparar seu último foguete como um sinal de força foi mais provocativo do que o lançamento em si: ocorreu no mesmo dia em que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fazia um discurso chamando pelo fim das armas nucleares
O lançamento ignorou as resoluções da Organização das Nações Unidas que proíbem a Coréia do Norte de participar de qualquer atividade com mísseis. Isto levou esse país stalinista a um completo isolamento justamente dias depois de concluída a cúpula do Grupo dos 20 países industrializados e emergentes realizada em Londres, na qual a comunidade internacional se comprometeu a combater unida a crise financeira mundial. Qualificando a aço norte-coreana de “provocação”, Obama, em discurso em Praga sobre seus objetivos de desarmamento nuclear, disse que Pyongyang “ignorou suas obrigações internacionais, rechaçando os chamados inequívocos à moderação e se isolou ainda mais da comunidade de nações”.
“Esta provocação revela a necessidade de uma ação, não apenas esta noite no Conselho de Segurança, mas também em nossa determinação de impedir a propagação destas armas”, disse Obama. “As regras devem ser vinculantes, as violações devem ser punidas, palavras devem significar algo… É o momento para uma forte resposta internacional. A Coréia do Norte deve saber que o caminho para a segurança e o respeito mútuo nunca será alcançado através de armas ilegais”, acrescentou o presidente norte-americano.
Mas o chamado à ação de Obama foi freado quase imediatamente pelos pedidos de moderação e cautela de China e Rússia. Ambos temem que sanções internacionais possam levar ao colapso a já cambaleante economia norte-coreana e desestabilizar ainda mais a instável península. A saúde do isolado líder da Coréia do Norte, Kim Jong II, de 67 anos, e seu efetivo controle do poder é motivo de preocupação entre a comunidade internacional desde que sofreu um infarto em agosto de 2008.
O chanceler chinês, Yang Jiechi, telefonou aos seus colegas do Coréia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia para troca de pontos de vista sobre o lançamento de domingo, segundo comunicado oficial de Pequim. “Todas as partes deveriam ver o panorama geral e evitar ações que possam exacerbar a situação”, disse Yang. A China “defende as conversações para resolver a questão”, acrescentou.
Durante a reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU nas últimas horas do domingo, na qual se conseguiu um acordo sobre uma resposta comum ao lançamento, o representante chinês também pediu cautela. “Creio que agora estamos em um momento muito delicado”, disse aos jornalistas o embaixador Zhang Yesui após o encontro. “Sobre a resposta que o Conselho de Segurança deve dar, nossa postura é que tem de ser cautelosa e proporcional”, acrescentou. A opinião da China é muito importante, já que é membro do Conselho de Segurança com poder de veto sobre as resoluções, mas, também por ser o mais próximo aliado e sócio econômico de Pyongyang. Pequim fornece aproximadamente 90% do petróleo com que a Coréia do Norte conta, e responde por mais da metade de seu comércio exterior.
Analistas acreditam que a China ajudou a manter à tona o regime de Kim Jong Il durante anos por temer que sua queda desestabilize esse país, provocando uma onda de refugiados e permitindo a criação de uma mais forte Coréia unificada em sua fronteira. Embora Pequim mantenha publicamente o princípio de não intervir em assuntos internos de outros países, não descarta as expectativas de que a sociedade norte-coreana possa se transformar sob instruções chinesas que levem os líderes de Pyongyang a adotar uma reforma de mercado e maior exposição perante o mundo exterior.
O abrupto reconhecimento do regime norte-coreano em 2002 perante um envaido norte-americano de que havia avançado secretamente em um programa de desenvolvimento nuclear, violando acordos existentes, levou a China a adotar mais ações. Assim, lançou a rodada de negociações das Seis Nações, convidando à mesa Coréia do Norte, Coréia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia. Sob um histórico acordo em 2007, a Coréia do Norte aceitou desmantelar seu programa nuclear em troca de ajuda energética e concessões diplomáticas. Mas as conversações se frustraram em dezembro desse ano devido aos atritos sobre o processo de verificação do desarmamento.
Analistas chineses atribuem o comportamento norte-coreano à forte pressão de Washington, Tóquio e Seul. “O fator da pressão nas atuais circunstâncias tensas da península coreana é inegável”, escreveu Lou Yang, pesquisador do Centro de Informação Estatal no jornal China Business Journal”. “Sem evidência para prová-lo, Washington e seus aliados obstinadamente insistem que a Coréia do Norte testaria um míssil balístico. Inclusive, disseram que mesmo um satélite de comunicações violaria a resolução da ONU, já que Pyongyang estaria usando um foguete de longo alcance para colocá-lo em órbita”, afirmou.
Por sua vez, Shi Yinhong, pesquisador da Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Renmin, em Pequim, disse que Japão e Estados Unidos poderiam usar este lançamento como desculpa para uma expansão militar na região. “Insistem com a ameaça norte-coreana com a finalidade de preparar o caminho para um sistema de defesa antibalístico”, disse Shi durante conversa via Internet após o lançamento de domingo. A atual resposta oficial da China foi relativamente suave em comparação à de 2006, quando acusou Pyongyang de ter realizado “flagrantemente” um teste nuclear desafiando a opinião internacional. IPS/Envolverde


