Anchorage, Estados Unidos, 24/04/2009 – A ação quente e carbônica da humanidade não só derrete as águas polares: também perturba uma infinidade de ecossistemas e meios de sustento de todo o planeta, alertaram delegados indígenas reunidos na capital do Alasca (EUA).
“Os povos indígenas estão aqui para alertar a humanidade e liderar a marca para a salvação da Terra”, afirmou Marsh, delegada juvenil de sua comunidade perante 400 representantes de aborígines de todo o mundo convocados pela Organização das Nações Unidas. Também participam da Cúpula Mundial dos Povos Indígenas sobre Mudança Climática, em Anchorage, o presidente boliviano, Evo Morales, membro da etnia originaria aymara, e outros 80 delegados governamentais.
Erosão costeira, deslizamentos de terra, secas mais prolongadas e furacões severos são apenas alguns dos impactos da mudança climática em prejuízo do Caribe, disse o chefe Charles Williams, do povo Kalinago na ilha de Dominica. “A maioria dos povos indígenas vive marginalizada. Seus cacifes não são tão fortes com os de outros quando se trata de enfrentar a mudança climática”, lamentou. “A mudança climática vai piorar significativamente as coisas para os povos que já sofrem dificuldades devido a discriminação, desnutrição e problemas de saúde”, disse o especialista Anthony Oliver-Smith, do Instituto para o Meio Ambiente e a Sociedade Humana, da Universidade da ONU.
“A maioria dos povos indígenas vive oprimida como grupos minoritários dentro dos Estados. A mudança climática supõe para eles pressões potencialmente sufocantes e acima de muitas outras pressões”, disse Oliver-Smith, também especialista da Universidade da Florida, em uma declaração escrita enviada à conferência de Anchorage. Pelo menos cinco mil povos indígenas foram identificados em mais de 70 países, com uma população somada de 300 a 350 milhões de pessoas, isto é, 6% da humanidade.
Chuvas severas, temperaturas extremas e amento do nível do mar ameaçam a simples existência dos povos das ilhas do Pacífico, disse à IPS Fiu Mataese Elisara, diretor-executivo da ambientalista Sociedade O le Siosimaga, de Samoa. “Outros ilhéus já tiveram de se mudar. A mudança climática é para nós uma questão de vida ou morte”, acrescentou. Muitos povos indígenas estão assentados em seus territórios há milhares de anos. Esses prolongados períodos e sua intima ligação com o meio ambiente natural lhes dão uma sensibilidade e compreensão únicas.
Em Papua-Nova Guiné, os aborígines são obrigados a se mudar por causa da combinação do crescimento demográfico e a inundação de áreas costeiras por causa do aumento do nível do mar. Na ilha de Bornéu, a terceira do mundo em superfície, o povo dayak documentou variações climáticas baseando-se n observação do comportamento de espécies de pássaros, elevação das águas e perda de plantas medicinais tradicionais. As mudanças de temperatura nos Andes tiveram um impacto radical na agricultura, na saúde e na biodiversidade, evidentes em um aumento de doenças respiratórias, redução da lã extraída das alpacas e uma temporada mais curta de cultivo.
“A mudança climática não é apenas uma questão ambiental, mas também de direitos humanos”, disse Joseph Olé Simel, diretor da Organização Integrada de Pastores pelo Desenvolvimento Mainyoito no Quênia. As secas e o recrudescimento de novas enfermidades do gado são problemas que levam a conflitos entre comunidades tribais, bem com a degradação da terra, pois cada vez mais animais devem compartilhar pastagens cuja área diminui. Por sua vez, isto obriga um número cada vez maior de povos abandonar seus territórios ancestrais com destino às cidades. A seca e o calor dificultam o cultivo de milho na maioria dos Estados do México. Em alguns, como em sonora, este vegetal originário da região mesoamericana não poderá ser cultivado em 2020. “Não queremos mais calor”, disse um representante dos povos nativos de Oaxaca em Anchorage.
Os territórios indígenas que constituem 75% da superfície continental da Rússia sofrem uma ampla gama de impactos, como derretimento de gelos permanentes, cheias de rios, avanço de florestas para o norte, redução de pastagens e surgimento de insetos e doenças antes desconhecidos. As tempestades tropicais e os furacões ficam mais frequentes e fortes em todo o Caribe, disse Cletus Springer, nativo de Santa Lucia e diretor do Departamento de Desenvolvimento Sustentável da Organização dos Estados Americanos (OEA). O furacão Ivã devastou Granada em 2004, e isso representou um retrocesso de 10 anos para o desenvolvimento do país, disse Springer em Anchorage.
“Nunca devemos permitir que os países que criaram o problema da mudança climática deixem de lado sua responsabilidade. Não deixemos que se sintam cômodos com as negligencia, nem por um momento”, pediu Springer aos delegados. IPS/Envolverde
* A viagem de Stephen Leahy a Anchorage foi financiada pela Universidade das Nações Unidas e pelo Project Word, uma iniciativa para aumentar a cobertura jornalística dos assuntos indígenas.


