PARIS, 05/05/2009 – O dirigente líbio Muammar Gaddafi, antigo pária e agora prudente parceiro da Europa, parece estar determinado a exercer os seus músculos diplomáticos regionais recentemente descobertos no que diz respeito a questões diversas que vão desde o comércio até à segurança regional, segundo observadores do Norte de África. Desde que foi eleito em Fevereiro para um mandato de um ano para liderar a União Africana (UA), organização com 53 membros, Gaddafi tem estado a desempenhar esse papel com energia e també, o de força orientadora da Comunidade dos Estados do Sahel e do Saara (CEN-SAD).
Promovendo um movimento de liderança pan-continental idiossincrático, Gaddafi está nas boas graças da União Europeia (UE) depois da Líbia ter anunciado em 2003 que tinha abandonado o seu programa de armas nucleares.
Fez sentir a sua presença nos últimos meses com uma série de questões que afectam as relações entre a Europa e África.
Gaddafi tornou-se um frequente visitante às capitais europeias nos últimos anos para promover, entre outras medidas, a criação de um fundo de 250 milhões de euros para lutar contra a pobreza na região do Norte de África. Este fundo foi proposto em Fevereiro durante um encontro da CEN-SAD na capital marroquina, Rabate.
Em Fevereiro, a comissária europeia para as relações exteriores, Benita Ferrero-Waldner, deslocou-se à Líbia para tentar melhorar as relações entre as duas regiões nos sectores da energia e comércio.
Actualmente, os dois governos estão ocupados com negociações difíceis que eventualmente levarão a acordos comerciais, os acordos de parceria económica, que irão reger o comércio de produtos, serviços e investimentos. A recente admissão da Líbia na Organização Mundial de Comércio deverá facilitar este processo.
“A Líbia é vista crescentemente como parceiro aceitável, apesar do seu comportamento interno” disse George Joffe, director do Centro de Estudos Norte Africanos na Universidade de Cambridge, na Inglaterra.
Estes contactos de alto nível marcam uma vitória pessoal de Gaddafi na busca do reconhecimento internacional, depois de ter tomado o poder num golpe militar que derrubou o rei líbio Idris em 1969.
Também assinalam a completa reviravolta das relações entre a Líbia e a Europa e Estados Unidos nas últimas duas décadas, marcadas por uma série de incidentes terroristas atribuídos por estes últimos ao regime de Gaddafi.
Esses incidentes incluem o atentado à bomba no voo 103 da Pan Am sobre Lockerbie, na Escócia, em Dezembro de 1988, que causou a morte de 270 pessoas e resultou na condenação de um antigo agente dos serviços de inteligência líbios.
Na sequência de um atentado à bomba numa discoteca de Berlim que matou três pessoas e feriu mais de 200, os Estados Unidos lançaram um ataque áereo contra a Líbia que causou a morte de 15 pessoas, incluindo uma filha adoptiva de Gaddafi com 15 meses, Hanna Gaddafi.
Porém, depois do desmantelamento do programa nuclear líbio, os Estados Unidos levantaram as sanções económicas de longa data que tinham sido impostas à Líbia e removeu o país da lista de estados que apoiam o terrorismo, passos esses que foram seguidos pela UE.
Muitos acreditam que a criação da CEN-SAD, inicialmente formada em 1998 com seis membros e que aumentou desde então para 28 nações, desde a Tunísia à Libéria, terá sido instrumental para os actuais objectivos de Gaddafi.
“Este é um projecto que foi inteiramente concebido para fazer avançar a Líbia como estado africano importante”, disse Joffe. “A Líbia vai providenciar o financiamento, a Líbia vai distribuí-lo, a Líbia vai beneficiar quando os projectos forem criados”.
No ano passado, Gaddafi procurou repetidamente aprofundar ligações políticas e económicas entre a União Africana (UA) e a CEN-SAD.
Por exemplo, durante uma visita à Guiné Bissau em Março, Gaddafi anunciou que a CEN-SAD se iria juntar à UA para averiguar os assassinatos do Presidente daquele país, João Bernardo Vieira, e do Chefe de Estado das Forças Armadas, General Batista Tagmé Na Wai.
Contudo, alguns observadores vêem o rápido crescimento da CEN-SAD como um problema.
“A CEN-SAD possui virtualmente metade dos membros da UA mas não tem nenhum foco regional claro como acontece com a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (com 16 membros)”, disse o Dr. J. Peter Pham, observador de longa data de assuntos norte africanos, e também Director do Instituto Nelson para Assuntos Internacionais e Públicos na Universidade de James Madison, na Virginia, Estados Unidos.
A criação da CEN-SAD deve talvez ser recebida com cautela, visto que o historial de Gaddafi em África, apesar de não se ser tão conhecido como os actos espectaculares de terrorismo internacional, continua a ser sinistro.
O dirigente líbio foi um dos principais apoiantes iniciais da Frente Nacional Patriótica da Libéria (NPFL) de Charles Taylor, durante a guerra civil de 1989-1996, período durante o qual a NPFL foi acusada de ter cometido graves abusos dos direitos humanos contra a população civil da Libéria.
Taylor está presentemente a ser julgado por crimes de guerra e crimes contra a humanidade pelo seu papel na guerra civil de 1991-2002 na vizinha Serra Leoa.
Na própria Serra Leoa, figuras proeminentes da Frente Revolucionária Unida (RUF), a facção rebelde acusada de ter cometido a maioria de crimes de guerra no conflito que teve lugar naquele país, foram recebidas em campos de treino de guerrilheiros localizados na Líbia.
Gaddafi também é acusado por certos críticos de ter desempenhado um papel na criação das condições que causaram o conflito que grassa na região de Darfur, no oeste do Sudão –conflito que já matou 300.000 pessoas – ao ajudar a criar a organização supremacista árabe Tajamu al-Arabi.
Este grupo anunciou a sua intenção de esvaziar a região de tribos “africanas”.
O Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu um mandado de captura contra o Presidente sudanês Omar al-Bashir, no mês passado, depois de o ter acusado de crimes de guerra e crimes contra a humanidade em Darfur.
Numa recente reunião da UA na capital etíope, Adis Abeba, Gaddafi citou a acusação do TPI contra al-Bashir como indicação de um “novo terrorismo mundial” e do desejo dos poderes europeus de “tornarem a colonizar” as suas antigas esferas de influência.
A dinâmica da política interna líbia também continua a ser um assunto controverso.
A organização não governamental internacional Human Rights Watch, sediada em Nova Iorque, refere várias violações no seu relatório de Setembro de 2008 intitulado “Líbia: Direitos em Risco”: “a continuação de detenções e o encarceramento de prisioneiros políticos, alguns dos quais ‘desapareceram’; a tortura de reclusois; a ausência de uma imprensa livre; a proibição de organizações independentes; e a violação dos direitos das mulheres e dos estrangeiros”.
A Human Rights Watch também criticou o sistema político da Líbia por ser “dominado por um dirigente que não tolera nenhuma crítica contra a sua governação”.
Apesar de se mostrar superficialmente mais discreto no que diz respeito às suas ambições por comparação com a atitude inflamatória que personificou há anos atrás, Gaddafi continua a emitir opiniões estridentes em reuniões internacionais que de outra forma seriam mais calmas sem ele.
Na cimeira de líderes norte africanos realizada em Trípoli em Junho de 2008, atacou veementemente a recém-criada União do Mediterrâneo (iniciada um mês mais tarde pelo Presidente francês, Nicolas Sarkozy), apelidando esta organização de ameaça contra a unidade árabe e africana.
No mês passado, Gaddafi abandonou em fúria uma cimeira árabe no Qatar após ter denunciado o rei Abdullah, da Arábia Saudita, apelidando-o de “produto britânico e aliado dos americanos”, antes de se proclamar a si mesmo o “orientador dos líderes árabes” e o “rei dos reis de África”.

