Havana, 05/05/2009 – O Movimento de Países Não-alinhados (Noal) considerou a recessão econômica mundial como uma das mais graves ameaças que o mundo enfrenta e decidiu apoiar “com voz forte e única” a próxima conferência sobre o tema organizada pela Organização das Nações Unidas. O impacto da recessão internacional, sua origem e causas, concentraram a atenção das delegações de alto nível presentes à reunirão ministerial do Escritório de Coordenação dos Noal. Que aconteceu na semana passada em Havana.
No encontro, a última em Cuba antes da passagem da presidência do Noal ao Egito em julho, os ministros expressaram “com preocupação” que as nações desse grupo e “outros países em desenvolvimento” são os mais “gravemente” afetados pela recessão. A crise começou “nos países industrializados como consequência dos descalabros estruturais e das deficiências do sistema econômico internacional”, disseram os representantes ministeriais, a maioria chanceleres, em uma declaração sobre o assunto.
As medidas que forem adotadas para resolvera a situação não devem “se voltar à preservação das graves deficiências da arquitetura econômica internacional atual, que demonstrou ser injusta, desigual e não-efetiva”, mas a “realizar as reformas estruturais” necessárias, diz o texto. Em suas deliberações, os ministros também alertaram que a recessão atrapalha seriamente o acesso aos recursos financeiros e o êxito na consecução dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.
Os oito objetivos, aprovados pela Organização das Nações Unidas em 2000, incluem redução pela metade (em relação a 1990) a proporção de pessoas na indigência e que sofrem fome, conseguir educação primária universal, promover a igualdade de genro e reduzir a mortalidade em dois terços e a materna em três quartos. Estas metas, a serem cumpridas até 2015 também incluem combater a propagação da Aids, da malária e de outras doenças, garantir a sustentabilidade ambiental e criar uma sociedade global para o desenvolvimento entre o Norte e o Sul.
Para a reunião de Havana foi convidado o presidente da Assembléia Geral da ONU, Miguel D’Escoto, que defendeu a participação “no mais alto nível” na conferência sobre a crise econômica global e seu impacto sobre o desenvolvimento, que as Nações Unidas farão nos dias 1, 2 e 3 de junho. “Quanto mais chefes de Estado e de governo que participarem, mais se garantirá que nossas sugestões sejam acolhidas e implementadas”, disse d’Escoto. Também destacou que, pela primeira vez na história, todos os países do mundo terão a chance de participar ativamente da criação da nova arquitetura financeira, econômica, monetária e comercial do mundo. “Antes, sempre nos marginalizavam, tomara que agora não nos auto-marginalizemos”, acrescentou.
Segundo o texto da declaração final, os ministros e os altos funcionários consideraram que a situação econômica global está agravando a crise alimentar e representa um obstáculo para conseguir os objetivos de reduzir pela metade o número de desnutridos até 2015. É preciso criar mecanismos mundiais que sirvam como um sistema de alerta para evitar a recorrência de uma carestia de alimentos e fortalecer e revitalizar o setor da pequena e média agricultura nos países em desenvolvimento, incluída a assistência técnica, acesso à tecnologia e sua transferência. Os delegados também aprovaram uma declaração de solidariedade ao México, que enfrenta a gripe suína, e pediram à Organização Mundial da Saúde e aos órgãos financeiros internacionais apoio logístico e financeiro para esse país, em seus esforços contra a epidemia, e assistência a outras nações afetadas para evitar mais focos da doença. Também, exortaram a OMS, em coordenação com as autoridades mexicanas, a garantirem um acompanhamento sistemático e apropriado para conter a posterior propagação da epidemia.
Cuba, que preside o Noal, conseguiu novamente apoio do grupo à sua demanda contra o bloqueio norte-americano e a devolução do território de Guantânamo, onde os Estados Unidos mantêm uma base naval. Em entrevista coletiva, o chanceler, Bruno Rodríguez, afirmou que o Noal se revitalizou e fortaleceu. “Neste período conseguimos preservas os interesses estratégicos do movimento”, que mostrou crescente capacidade de convocação. Cuba é o único país latino-americano que figura entre os 25 fundadores do Noal, formado em 1961 em uma reunião em Belgrado, capital da então Iugoslávia, da qual participou poucos meses depois de ter se proclamado um país de regime socialista. IPS/Envolverde

