SAÚDE: Vozes de alarme e moderação

Genebra, 21/05/2009 – A diretora da Organização Mundial da Saúde, Margareth Chang, transmitiu uma mensagem de viva preocupação a respeito do perigo da epidemia de gripe, apesar de os ministros da Saúde de alguns países aconselharem evitar excessos na declaração de uma potencial pandemia. O vírus da gripe A/H1N1 “pode ter nos dado um período de carência, sem que saibamos o quanto pode durar”, disse Chang a ministros e representantes dos 193 Estados-membros da OMS, ao declarar aberta a sessão anual da Assembléia Mundial da Saúde.

O tom da fala de Chang contrastou com as atitudes dos ministros do Brasil, Japão e da Grã-Bretanha, que pediram que seja mantido o atual nível de alerta 5, sem passar para a última fase, a 6, de maior gravidade, que implica o reconhecimento de que o mundo inteiro está sujeito a uma pandemia do vírus da gripe suína. José Angel Córdova Villalobos, ministro da saúde do México, país onde surgiram os primeiros casos da epidemia em meados de abril, disse aos jornalistas que aderiu ao pedido dessas nações. O critério estabelecido pela OMS para mudar de fase nessa escala de alarme é considerar a rapidez com que a doença se espalha.

A fase 6 será decretada caso o contágio sustentado dentro de uma comunidade seja verificado em pelo menos duas regiões administrativas da OMS. Até o momento, esse tipo de transmissão em uma comunidade aconteceu somente na América do Norte. Outros casos suspeitos desse tipo de contágio foram descartados primeiro na Grã-Bretanha e depois no Japão. “Seguirei cuidadosamente suas instruções, especialmente as referentes ao critério para passar à fase 6, e cumprirei meus deveres e minhas responsabilidades com os Estados-membros”, aceitou Chang.

Entretanto, a diretora da OMS não se furtou de ressaltar o perigo potencial que se avizinha com o vírus da gripe “notoriamente imprevisível”. Sobre a atual situação “ninguém pode dizer se é a calma que precede a tempestade”, afirmou. Chang expressou preocupação pela possibilidade de uma mescla do atual vírus da gripe suína com o vírus da gripe aviária, que já se estendeu entre humanos em países da África e Ásia, causando centenas de mortes a partir de 2003. A advertência mais severas de Chang foram dirigidas aos países em desenvolvimento, “com muito maior concentração de pessoas de alto risco em relação às infecções graves e fatais de A/H1N1”, afirmou.

Sem desconhecer os riscos que apresenta a epidemia da gripe suína, representantes de organizações governamentais disseram que uma ameaça ainda mais grave procede da atual crise financeira internacional. Amid Senupta, analista de assuntos de saúde da Índia, disse à IPS que a sociedade civil não minimiza a importância de uma resposta mundial coordenada à gripe se verdadeiramente se espalhar. O que dizemos é que a crise financeira mundial “é uma ameaça muito maior”, ressaltou.

“Podemos estar totalmente errados, mas as provas que temos hoje em termos de possibilidade de expansão dessa possível pandemia e as provas de que dispomos da crise financeira ocorrida e que está aumentando, sugerem que a resposta a esta última deve, pelo menos, igualar, se não superar, a reação diante da gripe suína”, disse Sengupta. “Lamentavelmente, não vemos reação da mesma maneira. Além disso, ao contrário da gripe suína e de outras gripes, que podem ser enfrentadas em dois ou três anos, a última grande crise financeira internacional apenas se deteve com a Segunda Guerra Mundial”, recordou.

No primeiro dia de sessões, a assembléia ouviu um pedido do México para iniciar discussões sobre a criação de um fundo econômico contingente, financiado por organizações multilaterais como Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional. Esses recursos seriam destinados a compensar os países que notificarem pontualmente e de maneira responsável acontecimentos de importância internacional sobre saúde pública, disse o secretário mexicano. Dessa forma, se estimularia a transparência e a cooperação internacional em matéria de saúde pública. O México, que já reconheceu 3.646 casos da gripe suína, com 70 mortes, estima inicialmente que a enfermidade causou cerca de US$ 2 bilhões de prejuízo.

Uma das primeiras disposições adotadas pela OMS foi reduzir suas sessões a apenas cinco dias, terminando na próxima sexta-feira. Essa redução obedece a “uma boa razão”, disse Chang, se referindo à necessidade da presença de ministros e altos representantes em seus países. Mas, Sengupta disse à IPS que essa resolução é outra demonstração de alarmismo. As autoridades da OMS são criticadas por supostamente exagerarem os riscos da epidemia. IPS/Envolverde

Gustavo Capdevila

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