CIDADE DO CABO, 30/06/2009 – “A minha preocupação é que os meus filhos vão ser escravos porque não têm nada. Estes estrangeiros vêm para a África do Sul sem nada, mas amanhã têm dinheiro, no terceiro dia já são donos de uma loja e no quarto dia têm um carro. Onde é que estes estrangeiros arranjam dinheiro?”. Os donos de pequenos negócios exprimem a sua frustração contra os ‘cidadãos estrangeiros’ – entre eles muitos somalis – proprietários de lojas nos bairros de lata do país, o que levou diversos especialistas a avisar que a violência xenófoba podia aumentar. Homens de negócios de quatro comunidades pobres da Cidade do Cabo – Delft, Masiphumelele, Samora Machel e Gugulethu – realizaram diversas reuniões no final de Maio e princípios de Junho para discutirem formas de fazer desaparecer as lojas pertencentes a estrangeiros nas suas comunidades. Os encontros são similares aos que tiveram lugar há um ano nos bairros de lata de Atteridgville e Alexandra, em Gauteng, pouco antes de mais de 150.000 estrangeiros terem sido obrigados a abandonar as suas casas e negócios, durante uma onda de violência xenófoba que varreu o país, causando a morte de 62 pessoas e o espancamento e violação de milhares de pessoas. No dia 14 de Junho deste ano, um homem não identificado entregou cartas a todas as lojas pertencentes a cidadãos somalis em Gugulethu, avisando que os comerciantes tinham até ao dia 20 de Junho para abandonarem a zona. As cartas, escritas à mão e fotocopiadas, alegadamente eram provenientes do Fórum Empresarial de Gugulethu. Apesar de alguns dos membros desta organização se terem distanciado desta mensagem, outros acusaram os donos das lojas somalis de terem a intenção de ‘ eliminar’ as lojas locais. “Os somalis querem oferecer os produtos mais baratos da área. Se virem que eu baixo os preços dos produtos conforme fazem, vão procurar outra maneira de os venderem ainda mais baixo”, afirmou a dona de uma loja, que não quis dar o seu nome durante a entrevista “Isto vai traduzir-se numa série de problemas muito sérios na minha zona. Se eu tivesse dinheiro, já tinha saído desta zona, porque não há paz. Aqueles rapazes da Somália vieram para aqui e criaram mais problemas”, afirmou outro comerciante, que se identificou como ‘Boyce’.
Acrescente-se os planos para remover os ‘donos de lojas somalis’ ao número constante de ataques e assassinatos dirigidos contra ‘cidadãos estrangeiros’, e a mistura pode tornar-se letal, diz Loren Landau, directora da Unidade de Estudos de Migrações Forçadas da Universidade de Witwatersrand.
“A violência contra os estrangeiros está rapidamente a fazer parte da política habitual de alguns bairros de lata”, disse Landau.
Em Maio de 2008, mais de 150.000 cidadãos estrangeiros foram expulsos por uma onda de violência xenófoba que varreu o país, com milhares de pessoas a seram violadas ou mortas.
Mas desde que a onda de xenofobia ‘oficialmente reconhecida’ terminou em Junho do ano passado, a polícia deixou de registar as estatísticas oficiais de assassinatos causados pela xenofobia, afirmando que as mortes de cidadãos estrangeiros são resultado da taxa de crimes, em geral muito elevada, na África do Sul.
Tal atitude terá provocado mais xenofobia, de acordo com a Associação Somali da África do Sul.
“A cultura de impunidade está a aumentar. Quando os comerciantes somalis são assassinados, a polícia nada faz. Existe a percepção de que, se os somalis forem mortos ou atacados, nada irá acontecer”, disse o Coordenador da Associação Somali da África do Sul no Cabo Ocidental, Hussein Omar.
Os receios de Omar parecem ser confirmados pelos recentes acontecimentos – nas últimas duas semanas, dois jovens somalis que trabalhavam como empregados numa loja foram queimados até à morte, um cidadão do Zimbabué e outro do Bangladesh foram assassinados, três empregados de uma loja foram feridos a tiro em Delft e uma outra ‘loja somali’ foi queimada no subúrbio de Khayelitsha, na Cidade do Cabo.
Omar está a investigar o assassinato dos somalis que eram empregados de loja, Omar Josef e Hazim Amad, que morreram quando a sua loja – onde dormiam – foi incendiada às duas da manhã.
A polícia local disse à IPS que já tinha eliminado a xenofobia como causa do incidente, apesar da investigação ainda estar em curso. Os residentes somalis na comunidade dizem que a loja foi regada com gasolina antes de ser incendiada, mas o investigador responsável pelo caso, o detective Eldoret van der Merwe, disse apenas que “nesta altura não podemos dizer como o fogo começou”.
Em Gugulethu, um grupo de activistas local – a Campanha Contra a Expulsão de Gugulethu – tentou durante três semanas convencer o Fórum Empresarial de Gugulethu a não dirigir a sua raiva contra os donos de lojas somalis e, em vez disso, perguntar ao governo porque é que não faz mais para apoiar os pequenos negócios.
Mncedisi Twalo, da Campanha Contra a Expulsão de Gugulethu, afirmou que, depois dos homens de negócios terem entregue as cartas com ameaças às ‘lojas somalis’, fora obrigado a pedir à polícia uma garantia de protecção dos donos de lojas somalis.
Desde essa altura, a polícia organizou encontros entre os homens de negócios locais e os donos de lojas somalis. Os meios de informação não foram autorizados a participar nestes encontros.
Omar tem receio que as acções de pequenos grupos de homens de negócios locais possam tornar-se um catalisador para que outras pessoas descarreguem as suas frustrações sobre os ‘cidadãos estrangeiros’.
Landau afirma que, uma vez que as pessoas já aceitaram que é legítimo conspirar contra homens de negócios “estrangeiros”, a “violência só vai aumentar”.
Medo e aversão no Cabo Ocidental Os cidadãos estrangeiros que são proprietários de lojas não são os únicos a correrem perigo. John Kwigwasa chegou à África do Sul há oito anos, depois de ter deixado a República Democrática do Congo. Foi-lhe concedido o estatuto jurídico de refugiado e não é dono de nehuma loja, mas afirma que já foi atacado sete vezes desde 2002 – durante o ataque mais recente, em Gugulethu, no fim de Maio, foi ferido com um tiro na anca. Desde Maio, Kwigwasa tem vivido no campo de pessoas deslocadas de Blue Waters, que as autoridades da Cidade do Cabo querem encerrar. Uma vez que sabe que o campo não vai ficar aberto durante muito mais tempo, Kwigwasa tem estado à procura de habitação alternativa para a sua família. Disse à IPS que “a cidade está a forçar a nossa reintegração e, por isso, decidi arranjar um emprego e procurar habitação em Gugulethu. Estava como o meu amigo, Rajab Ramazani, quando um grupo de homens locais nos disse “porque é que vocês não vão para o vosso país, vocês estão a roubar os nossos empregos e a conduzir bons carros”. Depois um deles deu-me um tiro na anca. “Levaram o Rajab no carro e mantiveram-no fechado no porta-bagagens toda a noite. Levaram-no para umas vias férreas na manhã seguinte. Quando estavam a decidir se o iam matar ou não, ele conseguiu fugir e foi nessa altura que lhe deram um tiro na perna”, contou Kwigwasa. Kwigwasa e Rajab estão a recuperar dos seus ferimentos da melhor forma possível no frio e chuvoso campo de Blue Waters.

