ECONOMÍA: Não basta remendar o sistema financeiro mundial

Nova York, 29/06/2009 – A comunidade internacional deve adotar ações imediatas para mudar o atual sistema financeiro mundial, e não remendá-lo, segundo a vasta maioria dos líderes do Sul em desenvolvimento que participaram na semana passada da Conferência das Nações Unidas sobre a Crise Financeira e Econômica Mundial e seu Impacto no Desenvolvimento. “A debacle financeira é apenas um sintoma da crise de um sistema que privilegiou a economia financeira especulativa sobre a economia real”, disse o presidente do Equador, Rafael Correa, a delegados reunidos no prédio da Assembléia Geral da ONU. Em um discurso duro – como os de vários outros líderes do Sul em Desenvolvimento – Correa responsabilizou o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, bem como os países ricos do Norte, pela atual crise e seu impacto devastador nas nações pobres.

“Remendar o sistema de Bretton Woods, que não controlamos, não tem sentido para os países do Sul”, afirmou Correa. “Esta é nossa oportunidade para consolidar nossa presença e desenvolver maior poder de deliberação e decisão em primeiro nível internacional e assim, finalmente, nos convertermos em donos de nosso destino”, acrescento. O mandatário afirmou que os países do Sul têm que desenvolver “sua própria arquitetura financeira” e que deveriam tentar criar “uma entidade coordenadora de proporções planetárias, tendo por base critério de representação e responsabilidade”. Correa afirmou que o atual sistema financeiro mundial está “transtornado pela especulação e pelos privilégios”, e responsabilizou a indústria financeira norte-americana pelo sofrimento de milhões de pobres. “Esta crise teve origem nos mercados financeiros dos Estados Unidos. O Sul, que não teve responsabilidade alguma, converteu-se na principal vítima”, afirmou.

Entre os participantes da conferência havia dois chefes de Estado, quatro vice-presidentes, 10 chefes de governo, três vice-primeiros-ministros e 32 ministros. A esmagadora maioria destes pertencente ao Sul em desenvolvimento. Mas, nem o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, nem o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, participaram da reunião. Também estiveram ausentes praticamente todos os líderes das mais importantes nações ocidentais, incluindo Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Alemanha.

A ministra das Relações Internacionais e Cooperação Sul-africana, Maite Nkoana-Mashabane, concordou com Correa. “Necessitamos de reformas fundamentais e de longo alcance nas instituições de Bretton Woods, erguendo a voz e aumentando a participação na tomada de decisões por parte dos países em desenvolvimento”, afirmou. Segundo Mashabane, é provável que cerca de 90 milhões de pessoas percam seus empregos devido à crise. O crescente desemprego e a queda dos salários e das remessas enviadas por imigrantes – prosseguiu a ministra – levarão “milhões de pessoas novamente à pobreza em 2009”. A crise “mostrou que as atuais estruturas e instrumentos das instituições financeiras são frágeis e em grande parte inadequados para tratar do impacto da crise nos países industrializados e nas nações em desenvolvimento”, afirmou.

Segundo investigadores da Organização das Nações Unidas, aproximadamente um bilhão de pessoas no mundo sofrerão fome devido à atual crise. Também se prevê mais violência e conflitos em muitos países devido ao desemprego e à pobreza. Na conferência da ONU, nenhuma nação industrializada mostrou disposição para apoiar a demanda do Sul em desenvolvimento para reformar os organismos internacionais de credito.

Em seu discurso, a embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Susan Rice, assegurou que seu país “participaria desta importante conversação para ouvir, intercambiar e trabalhar” com as demais nações em um “espírito de cooperação”. Entretanto, não deu sinal de apoio às propostas para reformar o FMI e o Banco Mundial. Além isso, mesmo se mostrando preocupados com a atual crise financeira, representantes da União Européia se mostraram indiferentes às demandas apresentadas pelo Sul. IPS/Envolverde

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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