LUSAKA, 15/06/2009 – A necessidade desesperada de se encontrar um investidor alternativo para a Mina de Cobre de Luanshya (LCM) na região do Copperbelt, na Zâmbia, não impediu alguns zambianos de se oporem ferozmente à decisão governamental de atribuir a gestão desta mina à Companhia de Mineração de Metais Não Ferrosos (NFCA) chinesa. A decisão de aceitar a NFCA é controversa, visto que 49 mineiros morreram num acidente na mina de Chambishi, que tinha sido entrege à companhia em 2003. Cinco mineiros forom mortos a tiro pela polícia durante protestos violentos contra as condições de trabalho na mesma mina em 2007.
A LCM, uma ‘joint-venture’ entre a companhia Recursos Minerais Internationais, sediada na Suíça, e o Grupo de Recursos Bein Stein de Israel, encerrou a 22 de Janeiro deste ano, tendo deixado 1.700 mineiros desempregados. A mina alegadamente não conseguiu fazer frente à queda drástica do preço do cobre na Bolsa de Metais de Londres, que baixou de 8.000 para 3.000 doláres por tonelada métrica.
Depois da mina ter encerrado, as mulheres dos mineiros pediram ao Presidente Rupiah Banda que encontrasse um comprador ou que o governo explorasse a mina. O governo é detentor de 15% das acções da mina.
Banda anunciou que a NFCA, que é proprietária da mina de Chambishi, na região do Copperbelt, tinha sido escolhida em detrimento da companhia mineira e de metais Recursos Vendata, cotada em Londres, responsável pela maior mina de cobre no país, a Mina de Cobre de Konkola(KCM), e também pela companhia Recursos Minerais de Luanshya.
O Presidente explicou que a NFCA tinha prometido criar uma nova mina na LCM chamada Muliashi, que iria produzir 30.000 toneladas métricas de cátodos de cobre, além de gerir o hospital das minas, uma escola no local, uma escola de produtos artesanais e infraestruturas de desporto e diversão. No total, a NFCA prometeu investir 400 milhões de doláres para gerir a mina.
“Quero assegurar-vos que este investidor conhece e entende a actividade mineira. Este investidor não está na Zâmbia só para fazer dinheiro rápidamente e sair na primeira altura em que haja problemas”, declarou Banda.
Wilbur Simuusa, presidente do sector mineiro do principal partido de oposição, a Frente Patriótica (FP), respondeu a estas afirmações dizendo que os investidores chineses têm um mau historial com respeito a responsabilidade social e a segurança nas minas e perguntando como é que os chineses iriam manter as infraestruturas de Luanshya quando não o conseguiram fazer em Chambishi.
A Zâmbia tem assistido a um sentimento de revolta contra a influência chinesa na economia local, provocada por acidentes laborais, pela preocupação sobre as más condições de trabalho e os baixos salários nas minas de cobre geridas pelos chineses, e pelo ressentimento contra a invasão de comerciantes chineses na indústria do vestuário.
Em 2006, morreram mineiros zambianos num acidente na fábrica de explosivos do Instituto Geral de Pesquisa de Mineraçãos e Metalurgia de Beijing, uma ‘joint venture’ entre a China e a Companhia de Mineração Africana (NFC) no valor de muitos milhões de doláres. O acidente, causado por uma grande explosão na fábrica, matou todos os trabalhadores que se encontravam na instalação.
O envolvimento chinês na Zâmbia remonta ao anos 70, quando a China construiu uma via férrea ligando a região central da Zâmbia a Dar es Salaam, cidade portuária mais próxima, na Tanzânia.
Nestes últimos tempos, tem havido uma resposta hostil contra a presença chinesa na indústria mineira da Zâmbia. A FP prefere ter laços mais próximos com Taiwan, tendo tornado essa preferência clara durante a campanha para as eleições em 2006, altura em que obteve a maioria dos votos na província do Copperbelt, esteio da economia do país.
Contudo, o Ministro do Trabalho e Segurança Social, Austin Liato, não vê nada de errado com o investimento chinês. Perguntou porque é que a Zâmbia, que espera tornar-se um país de rendimento médio em 2030, não deve aceitar investimento chinês quando as economias desenvolvidas estão a fazê-lo.
“Estes investimentos devem ser aceites. Os zambianos não devem ser ludibriados por pessoas com outros motivos”, defendeu Liato.
Mas Chishimba Kambwili, deputado de Luanshya que tem liderado uma firme oposição à exploração da mina pelos chineses, defendeu que a venda da mina à NFCA significaria o fim de Luanshya.
“A questão não é estarmos contra os chineses. Só estamos a proteger o bem estar do povo, que tem sofrido visto por estar à mercê de investidores que apenas estão interessados em ficar ricos à custa dos trabalhadores”, afirmou.
Porém, o Presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Mufulira (MCII), Shadreck Musozya, aplaudiu a decisão de entregar a mina à NFCA, mas avisou que o governo devia evitar uma situação que não oferecesse protecção adequada a trabalhadores e a empresários.
“Queremos que isto seja para benefício mútuo dos proprietários das minas, dos trabalhadores e dos empresários”, observou.
O Presidente da Associação de Empreiteiros e Fornecedores das Minas, Fanuel Banda, está preocupado com o facto da mina de Chambishi só usar 150 fornecedores locais, de um total de 5.000 fornecedores registados, ao contrário da KCM, que usa 5.000 fornecedores, e da Mina de Cobre de Mopani (MCM), outra firma de exploração mineira na região do Copperbelt, que usa 3.000 fornecedores.
Mas o Ministro das Minas, Maxwell Mwale, afirma que a NFCA é uma companhia sólida com uma longa história no sector da mineração.
“A NFCA obteve a melhor classificação durante a avaliação das ofertas. Está neste país a gerir uma mina mas nunca ouvimos nada negativo sobre ela desde que a crise económica começou. Continuou as operações em Chambishi, uma mina que esteve encerrada durante 13 anos, onde está a fazer poços sub-verticais e de acesso”, informou os zambianos.
Um antigo mineiro, Makasa Chisapa, diz que não se importa de onde é que os investidores vêm desde que lhe paguem um salário adequado para sustentar a família.
“Tenho três filhos na escola mas não tenho emprego. Os benefícios que recebi depois da mina ter encerrado foram usados para pagar um empréstimo ao banco. Por isso, quero que a mina abra o mais depressa possível para não ter mais problemas financeiros”, disse à IPS.
O cobre representa 80 por cento das receitas externas zambianas e, desde 2003, tem sido o principal impulsionador do crescimento económico anual de cinco por cento.
No pico de produção nos anos 80, a Zâmbia, o maior produtor africano de cobre, produzia 750.000 toneladas métricas anuais de cobre processado. Esta produção desceu para 200.000 toneladas métricas nos anos 90.
A produção actual é de 600.000 toneladas métricas e uma projecção governamental de um milhão de toneladas métricas em 2010 é vista como pouco provável devido à crise económica mundial. A procura de matérias-primas caiu e o preço internacional do cobre desceu, conduzindo à redução da força laboral, à suspensão dos projectos de expansão e ao encerramento das operações mineiras.

