LÍBANO: Cristãos divididos

Beirute, 29/06/2009 – Os partidos da minoria crista negociam sua integração no governo do Líbano, apesar de estarem divididos entre duas coalizões radicalmente opostas, uma pró-ocidental e outra pró-Síria. A Aliança 14 de Março obteve a maioria parlamentar nas eleições do dia 7 e conta com apoio do Ocidente. A Coalizão é formada pelo sunita Movimento Futuro, o druso Partido Socialista Progressista e os cristãos Partido Kataeb e as Forças Libanesas (FL). Em minoria ficou o Movimento 8 de Março, pró-sírio e pró-iraniano, dominado pelos partidos xiitas Hezbola e amal, aliados com o grupo cristão Mudança e Reforma.

Apesar de integrar a coalizão minoritária, o líder da Mudança e Reforma, general Michel Aoun, “reclama participação proporcional no próximo governo”, disse o legislador desse setor Ghassan Mukhaiber. É que se trata do maior bloco parlamentar cristão, com 18 das 128 cadeiras da Assembléia de Representantes. A comunidade cristã, que constitui um terço dos 4,6 milhões de habitantes, é determinante na formação do parlamento e, portanto, do governo.

Antes da guerra civil de 1975 a 1990, membros dessa comunidade religiosa governavam o país. Inclusive, a Constituição dispunha que o presidente devia pertencer à ala cristã-maronita. Em 1989, os cristãos se dividiram e se enfrentaram em uma brutal batalha liderada por partidários de Samir Geagea, das Fl, por um lado, e efetivos sob comando do general Aoun, então comandante das Forças Armadas, por outro. O Acordo de Taef, mediado pela Arábia Saudita em 1989, acabou com o conflito e transferiu grande parte do poder do presidente maronita ao conselho de ministros, encabeçado por um primeiro-ministro muçulmano sunita.

Após a retirada de soldados sírios em 2005, o cristão partido Kataeb e as Forças Libanesas se alinharam com a Aliança 14 de Março, dominada pelo sunita Movimento Futuro, enquanto Mudança e Reforma uniu-se ao pró-iraniano e pró-sírio Movimento 8 de março, encabeçado pelo xiita Hezbola (Partido de Deus. “Os cristãos estiveram claramente divididos nas últimas eleições, como demonstra a ajustada votação de vários candidatos em diferentes regiões”, disse o especialista político Hilal Jahsan, da Universidade Americana de Beirute.

Nas eleições legislativas de 2005 os candidatos hoje reunidos na Mudança e Reforma somaram 70% dos votos em distritos maronitas. Mas esse anos os vencedores nessas comunidades foram os candidatos da 14 de março. No distrito de Ashrafieh, por exemplo, conquistaram 54,77% dos votos. Também ganharam duas cadeiras na região de Batroyun, duas em Becharreh, sete em Zahleh e duas nos oito de Mtn. “O pluralismo enfraqueceu o campo cristão, pois no contexto político do país seu poder se fundiu com os grupos dominantes xiita e sunita”, explicou Jashan.

Cristãos dos dois lados do espectro político trabalham para melhorar o sistema, mas discordam sobre como conseguir isso. “Tentamos desempenhar um papel dominante para cumprir nosso programa, baseado na proteção da integridade e da soberania dopais e na reconstrução de suas instituições”, disse o legislador Moukheiber, da Mudança e Reforma. “Não só pretendemos defender os direitos dos cristãos. Também queremos promover a descentralização, a independência do Poder Judiciário e mais eficácia para o parlamento e o conselho de ministros”, acrescentou.

Salah Honein, da Aliança, considera que os líderes da comunidade cristã continuarão promovendo a democracia, a abertura e as liberdades de expressão. Mudança e Reforma defende a formação de um governo de unidade, em que a oposição tenha um terço dos assentos no parlamento e poder de veto. Essa modalidade já havia sido adotada para acabar com o conflito de maio de 2008. mas Honein afirma que “em toda democracia parlamentar a maioria governa e a minoria é oposição”.

Moukhaiber lembrou que os cristãos têm um virtual poder de veto após o acordo de Taif para compensar a queda do poder presidencial. Enquanto grupo mais representativo da comunidade cristã, Mudança e Reforma deve se beneficiar do poder de veto, afirmou. A designação, uma vez mais, do veterano líder do Partido Amal, Naby Berry, como presidente da Assembléia de Representantes é um sinal de certo consenso entre a maioria e a oposição. IPS/Envolverde

Mona Alami

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *