AIDS: Ricas promessas não cumpridas dificultam o combate

Cidade do Cabo, 21/07/2009 – Especialistas em saúde e cientistas acusam os países mais ricos de abandonarem o objetivo do acesso universal à prevenção, aos cuidados e ao tratamento para o vírus da deficiência imunológica adquirida (HIV), causador da Aids. “Devemosresponsabilizar os líderes do Grupo dos Oito (países mais poderosos) por não cumprirem suas promessas’, disse Julio Montaner, presidente da Sociedade Internacional da Aids, ao inaugurar a quinta Conferência sobre Patogenias, Diagnósticos e Tratamento, que começou domingo e terminará amanhã, na Cidade do Cabo.

Os cinco mil participantes desta reunião bianual, entre os quais figuram líderes comunitários, analisam como os avanços científicos podem dar forma à resposta mundial contra o HIV e a Aids (síndrome da deficiência imunológica adquirida). O sexto dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, aprovados em 2000 pelos governos na Organização das Nações Unidas, diz, propõe, entre outras coisas, “conseguir, até 2010, acesso universal ao tratamento do HIV/Aids de todas as pessoas que dele necessitam”. Mas, Montaner, que também é diretor do Centro da Colúmbia Britânica para a Excelência em HIV/Aids, criticou os países industrializados e mais poderosos por não cumprirem esse compromisso.

Um informe apresentado no último dia 13 pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Onusida) e pela Fundação da Família Kaiser, dedicada a questões de saúde, mostra que no ano passado se gastou mais dinheiro na luta contra esse flagelo nos países de rendas média e baixa como nunca se fez antes. Segundo esse documento, intitulado “Financiamento da resposta àAids em países de rendas baixa e média: Assistência internacional do G-8 à Comissão Européia e a outros governos doadores em 2002”, dos US$ 8,7 bilhões comprometidos, foram efetivamente desembolsados US$ 7,7 bilhões.

Mas esta quantia constituiu apenas metade do que a Onusida considera necessário. Prevê-se que a crise econômica mundial afetará gravemente o financiamento destinado à saúde. O informe do Banco Mundial “Como evitar a crise humana durante a contração da economia mundial: Opções propostas pela Rede de Desenvolvimento Humano do Banco Mundial” previu escassez de remédios e interrupções nos tratamentos. Segundo o estudo, África oriental e austral serão as regiões que provavelmente mais sofrerão. É nas duas que a epidemia de HIV está em seu pior momento e onde os programas para combatê-lo são os que mais dependem de doadores.

“É provável que os serviços sociais sofram na medida que os governos forem reduzindo o gasto, as divisas se desvalorizando e os doadores de assistência externa ficarem sob pressão para manter os níveis existentes de ajuda estrangeira”, diz no informe Joy Phumaphi, vice-presidente de desenvolvimento humano do Banco Mundial. “A recessão tem impacto igual ao de uma bola de demolição nos êxitos de crescimento e desenvolvimento dos países mais pobres”, afirmou.

Segundo Montaner, na cúpula do G-8, que acontece este mês na cidade italiana de L’Aquila, se passou ao largo da questão do HIV/Aids. Este grupo é integrado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia. “Em 2009, as oito economias mais poderosas do mundo não incluíram o HIV em sua agenda de prioridades. Partiram sem chegarem a um informe de avanços a respeito do HIV, e nem mesmo renovaram seucompromisso anterior em relação ao objetivo referente ao acesso universal a prevenção, cuidados e tratamento para o HIV até 2010. isto é totalmente inaceitável”, disse Montaner.

A secretária-geral da Campanha de Ação pelo Tratamento, Vuyisaka Dubula, também desafiou os líderes do G-8 e os governos africanos a cumprirem seus compromissos. “Precisamos assumir uma responsabilidade mundial agora com a saúde e o acesso universal. Os países do G-8 comprometeram apoio financeiro para conseguir o acesso universal até 2010. Já descumpriram suas promessas e os Estados africanos não estão alcançando seus objetivos”, afirmou. “Sabemos que o mundo inteiro enfrenta desafios econômicos e queremos lembrar aos líderes mundiais que a saúde não está em recessão, portanto, a recuperação econômica deve incluir a recuperação da saúde”, acrescentou. IPS/Envolverde

Ntandoyenkosi Ncube

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