Caracas, 28/07/2009 – A América Latina e o Caribe devem voltar sua atenção para as economias da China, Índia e Rússia para diversificar suas exportações e direcionar seus esforços para diminuir o desemprego e a pobreza, afirma um exame do Sistema Econômico Latino-americano e do Caribe, com sede em Caracas. A região “concentra seu comércio nos Estados Unidos e na União Européia, havendo possibilidades de ter maior e melhor comércio com outros países de peso significativo na economia mundial”, disse o secretário permanente do Sela, o mexicano José Rivera, na sessão que examinou os laços com a China.
Essa conveniência “ficou evidente com o impacto da atual crise econômica global, que levou a uma forte recessão das economias norte-americanas e europeia, enquanto na China, apesar de uma redução em seu ritmo de crescimento, este se manteve em um nível próximo dos 6,5% ao ano”, acrescentou o Rivera. A América Latina e o Caribe concentram não apenas os mercados de destino de suas exportações como também para países como China, Índia e Rússia exportam principalmente matérias-primas e manufaturas de baixo valor agregado. “A concentração setorial de exportações está negativamente associada ao crescimento econômico e à criação de emprego”, destacou o secretário do Sela.
Uma baixa diversificação na exportação “implica uma alta vulnerabilidade a choques setoriais específicos, a uma alta volatilidade da entrada de divisas e limita o crescimento da produtividade, pois não favorece a eficiência no uso de insumos nem o aprendizado através da atividade exportadora”, continuou Rivera. A necessidade de um comércio diversificado em mercados de destino e com produtos de maior valor agregado possível se faz sentir ainda mais “em um ano como este em que a região terá crescimento negativo de 2%, com impacto no conjunto da economia e nos esforços para reduzir o desemprego e a pobreza”, ressaltou.
Em todos os casos (Rússia, China e Índia), o Sela, que reúne 27 Estados da região para acordos e cooperação econômicos, se propõe como fórum para aprofundar os estudos, avaliar as perspectivas do intercâmbio com freqüência bienal e incentivar contatos entre governos e empresas de maneira sustentada.
Índia com sede de petróleo
Segundo país mais povoado e 12ª maior economia do mundo, a Índia cresceu entre 2004 e 2008 a uma taxa interanual de 8,5%, e as projeções do estudo considerado nas reuniões do Sela indicam que em 2009 crescerá 4,5%. As relações econômicas com a América Latina e o Caribe são incipientes. A região recebeu em 2004 2,4% das exportações indianas e forneceu apenas 1,8% de suas exportações, avançando até 3,2% e 2,1% em 2008. o intercâmbio comercial, que foi de US$ 9 bilhões em 2008, se concentra em seis países: Brasil, México, Colômbia, Argentina, Chile e Peru, e em produtos primários e manufaturas baseadas em recursos naturais.
Mas o Sela chama a atenção para a Índia, receptora de US$ 40 bilhões anuais em investimento estrangeiro, que investe no exterior US$ 20 bilhões e busca abrir campo na região em setores de uso intensivo de capital. “As perspectivas para o desenvolvimento futuro das relações entre esse país e a América Latina e o Caribe são extremamente boas, já que são economicamente complementares”, disse aos jornalistas o embaixador indiano na Venezuela, Yashvardhan Kumar Sinha.
A Índia “está extremamente interessada no petróleo que é abundante em países como Brasil, Venezuela e, em troca, oferece cooperação em setores como farmacêutico, de engenharia e agricultura para itens como leite, arroz e chá”, disse Sinha. Companhias energéticas indianas assinaram acordos para procurar petróleo em águas cubanas no Golfo do México e brasileiras no oceano Atlântico; na venezuelana Faixa do Orenoco, no Peru e na Colômbia. Também há investimentos indianos para produzir ferro no Brasil, na Bolívia e na Colômbia; aço na Argentina e em Trinidad e Tobago, e magnetita no Chile. Em vários países há presença indiana para vender automóveis e tratores.
Russa com carnes e armas
O comércio entre Rússia e América Latina “quase triplicou entre 2004 e 2008,ao passar de US$ 5,8 bilhões para US$ 16 bilhões, e suas economias podem se beneficiar da complementariedade: a Rússia pode fornecer produtos industriais e necessita dos agropecuários”, destacou o conselheiro econômico russo em Caracas, Yuri Lezgintsev. Na América Latina e no Caribe são usados mais de 900 aviões se helicópteros russos, na Argentina, mais de um terço da energia elétrica é produzido com equipamentos russos, no Brasil funcionam mais de 20 mil máquinas russas, na Colômbia, no Equador e no Uruguai são montados veículos da marca Lada, e foguetes russos lança satélites da região.
Entretanto, no comércio recente predominam os produtos com escasso valor agregado, e as perspectivas de maiores investimentos e intercâmbio demorarão pelo menos três anos, segundo o Sela, devido aos golpes financeiros encaixados pelas grandes empresas russas decorrentes da crise global. Os maiores sócios comerciais de Moscou na região são Brasil, Argentina, México, Venezuela e Equador. A Rússia é o primeiro fornecedor de fertilizantes do Brasil, e, por sua vez, compra carne bovina, de porco e aves, açúcar, tabaco e café brasileiros. A Argentina também compra fertilizantes e derivados de petróleo da Rússia, e lhe vende carne, forragem, vinho, lácteos, amendoim e desde 2003 tem na Rússia o maior mercado para suas frutas, US$ 284 milhões no ano passado, principalmente com peras, maçãs e marmelo.
A Rússia compra do México automóveis e outros equipamentos; banana do Equador e, da Venezuela, praticamente nada (apenas US$ 400 mil em óxido de alumínio), mas, desde 2005 lhe vendeu armamento no valor superior a US$ 4,4 bilhões. Um caso particular é o de Cuba, cujas relações econômicas com Moscou ficaram destruídas com o desaparecimento da União Soviética em 1991, embora essa ilha caribenha tenha adquirido em 2005, a credito, sete aviões russos de passageiros e de carga. Em 2008, o comércio bilateral totalizou modestos US$ 265 milhões, com compras cubanas de veículos, reposição de peças ara aviões e outros equipamentos, e vendas para a Rússia de açúcar, tabaco e rum.
O Sela recomenda ao seus membros fixarem sua atenção em equipamentos e tecnologia russa para gerar eletricidade, na moderna e competitiva oferta de sistemas de armas russos para modernizar as forças armadas, e nas possibilidades de cooperação para uso pacífico da energia nuclear, pesquisa espacial e indústria pesqueira.
Apetite chinês
O estudo do Sela lembra que, segundo o Fundo Monetário Internacional, a China contribuiu com mais de um quarto do crescimento mundial econômico entre 2005 e 2009 (o dobro da contribuição norte-americana) e diz que o apetite chinês pelas matérias-primas e insumos básicos continua forte”. O comércio mundial da China quadruplicou nesta década (US$ 510 bilhões em 2001 e US$ 2,188 trilhões apenas de janeiro a outubro de 2008), mas com a América Latina e o Caribe cresceu nove vezes, passando de US$ 14,939 bilhões em 2001 para US$ 124,112 bilhões entre janeiro e outubro de 2008.
Desde 2003 a China tirou do Japão o posto de maior receptor asiático de exportações latino-americanas e tem presença crescente na região com suas manufaturas, finanças e tecnologia, tanto com países com os quais compete – por exemplo, deslocou o México do posto de segundo fornecedor de mercadorias aos Estados Unidos – ou com os quais se complementa. O Sela alerta que a região deve repensar suas estratégias de inserção internacional, em busca de complementaridade com economias complexas, como Índia e China, e não apenas se especializando como exportadora de matérias-primas.
“Há uma considerável disparidade, porque enquanto na China existem interesses e objetivos muito definidos para suas relações globais e com nossa região, nós temos baixa consideração com nossas relações com esse gigante, e o atual interessa pela China foi uma atitude principalmente de reação”, afirmou Rivera. E acrescentou que para aproveitar o crescimento da China e enfrentar esse país com competidor, a América Latina e o Caribe devem dar os primeiros passos: definir a maneira com desejam se inserir na economia global e aumentar o conhecimento de seus atores políticos, empresariais e acadêmicos sobre esse país. IPS/Envolverde

