Ibagué, Colômbia, 28/07/2009 – A população feminina dos municípios de Cajamarca e Ibagué, no andino departamento colombiano de Tolima, oscila entre a vulnerabilidade e a coragem, devido à possível exploração de uma mina de ouro, que alteraria a forma de vida de toda a região.
Tudo começou em 2006, quando a sul-africana AngloGold Ashanti (AGA) descobriu um veio de ouro a apenas cinco quilômetros de Cajamarca, com população de 25 mil habitantes que em mais de 90% vivem da agricultura e da pecuária.
A multinacional tem autorização do Ministério de Minas para explorar em 15 áreas do município e em outras 12 no resto do departamento.
Ao começarem as atividades de exploração da mina La Colosa, a tranquilidade da região foi rapidamente alterada e, passada a euforia inicial pela ilusão de oportunidades derivadas da mina, a população passou a se organizar para enfrentar uma atividade que modificaria seu ecossistema e sua forma de vida, e não para melhor.
Em Ibagué, capital do departamento, com mais de meio milhão de habitantes e nove universidades, as estudantes assumiram um papel protagonista na mobilização.
De fato, dados do Ministério da Educação indicam que as mulheres superam os homens em dois pontos percentuais nas universidades da capital de Tolima, que vive do comércio e de atividades derivadas da produção agropecuária e de sua natureza.
Em Cajamarca, onde não há centros de educação superior, também há mais mulheres universitárias do que homens. Dos 463 habitantes que em 2005 cursavam o ensino superior, 58,3% eram mulheres, segundo o censo nacional desse ano.
Mas na região a discriminação não conhece estudos, e na hora do emprego são as mulheres de Ibagué e sobretudo as de Cajamarca que têm mais dificuldades de inserção. Também a pobreza as afeta mais, explicou à IPS a estudante de economia da Universidade de Tolima Diana Ávila, que prepara sua tese sobre o assunto.
“A ocupação para muitas mulheres são os trabalhos domésticos e sem condições apropriadas”, explicou Ávila. A jornalista Maria Alexandra Herrán acrescentou que a situação sócio-econômica também faz com que em Cajamarca “meninas e jovens exerçam a prostituição, inclusive incentivadas por membros de sua própria família”.
“Cajamarca é um local permanente de passagem, de trânsito de caminhões, por exemplo, o que incide nos índices de prostituição e de altos níveis de doenças sexualmente transmissíveis”, explicou à IPS.
La Colosa, a rejeição que une
Com este contexto, o movimento contra La Colosa se consolidou quando AGA anunciou em dezembro de 2007 que as explorações confirmavam que se tratava de uma das 10 maiores jazidas de ouro do mundo.
O ativismo antimineração gerou um movimento social em torno de 28 organizações não-governamentais, quase todas criadas no último ano, algumas neste mesmo mês, e sempre com destacada participação feminina.
“Em número, estamos equilibradas com os homens, mas nós não paramos”, explicou Ávila, ativista da não-governamental Consciência Ambiental.
Seu companheiro de faculdade, Cristina Frasser, disse à IPS que “é imenso o trabalho das mulheres nesta resistência”, tanto universitárias quanto camponesas.
Também qualificou como “valorosas as ações desenvolvidas por Carmen Sofia Bonilla”, diretora da estatal Corporação Autônoma Regional de Tolima (Cortolima).
Bonilla é a heroína dos opositores à La Colosa, porque apesar das pressões se municiou de regulamentos e argumentos técnicos para primeiro reduzir o terreno onde AGA podia explorar e depois impulsionar sua paralisação.
Outra mulher de Tolima, a legisladora liberal Rossmery Martínez, convocou um debate na nacional Câmara de Representantes sobre a ilegalidade da exploração em uma reserva florestal e conseguiu adesão à causa da esquerdista senadora Gloria Inês Ramírez.
As ações de Bonilla, o debate legislativo e as posteriores audiências publicas em Ibabué e Bogotá levaram o Ministério do Meio Ambiente a suspender a atividade em La Colosa, em fevereiro de 20089, enquanto analisava se a mina poderia conviver com as normas e limitações de uso da reserva florestal e do enclave de riqueza hídrica onde se localiza.
Desde então, as universitárias, especialmente as das faculdades de engenharia florestal e economia, aumentaram sua participação no movimento contra a mina, conscientes de que a paralisação é, pelo menos agora, apenas temporária.
Os ativistas se espelham no ocorrido em Ataco, um povoado ao sul de Tolima, onde a mobilização conseguiu fechar há 27 anos outra exploração de ouro, em uma ação comandada pelas mulheres. Na época, o alvo foi uma empresa colombiana.
Os opositores de La Colosa também promoveram a incorporação à luta de mulheres de espaços e setores diretamente afetados, especialmente camponesas, com jornadas conjuntas de reflexão. A IPS assistiu uma delas. “Apoiamos o trabalho de difusão e sensibilização com chamados sobre os impactos que a exploração deixará, com escassez de água e contaminação maciça, o que afetará especialmente a saúde de crianças, idosos e gestantes”, explicou Herrán.
“Como mulheres, transmitimos mensagens a outras mulheres”, acrescentou, ao explicar que as jornadas acontecem em Ibagué, Cajamarca e municípios da planície do departamento, onde há extensos cultivos de arroz, algodão e sorgo.
Aos painéis somou-se uma campanha através da Internet, que obteve numerosos apoios. Ávila destacou uma mensagem que dizia: “Estou com vocês porque meu filho bebe água, não ouro”. Essa mensagem “causou impacto em mim porque sintetiza claramente o que aconteceria com a exploração”, disse a estudante.
As mensagens também motivam as mulheres de Cajamarca.
Aura Maria Díaz, moradora dessa localidade, reconheceu à IPS a falta de oportunidades que afeta a maioria das mulheres na região, além do seu trabalho no campo.
“Tive dúvidas sobre as vantagens da mina, mas agora começo a crer que isso acabaria com a agricultura e a tranquilidade do lugar porque já há ladrões agindo, e temos medo de sair de noite”, disse.
O número de prostitutas aumentou consideravelmente quando a multinacional iniciou os trabalhos agora suspensos, acrescentou.
Na etapa inicial foram contratados 400 operários, por isso chegaram muitos forasteiros e criou-se a ilusão de uma bonança que triplicou o preço dos arrendamentos e da venda de casas e fazendas.
Também houve a contratação de algumas mulheres. “Não foram muitas, porque o trabalho mineiro é para operários e há pouco serviço para mulheres, além da cozinha”, disse Ávila. “As brocas são gigantescas e é preciso subir por uma montanha com inclinações de até 45 graus. Poderia haver mulheres em cargos executivos, mas não sabemos com precisão”, acrescentou Frasser.
Também se soube que as condições de trabalho para as mulheres “não foram as melhores, embora não seja possível conhecer dados porque a AGA esconde informação”, disse à IPS Evelio Campos, natural de Cajamarca e coordenador da Ecotierra.
“Estamos recopilando informação e sabemos que a várias foi dada a oportunidade de estarem na mina, inclusive como supervisoras das perfurações, mas as demitiram quando algumas ficaram grávidas”, acrescentou.
“A historia mineira confirma que nos lugares onde se desenvolve a mineração aumentam a prostituição, as drogas e o alcoolismo”, destacou Frasser.
Olívia Gil, moradora de Cajamarca e frontal opositora da mina, está convencida de que isso acontecerá ali se La Colosa entrar em atividade. “Sempre ouvi que onde há mineração só ficam ruínas depois ao fim dos trabalhos, embora no início haja abundância”, disse à IPS. “Agora não vivemos na abundância, mas temos como viver tranquilas, que é o que desejo para minhas netas”, acrescentou.
Ela não perde a esperança de que quando suas netas – hoje crianças – forem grandes, tenham maiores opções do que as atuais em Cajamarca.
“Quero algo diferente das pouco fantasias de alguns destes dias e que a diversão não seja apenas dançar e beber, para depois engravidar. Não desejo isso para minhas netas”, acrescentou.
Por isso, sua filha vive em Ibagué, onde há maiores possibilidades para as mulheres, “com tudo o que é necessário para que o futuro de minhas netas seja melhor que o de sua mãe e o meu”, concluiu. IPS/Envolverde


