Montevidéu, 27/07/2009 – As alunas da escola Villa García, a 21 quilômetros do centro da capital do Uruguai, continuam brincando de boneca ou de escolher a roupa das modelos, só que agora isso é feito em computadores portáteis.
Esta escola foi a pioneira dos anos 70 em uma educação integradora e igualitária, mas, como a maioria das escolas, sofreu um retrocesso em matéria de igualdade de gênero e agora, de maneira quase inadvertida, perpetua os estereótipos que pré-determinam os papéis de mulheres e homens.
Villa García foi a primeira da área metropolitana a receber os computadores do Plano Ceibal (Conectividade Educacional de Informática Básica para o Aprendizado On Line), que busca impulsionar a igualdade digital e a democratização do conhecimento.
Seus alunos fazem parte da metade das meninas e meninos que vivem abaixo da linha de pobreza no Uruguai, país com 3,4 milhões de habitantes, 52% mulheres.
A inovadora iniciativa do presidente Tabaré Vázquez pretende que cada aluno e professor do Uruguai tenha um computador e toma emprestado o nome do ceibo, a árvore da flor nacional.
Mas, seus conteúdos não incluíram a questão de gênero e quando é dado aos alunos experimentarem os computadores, os meninos buscam jogos considerados próprios de seu sexo e as meninas procuram que roupa vestir em suas bonecas ou selecionar roupas de atrizes e modelos, disseram à IPS as jovens professoras Adriana Font e Karen Souza.
Carmen Beramendi, diretora do Instituto Nacional das Mulheres (Inmujeres), informou à IPS que esse organismo e o Laboratório Tecnológico do Uruguai, que centraliza o Plano Ceibal, trabalham para sanar essa carência no projeto.
Para isso se projeta um videogame e um folheto-historieta voltados a “apresentar os papéis de gênero existentes dentro da família, brincar com outros e promover a coresponsabilidade familiar na distribuição das tarefas, com base na igualdade de gênero e na reflexão sobre os estereótipos”, explicou.
Até agora,o Plano Ceibal entregou 200 mil computadores portáteis, em um processo que começou em 2007 pelas áreas rurais e urbanas mais pobres, para alcançar no final deste ano toda a população escolar. Cada unidade sai por US$ 220 e o custo total do projeto será de US$ 100 milhões, financiados integralmente pelo Estado.
No Uruguai, o ensino inicial começa aos três anos, a primária aos seis e a média aos 12, e ,o ensino é obrigatório dos quatro aos 15 anos.
As professoras Font e Souza decidiram por contra própria enfrentar os estereótipos de seus alunos, ao lhes mostrar outro olhar sobre sua realidade. Para isso se capacitaram em cursos de organizações não-governamentais, já que não há formação sobre essa área na docência.
Juan Morales, diretor de Villa García, onde trabalham 38 professoras e quatro professores, reconheceu que a escola “não tem uma política dirigida a mudar os papéis pautados” emmateria de gênero, porque não é visto “como um tema problemático”.
Ceca de 60% dos estudantes de Font e Souza têm idades superiores às estipuladas para seu nível escolar. Por isso, a maioria é quase de adolescentes entre 13 e 15 anos.
Ao falar do futuro, seus alunos repetem papeis tradicionais. A maioria dos meninos diz que optará por uma carreira técnica, como mecânica, e as meninas aspiram, sobretudo, se cabeleireiras.
As famílias também reforçam as diferenças de gênero. Quando há atividade fora do horário de aula ou passeios em grupo, as alunas participam menos porque os país preferem que fiquem em casa, cuidando dos irmãos menores e das tarefas domésticas.
As duas docentes se esforçam para mostrar às suas alunas “que existem outras possibilidades de vida” nos âmbitos do trabalho e familiar. São meninas que não saem muito do bairro e conhecem o mundo através da peneira ditorciva da televisão. “Veem muitas telenovelas e esperam que, com nelas, venha um príncipe e as leve” disse Karen Souza.
Os preconceitos são tão fortes que “com frequência as meninas trazem bilhetes pedindo para não fazerem educação física porque estão menstruando, contou a professora. Quando vão a acampamentos, as mães pede para não deixá-las lavar a cabeça ou brincar, e se trata de mulheres que tem quase sempre menos de 30 anos.
Para reverter estes padrões, Font e Souza concordam que a escola deve realizar um trabalho permanente, baseado na consciência de gênero de professores e professoras.
Planos com gênero
E algo está mudando nesse sentido no Uruguai. Em março deste ano entrou em vigor um programa educativo que inclui todo o ciclo inicial e primário e onde pela primeira vez se inclui a questão de gênero como desafio ético.
O plano estabelece que “os alunos são sujeitos de direito e o direito à educação deve garantir o acesso de todos a uma cultura geral e plural”.
Sob esta premissa, na área do Conhecimento Social inclui-se em cada nível o capitulo “Construção de Cidadania”, onde é abordada a identidade de gênero.
Os papeis dentro das escolas, a construção social do masculino e do feminino, os papeis na família, os estereótipos sociais e as tradições, a igualdade e a discriminação e a mulher e o homem no trabalho são alguns temas do programas.
Também fala dos estereótipos publicitários, a mulher e o homem através da história, a identidade de gênero e a construção da sexualidade como parte do projeto de vida.
Este programa tem seu antecedente no Primeiro Plano Nacional de Igualdade de Oportunidades e Direitos, de 2007, que desenvolve ações educativas para combater os estereótipos e promover a igualdade.
Essas medidas foram acordadas entre Inmujeres e a Administração Nacional de Educação Pública.
Carmen Beramendi, a diretora do Inmujeres, informou que esta cooperação produziu uma Rede de Gênero dentro do sistema educacional que tem entre suas metas “a revisão dos conteúdos sexistas dos textos” de todos os currículos escolares.
Também, desde 2007, são realizadas ações educativas no Dia da Não-Violência Contra a Mulher e também no Dia Internacional da Mulher, para promover a reflexão de meninos e meninas.
Entre elas, foram distribuídos em mais de duas mil escolas uruguaias cartazes com a inscrição “Viver sem violência é muito bom” e folhetos a favor dos direitos das mulheres da coresponsabilidade no cuidado da família.
Os impressos continham uma historieta onde o pai faz as tarefas domésticas para que a mãe participe de atividades comemorativas da mulher.
Em novembro passado foram realizadas as Segundas Jornadas de Educação e Gênero no ciclo inicial, das quais participaram 650 educadores de menores de cinco anos, que receberam o manual formativo “Primeiros Passos”, junto com um guia operacional.
Além disso, docentes especialmente capacitados começarão este ano a dar educação sexual em todos os cursos do primário e secundário.
Beramendi disse que “aumenta a avidez por estes temas”, mas falta muito para poder modificar os papéis.
“O sistema educacional aceita mais a violência masculina. Se uma mãe reage com violência a alguma agressão é vista com um peso diferente do seu companheiro”, citou com exemplo. Outro exemplo: “Se um aluno ou aluna vai mal continua-se chamando a mãe para conversar, o que reforça o sinal de que é a única responsável por seu ‘fracasso’ ou má conduta”, disse Beramendi.
A diretora do Inmujeres assegurou que entre os docentes aumenta a consciência de que é preciso renovar o olhar e incorporar a perspectiva de gênero. Mas, reconheceu que ainda “está muito longe a instalação de uma nova prática como algo substantivo e permanente” nas escolas uruguaias. IPS/Envolverde


