Moscou, 07/07/2009 – Espera-se que a visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, à Rússia, a partir de hoje e até quarta-feira, sirva para concretizar melhorias significativas, embora limitadas, nas problemáticas relações entre os dois países. Obama falou de uma boa comunicação com o presidente russo, Dmitry Medvedev, mas, também assinalou o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, como um líder com um pé no passado. Sandra Fernandes, pesquisadora associada do Centro de Estudos Políticos Europeus (Ceps) em Bruxelas, acredita que a cúpula Obama-Medvedev conseguirá particulares avanços em matéria de tratados nucleares.
“A controvérsia sobre os armamentos nucleares foi um fator sério na deterioração das relações entre os dois países, mas a dificuldade real é o vínculo entre esta e outras disputas relacionadas à segurança”, disse Fernandes à IPS. Os temas principais são o projeto dos Estados Unidos de estender sua defesa com mísseis na Europa e o Tratado sobre Forças Armadas Convencionais na mesma região, explicou. A ampliação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) às ex-repúblicas soviéticas da Geórgia e da Ucrânia também está influindo nas conversações sobre a redução de armas, acrescentou.
A Rússia, que gora tem dificuldades para depender de armamentos convencionais, vê seu sistema de dissuasão nuclear como uma fonte de segurança. “Um escudo de mísseis dissuadiria sua capacidade de tomar represálias em um segundo ataque, ou mesmo destruiria no primeiro. Se considerar-se que as únicas armas confiáveis são as nucleares, então a capacidade de dissuadir é fundamental”, afirmou Fernandes. A questão imediata é uma extensão do Tratado de Redução de Armas Estratégicas, o Start I, ou o lançamento de um Start II com novos limites mais baixos para a quantidade de armas.
O Start II foi assinado em 1993, mas não foi implementado porque a Rússia o abandonou imediatamente após os Estados Unidos se retirarem do Tratado sobre Mísseis Antibalísticos em 2002. O novo governo de Obama usou várias vezes o temor “voltar ao zero” a propósito dos vínculos entre Moscou e Washington. Em março, a secretária de Estado, Hillary Clinton, presenteou seu colega russo, Sergey Lavorv, com uma caixa amarela com um grande botão vermelho para voltar a por em marcha as relações. Nessa ocasião, pediu a Lavrov que ambos apertassem o botão.
Obama e Medvedev concordaram em iniciar as conversações em sua primeira reunião, em abril durante a cúpula do Grupo dos 20 países ricos e emergentes em Londres. As primeiras duas rodadas de negociações sobre desarmamento aconteceram em 19 e 20 de maio em Moscou, e de 1º a 3 de junho em Genebra. A equipe de negociadores norte-americanos foi liderada pela secretária-adjunta de Estado, Rose Gottemoeller, enquanto a delegação russa foi presidida por Anatoly Antonov, diretor do Departamento de Segurança e Desarmamento do Ministério das Relações Exteriores.
Medvedev disse que qualquer redução estratégica de armas somente séria possível se os Estados Unidos abordassem as preocupações da Rússia a propósito dos planos norte-americanos de ter um escudo de mísseis baseado na República Checa e na Polônia. O exercito norte-americano reiterou seu compromisso com a defesa com mísseis, citando as crescentes ameaças da Coréia do Norte e do Irã, mas, sugeriu que os planos de contar com uma base européia podem mudar. O secretário da Defesa, Robert Gates, propôs que as instalações russas possam ser parte do sistema de defesa com mísseis, mas a Rússia rechaçou a idéia, dizendo que poderia não haver uma associação para “construir instalações essencialmente projetadas para contraatacar as forças de dissuasão estratégica da Rússia”.
Segundo informe divulgado em abril pelo Departamento de Estado norte-americano, desde 1° de janeiro a Rússia conta com 3.909 ogivas nucleares e 814 veículos de distribuição, o que inclui mísseis balísticos intercontinentais baseados em terra e lançados desde submarinos, bem como bombardeiros estratégicos. O documento diz que os Estados Unidos possuíam 5.576 ogivas e 1.198 veículos de distribuição. A Rússia, que propôs um novo acordo de redução de armas em 2005, espera que os Estados Unidos concordem com um acordo que restringirá não apenas a quantidade de ogivas nucleares, mas que também porá limites aos veículos de distribuição.
Alguns analistas esperam apenas um resultado limitado da visita de Obama. “É improvável que as conversações resolvam todas as controvérsias que cercam o proposto tratado de armas estratégicas, mas deveriam eliminar alguns obstáculos e criar a base para uma possível resolução das dificuldades que restam”, disse à IPS Ted Galen Carpender, do Instituto Cato, baseado em Washington. “A reunião deveria melhorar mais o clima das negociações”, acrescentou.
“É pouco prático proibir todas as armas espaciais neste momento, e o tratado não deveria tentar fazer isso. Embora Rússia e Estados Unidos se coloquem de acordo em tal disposição, não é seguro que a China e outras potências se abstenham de lançar mais dessas armas no futuro”, acrescentou. IPS/Envolverde

