ÁFRICA: Cientistas promovem desenvolvimento sustentável

Dakar, 11/08/2009 – Cada vez mais mulheres pesquisam na área de desenvolvimento sustentável na África, apesar de o continente não oferecer condições para fomentar inovações técnicas nem científicas.

produção de manteiga de karité - Kenneth S. Yussif

produção de manteiga de karité - Kenneth S. Yussif

O crescimento econômico e o desenvolvimento dependem da capacidade que um país tem para adquirir e usar nova tecnologia, segundo a ex-ministra de Pesquisa Científica do Senegal, Marie Louise Correa. A África tem relativamente poucos engenheiros, técnicos e pesquisadores, lamentou, esclarecendo que as mulheres não são discriminadas no setor. “Trabalhamos em perfeita harmonia com nossos colegas homens. Ser mulher não atrapalha o exercício de nossas funções”, ressaltou.

Na década de 90, havia apenas 15 mulheres na Universidade Xeque Anta Diop, de Dakar, agora são mais de 40, destacou em uma conferência sobre o conhecimento a serviço do desenvolvimento, organizada em maio pela rede continental Knowledge Management Africa (Manejo do conhecimento na África). “A África está muito atrasada em matéria de pesquisa científica, mas, a contribuição feminina nessa área influi muito sobre o desenvolvimento do continente. É importante destacar o trabalho das pesquisadoras da Universidade Xeque Anta Diop”, afirmou.

O maior problema da África é o intercâmbio e a transferência de conhecimento, afirmou Yacine Touré, assessora do Instituto de Tecnologia Alimentar do Senegal (Ita). “Para começar, as mulheres têm menos estudo do que os homens. No Senegal, menos de 50% estão escolarizadas e muitas abandonam a escola no primário ou secundário”, contou. “Não é por falta de capacidade que há desigualdades entre homens e mulheres, mas por questões sócio-culturais. É preciso mudar o comportamento dos pais par que deixem suas filhas prosseguirem os estudos terciários, em lugar de casá-las jovens. No Ita há mais de 80 técnicos e cientistas, entre os quais 35 são mulheres, incluídas seis pesquisadores”, acrescentou Yacine.

O Senegal tem um programa de apoio às jovens que optam por carreiras científicas. O governo fornece bolsas de estudo às que terminam o curso secundário para que possam estudar em diferentes centros de pesquisas estatais como o Ita ou a Academia Nacional de Ciência e Tecnologia. Deveria existir programas semelhantes no restante da África para promover a pesquisa em projetos de desenvolvimento sustentável, disse Yacine.

O conhecimento não é exclusivo das universidades e também se encontra em práticas tradicionais, afirmou, por sua vez, Alhadji Wareme, de Burkina Faso. Organizações femininas conseguiram bons resultados nesse país com a produção de manteiga de karité, uma gordura vegetal extraída do fruto dessa árvore, típica dos países da África central. “É uma das grandes oportunidades em termos de inovação e geração de renda nos meios rural e urbano, que conseguiu transformar-se em fonte de renda para as mulheres das organizações que a promoveram e de divisas para o país graças à demanda crescente”, disse à IPS.

A iniciativa prosperou com base em conhecimentos tradicionais. Em Burkina Faso, as mulheres sempre elaboraram manteiga a partir da noz do karité. Com ajuda do Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento Internacional, as especialistas melhoraram as técnicas de produção. Primeiro protegendo as arvores com adubo e outros tratamentos e, em seguida, aceleraram o processo de extração por meio de prensas mecânicas, explicou Wareme. “As pesquisadoras combinaram conhecimentos tradicionais com técnicas modernas e conseguiram fazer algo bom. Agora, é preciso um programa que permita divulgar os êxitos”, acrescentou. O desafio é “montar uma estratégia harmônica que permita gerir o crescimento e melhorar o sistema de inovação” para manter um crescimento produtivo e ampliar o mercado internacional, acrescentou Wareme.

(IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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