CIDADE DO CABO, 04/08/2009 – Proferindo o seu primeiro discurso sobre o estado da nação em Junho de 2009, o Presidente da África do Sul, Jacob Zuma, descreveu o desporto como “força unificadora” que as pessoas têm de usar para poderem viver juntas Um clube de futebol comunitário do bairro periférico de Masiphumelele, na Cidade do Cabo, aceitou este desafio seriamente: o Clube de Futebol de Kanana tem recrutado estrangeiros como gesto de boa vontade e harmonia.
Esta atitude é particularmente significativa depois da onda de xenofobia que varreu o bairro e comunidades semelhantes em toda a África do Sul em 2008. Ao assistirmnos a uma sessão de treino no acidentado campo de treino, a boa disposição dos jogadores parece desafiar as imperfeições do campo provisório. Um dos fundadores e presidente do clube, Thembelani Dumo, diz que a decisão de convidar estrangeiros para jogarem na equipa foi uma escolha consciente, com o objectivo de dar um exemplo aos outros clubes de futebol da mesma liga comunitária e ainda às comunidades mais afectadas pela xenofobia. “Moramos no mesmo bairro e na mesma rua, Kanana. Tivemos esta ideia. Pareceu ser uma boa idea e por isso pensámos que devíamos dar-lhe uma oportunidade”, disse Dumo. Vamos matar-te O desenvolvimento da harmonia, como acontece com os esforços do clube de futebol de Kanana, no bairro de Masiphumelele, está desesperadamente ausente em comunidades noutras partes da Cidade do Cabo. Em bairros como Khayelitsha e Gugulethu, a vida continua a ser um inferno para alguns migrantes africanos. John Kwigwasa e Rajab Ramazani, da República Democrática do Congo, foram feridos a tiro num alegado ataque de ódio perpetrado por pessoas locais quando tentavam reintegrar-se em Gugulethu.
“Fui atacado por quatro homens; apontaram uma arma de fogo e disseram siyakhubulala (vamos matar-te), e depois deram-me um tiro na perna”, disse Kwigwasa. Kwigwasa vive agora numa situação desesperada no campo de refugiados de Blue Waters, situado em Khayelitsha, juntamente com a mulher e duas filhas. Este campo alberga ainda cerca de 400 migrantes que também têm receio da reintegração. Porém, a vida no campo não tem sido fácil. A Cidado do Cabo suspendeu o abastecimento de alimentos e de energia ao campo, que deseja ver encerrado. Também tem procurado obter uma ordem judicial do Tribunal Superior para desmantelar este campo de refugiados.
Asaadi Abdullahi, o líder dos refugiados no campo, tem criticado fortemente as acções da Cidade do Cabo. Diz que a vida se tornou muito difícil desde a retirada do abastecimento de alimentos.
“Estamos com fome, não há nada aqui, estamos mesmo a sofrer. Vivemos como pássaros que têm de voar e encontrar alimento noutro sítio”, disse Abdullahi. Contudo, a Cidade do Cabo insiste que os refugiados têm de ser integrados nas suas antigas comunidades, opção que é rejeitada como impossível por Abdullahi. “Queremos ser repatriados para os nossos países de origem, ou então as Nações Unidas têm de apresentar um plano apropriado para nos levar para algum sitío, se o repatriamento não for possível”, acrescentou Abdullahi. Jogar na terra prometida
Criado em 2008, o clube com 28 membros é composto principalmente por jovens desempregados. O objectivo é manter a juventude afastada de actividades criminosas e ainda desencorajar comportamentos que promovam a propagação do VIH.
Kanana FC foi a primeira equipa de futebol a recrutar estrangeiros em Dezembro de 2008. Apesar de inicialmente os outros clubes terem tido dúvidas sobre esta ideia, Dumo afirma que começam agora a copiar o exemplo de Kanana. Refere outras equipas localizadas em áreas com elevada densidade populacional, como Du Noon e Mitchell’s Plain, como exemplos.
“Algumas equipas viram o que nós estávamos a fazer e agora já não têm a mesma atitude contra os estrangeiros, isso é bem claro mesmo dentro da nossa equipa”, acrescentou Dumo.
Esta afirmação é corroborada pelo alto e magro Sifiso Skroba, um dos jogadores do meio campo do Kanana FC. Skroba afirma que, devido à interacção diária durante as sessões de treino, encara agora os migrantes de outras partes de África como iguais.
“São nossos irmãos, não tenho qualquer problema em conviver com eles, e é deste modo que devemos viver como africanos”, disse Skroba.
Kanana, o nome da rua onde a maior parte dos jogadores da equipa vive, é a versão, na língua Xhosa, da localidade bíblica de Canaan – a Terra Prometida. O nome só muito lentamente é que se está a tornar na terra prometida para Peter Mutivi, migrante zimbabueano que joga agora na equipa.
Mutivi diz que agora se sente mais bem acolhido na comunidade, onde a violência eclodiu durante os ataques que tiveram lugar contra os migrantes em 2008. Pai de três crianças, veio para a África do Sul há cinco anos, e sobrevive com dificuldade como operário com raros contratos de trabalho. Mutivi fala vagarosamente e o seu rosto anima-se quando fala das suas experiências desde que entrou para o Kanana FC.
“Sinto-me bem, existe um sentimento de solidariedade quando se joga futebol. Confraternizamos com pessoas diferentes e agora os sul africanos aceitam-nos porque sabem que queremos contribuir algo para a comunidade”, disse Mutivi.
Quem também se sente em casa é outro zimbabueano, Mayde Mlambo, que afirma que o entusiasmo causado pelo campeonato mundial de futebol, que terá lugar na África do Sul no próximo ano, vai desempenhar um papel importante na união de comunidades como esta.
“Estão todos excitados com 2010 e, como africanos, vamos unir-nos”, disse Mlambo.
Impacto positivo
Dumo tem orgulho no facto de, em pouco tempo, o Kanana FC ter conseguido mudar atitudes na sua comunidade. Diz que a sua equipa está a atingir gradualmente o seu objectivo de alcançar outros fins fora do campo de futebol.
“Eles (os estrangeiros) agora sentem-se em casa, e mesmo durante ocasiões de confraternização, podem dar o seu contributo”.
A promoção da integração em Masiphumelele enquadra-se naquilo que organizações cívicas, como a Coligação para a Justiça Social, tentam alcançar. A funcionária responsável pelos projectos, Anele Wonde, disse à IPS que a mudança está a ocorrer lentamente nalgumas comunidades.
No entanto, apela ao governo que denuncie a xenofobia de forma mais firme.
“Os ataques de xenofobia estão a custar caro ao nosso país; o que dizemos é que o governo precisa de se levantar e dizer à nação que essas atitudes são erradas e vergonhosas”, disse Wonde.
Wonde acrescentou que, de acordo com a pesquisa efectuada pela sua organização, a má distribuição de serviços comunitários foi um factor importante que despoletou os ataques no ano passado. “As pessoas estavam frustradas devido à reduzida distribuição de serviços comunitários no país, e portanto o governo tem de ser mais activo”.
Segundo a polícia sul africana, seis dos 50 casos de xenofobia registados na Província do Cabo Ocidental no ano passado foram julgados em tribunal com êxito. Desses seis, dois indivíduos receberam uma sentença de prisão suspensa, enquanto que outros quatro vão ter de passar cinco anos na cadeia.

