SAÚDE-ÁFRICA DO SUL: andando de bicicleta e curando

CIDADE DO CABO, 19/08/2009 – Todas as manhãs durante a semana, uma elegante procissão sai dos escritórios da MaAfrika Tikkun, uma ONG em Delft, na Cidade do Cabo, atravessa às sacudidelas e tropeções os portões da entrada de cascalho, para depois chegar ao alcatrão e se espalhar por todos os cantos do bairro. “Aquelas pessoas, elas são mos kwaai jong (muito fixes) – agora andam de bicicleta… “ diz um transeunte com inveja.

Numa zona retratada pela imprensa como dominada pelo crime, triste e desesperada, os trabalhadores de saúde da MaAfrika Tikkun percorrem as ruas, entre barracas e casas, sem qualquer receio, nas suas pretas e elegantes bicicletas com uma única velocidade – as Africabikes –, levando cestos de arame e sacolas cheias de material necessário a cuidados domiciliários.

“As pessoas dizem que parece uma bicicleta do passado”, diz Esmeralda Piers. que trabalha como prestadora de assistência domiciliária desde 2006. “Toda a gente quer uma. Amarramos as nossas bicicletas, mas as pessoas olham para elas quase como se fossem bicicletas ‘ambulâncias’ e por isso não as roubam.”

Piers é uma das 108 trabalhadores de saúde da MaAfrika Tikkun que receberam uma bicicleta no final de 2008, tendo estas bicicletas sido doadas pelo projecto BikeTown Africa, sediado nos Estados Unidos. O objectivo do projecto é entregar mais 1.000 bicicletas a trabalhadores de saúde em 2009.

Os prestadores de cuidados de saúde fazem visitas domiciliárias, tratam das feridas e asseguram que as pessoas com doenças crónicas (como tuberculose, diabetes, VIH e SIDA) tomam os medicamentos. Também acompanham o crescimento e a saúde de bebés recém-nascidos.

Piers vive em Delft há 19 anos e, como a maior parte dos prestadores de cuidados de saúde, costumava andar a pé de paciente em paciente. “É lento e cansativo e, às vezes, é preciso correr-se de um paciente para outro”, afirmou. “Se usarmos um táxi, temos de pagar do nosso próprio bolso.”

O governo nacional sul africano paga um ordenado a prestadores de cuidados domiciliários para visitarem quatro a dez pacientes por dia no mínimo (dependendo do nível de tratamento necessários). Mas, às vezes, estes prestadores de cuidados de saúde não conseguem ver toda a gente, segundo Beryl van den Heever, responsável pela equipa da MaAfrika Tikkun. “Pode levar muito tempo para lavar e ouvir um só paciente. Por vezes, os prestadores de cuidados de saúde só conseguem examinar correctamente cinco pessoas”.

“Agora, examinam 8-12 pessoas por dia, passam mais tempo com os pacientes e podem responder a emergências mais rapidamente…”

Os serviços de saúde baseados nas comunidades, que incluem a assistência domiciliária, desempenham um importante papel na melhoria da saúde pública e na redução da pressão exercida sobre as instituições de saúde, afirma Faiza Steyn, directora de comunicações do Departamento de Saúde Provincial do Cabo Ocidental.

Só no Cabo Ocidental houve um aumento de 83 por cento no número de prestadores de cuidados de saúde recrutados por organizações não governamentais no ano passado. Durante este periodo, prestaram assistência domiciliária a mais de 24.000 pessoas.

Os prestadores de assistência domiciliária trabalham sobretudo em três áreas: aquilo a o que o departamento de saúde intitula de hospitalização ambulatória, ou seja, os pacientes que já tiveram alta do hospital mas que ainda precisam de tratamento; o acompanhamento da ingestão da medicação, especialmente no que diz respeito a doenças crónicas, tuberculose, diabetes, hipertensão e doenças do foro psiquiátrico; e campanhas de educação de saúde.

Charles Rosant, que trabalha há três meses como prestador de cuidados domiciliários, afirma que já visitou um paciente que não tinha comida nenhuma em casa. “Como é que lhe posso pedir que tome os medicamentos se não tem comida?”

“É a capacidade de poder ajudar os outros que me faz levantar todas as manhãs”, disse Rosant, montando a sua bicicleta para se dirigir à loja mais próxima para comprar pão para o seu paciente. “Se andasse a pé, só poderia visitá-lo novamente no dia seguinte.”

Noutra ocasião, a equipa de Delft conseguiu arranjar prestadores de cuidados adicionais quando precisaram usar uma ‘ambulância provisória’ para levar um paciente para o hospital. “Se não fosse assim, não teríamos conseguido juntar tantas pessoas tão rapidamente”, afirmou Piers.

Mas não se movimentam de forma tão rápida que não podem parar e conversar, e continuar a fazer parte da comunidade. “Andamos suficientemente devagar para dar às pessoas a oportunidade de sairem das suas casas e fazerem perguntas”, disse Piers. “Podemos ainda dar conselhos enquanto nos movimentamos”.

Em termos de energia gasta ao longo de uma certa distância, um ciclista fortuito pode percorrer uma distância quatro vezes superior por comparação àquela que consegue fazer a pé, podendo também transportar um número de mercadorias cinco vezes superior, afirmou Bradley Schroeder, da BikeTown Africa. Em termos de velocidade, o esforço despendido para se andar a pé quatro quilómetros por hora é o mesmo que se gasta para se andar de bicicleta 16 quilómetros por hora. As bicicletas também têm os custos operacionais mais baixos de todos os meios de transporte.

Dezasseis quilómetros é a distância média que Trudy Makerman faz todos os dias, para completar a sua ronda como prestadora de cuidados de saúde, o que inclui a deslocação de sua casa, a movimentação de um paciente para outro paciente, e o regresso a casa.

Makerman é uma trabalhadora de saúde no distrito frutífero de Robertson, no Cabo Ocidental. Juntamente com Stoffel Klein e Nicolene Reque, da Associação de Desenvolvimento Rural de Robertson, desloca-se distâncias bastante longas – 10-20 quilómetros – em estradas de cascalho íngremes, para examinar crianças pequenas e pessoas com doenças crónicas.

Em Novembro de 2008, a Associação aceitou uma entrega de bicicletas do programa do governo nacional intitulado Shova Kalula. Desde então, a equipa tem conseguido visitar entre 500 a 550 pacientes por mês (e passar mais tempo com cada um deles – visto que não têm de andar a pé, a correr, de fazenda em fazenda), comparado aos 100 a 200 pacientes examinados quando o grupo tinha de andar a pé.

“Andar a pé até lá não era o maior problema”, disse Makerman. “Era antes o eindpad [o regresso a pé] quando estava calor. (O dia de trabalho começa às oito da manhã e acaba às 12:30). Estávamos cansados devido ao trabalho realizado até essa altura. Eu precisava de descansar antes de visitar o paciente seguinte . Nem sempre tinha a energia necessária para estar com eles.”

A bicicleta também lhe permite sair de casa mais tarde de manhã e regressar a casa mais cedo, o que lhe dá mais tempo para estar com a família (e consigo própria).

“A minha bicicleta é mesmo certa para mim”, disse Makerman. “As pessoas podem dizer que já sou muito velha (tem 43 anos) e perguntar porque é que eu não arranjo um automóvel. Mas, para mim, a bicicleta ajuda-me a evitar o stress. É bom para mim e é bom para os meus pacientes. Todos os trabalhadores de saúde deviam ter uma!”

Piers também encontrou um benefício pessoal na sua bicicleta. “Vou ter com os meus amigos e primos em Belhar, em Belville, faço compras e falo com os meus primos … cada vez que isso acontece, poupo pelo menos 30 Randes ($3.50) que teriam de ser pagos aos táxis.”

Leva os filhos com ela, mas só na sua bicicleta mais velha. “Os meus filhos de nove e seis anos de idade conseguem andar na bicicleta, mas eu não uso a minha bicicleta de trabalho para isso.”

“Mas sabem, não é a questão da bicicleta”, disse Piers, sem se aperceber que estava a repetir o título de uma famosa biografia. “Algumas pessoas querem ser prestadores de cuidados porque vão receber uma bicicleta, mas para nós, a bicicleta é a cereja em cima do bolo. Quando alguém me agradece por ter feito um bom trabalho, sei porque é que estou a fazer este trabalho. E a bicicleta ajuda-me a fazê-lo melhor.”

Gail Jennings

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