Washington, 14/08/2009 – Uma carta do Departamento de Estado norte-americano despertou dúvidas sobre qual é de fato a posição do governo de Barack Obama sobre a crise em Honduras. Em carta enviada no último dia 4/08 ao senador Richard Lugar, principal representante do opositor Partido Republicano no Comitê de Relações Exteriores do Senado, a administração Obama condena o golpe de Estado nesse país centro-americano, embora atribua certa responsabilidade no ocorrido ao deposto Manuel Zelaya e não faz um expresso chamado à sua reintegração no cargo de presidente. A carta é assinada pelo secretário de Estado assistente para Assuntos Legislativos, Richard Verma.
“Nossa estratégia para nos comprometermos (na crise) não se baseia em apoiar nenhum político ou individuo em particular”, disse. “Também reconhecemos que a insistência do presidente Zelaya em realizar ações provocatias contribuíram para a polarização da sociedade hondurenha e levaram a um confronto que desatou os acontecimentos que acabaram com sua derrubada”, acrescenta. Vicki Gass, especialista em Honduras do Escritório de Washington sobre a América Latina, afirmou que o texto demonstra o apoio dos Estados Unidos a um governo democrático e ao império da lei em Honduras, mas não necessariamente a Zelaya. “Os Estados Unidos não apóiam Zelaya. Apóiam a ordem democrática, o que implica seu regresso, mas isso não significa que gostem dele”, disse à IPS.
Frederick Jones, porta-voz de John Kerry, presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, disse na sexta-feira que o senador estava preocupado com a possibilidade de a carta enviar “um sinal confuso” sobre o compromisso de Washington para restaurar Zelaya no cargo de presidente. Alguns dizem que a carta foi uma resposta a outra enviada por Lugar no dia 30 de julho à secretária de Estado, Hillary Clinton, pedindo que explicasse sua política para Honduras. “Solicito que o Departamento forneça aos membros interessados um detalhado esclarecimento dos passos tomados e que tenta dar em resposta aos acontecimentos referentes à remoção forçada do presidente Manuel Zelaya de Honduras”, escreveu Lugar a Clinton.
Como forma de condenar a falta de uma ação decisiva de Washington na crise hondurenha, os senadores republicanos deixaram em suspenso a confirmação de dois candidatos de Obama para postos diplomáticos-chave: Arturo Valenzuela como secretário de Estado assistente para Assuntos do Hemisfério Ocidental, e Thomas Shannon como embaixador no Brasil. Gass disse que o vazio nesses cargos era sentido no Departamento de Estado, e a carta seria uma maneira de atender os republicanos e facilitar a confirmação dos indicados.
Existe uma clara divisão no Congresso sobre como deve ser resolvida a crise em Honduras. Os legisladores do Partido Democrata apoiam o regresso de Zelaya, embora com poderes limitados, enquanto os republicanos são contra. Estes últimos inclusive disseram que o golpe salvou a democracia nesse país de uma “ditadura populista” como a que – segundo consideram – lidera o presidente venezuelano, Hugo Chávez, aliado de Zelaya.
Os Estados Unidos revogaram os vistos diplomáticos de cinco pessoas do governo de fato de Roberto Micheletti. Também suspenderam as operações antidrogas de bases militares em território hondurenho, retiveram US$ 16 milhões em um pacote de ajuda no valor de US$ 250 milhões e alertaram que podem deixar de desembolsar 10% do restante dos fundos. Washington também apoia fortemente os esforços de mediação do presidente da Costa Rica, Oscar Arias, que propôs um plano para a volta de Zelaya ao governo, conhecido como Acordo de San José.
A carta também diz que Washington rechaçava a ideia de impor sanções ao regime de Micheletti. Gass afirmou que a resposta dos Estados Unidos foi inconsistente. A administração Obama “precisa ter mais caráter para condenar o golpe e ser mais consistente no Departamento de Estado”, acrescentou. Além disso, disse que Washington necessita “enviar uma mensagem mais forte ao governo de fato”, cancelando os vistos para seus familiares e congelando suas contas bancárias. A carta do Departamento de Estado desagradou alguns líderes latino-americanos que questionaram a falta de ação de Washington. Houve protestos diante da embaixada dos Estados Unidos em Tegucigalpa.
Na última sexta-feira, Obama disse a jornalistas que continua apoiando a volta do presidente deposto, mas explicou: “Não posso apertar um botão e surpreendentemente reinstalar o senhor Zelaya”. Na cúpula de líderes da América do Norte, realizada segunda-feira, Obama rechaçou as críticas de que não fez o suficiente no caso hondurenho. “Os mesmos críticos que dizem que os Estados Unidos não intervieram o suficiente em Honduras são os que dizem que estamos sempre intervindo e que os ianques têm de ir embora da América Latina. Pode-se ver pelos dois lados”, afirmou.
“Se esses críticos pensam que é apropriado que surpreendentemente atuemos de uma maneira que em qualquer outro contexto considerariam inapropriada, então creio que isso indica que talvez haja algo de hipocrisia em seu enfoque das relações entre Estados Unidos e América Latina, que certamente não vão guiar as políticas de minha administração”, acrescentou. Embora a Casa Branca não tenha feito comentários sobre a carta, Roberto Wood, porta-voz da Presidência, defendeu diante dos jornalistas os esforços do governo no caso de Honduras e reiterou que se manterá ao lado de Zelaya. “Deixamos clara nossa posição. Somos um grande partidário do presidente Zelaya. Queremos que regresse. Deixamos claro. Não deve haver dívidas sobre isso”, disse.
Uma delegação de chanceleres, liderada pelo secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, José Miguel Insulza, anunciou seus planos de visitar Honduras nos próximos dias para convencer Micheletti a aceitar o Acordo de San José, pelo qual Zelaya concluiria seu mandato em janeiro próximo e haveria anistia política para os responsáveis pelo golpe.
(IPS/Envolverde)

