Carachi, Paquistão, 20/08/2009 – Para as mulheres do vale paquistanês de Swat, norte do país, sair de suas casas sem vestir a burca é um ato extremo de sobrevivência.
A burca, uma túnica que cobre o corpo dos pés à cabeça, é a vestimenta tradicional feminina em algumas sociedades islâmicas, como sinal de respeito à “purdah”, a prática de impedir que os homens vejam as mulheres e que o Talibã impôs com mão de ferro. A roupa se converteu no símbolo da opressão que este movimento fundamentalista exerce sobre a população feminina dos dois lados da fronteira, Afeganistão e Paquistão. O breve relato da mulher foi ouvido por uma ativista que visitou 22 acampamentos criados pelo governo para os refugiados no distrito de Swabi, limítrofe com Swat. A parlamentar Bushra Gohar, do Partido Nacional Awami – que formou governo na província – divulgou uma gravação de seu testemunho através da Internet.
Famosa por suas paisagens que já foram como imã para os turistas, Swat é sacudida pelos incessantes confrontos entre forças de governo e rebeldes do Tehrik-e-Talibã Pakistan (TTP), organização do Movimento Talibã que opera em território paquistanês. Devido ao conflito, fugiram de Swat três milhões de pessoas. No começo, o TTP tentou ganhar a confiança feminina. Mualana Fazalullah, líder do grupo em Swat, utilizava emissoras de rádio piratas em FM para chegar aos lares da região e conquistar corações e mentes das mulheres fechadas em casa o dia todo.
“Ele falava sobre o Islã, sobre rezar cinco vezes ao dia, sobre ir à madrasa (escola islâmica) e estudar o Corão. Todas pensávamos que era um homem bom”, disse a refugiada. Mas, nos últimos dois anos, o TTP causou misérias indescritíveis à população de Swat, especialmente às mulheres, em nome do Islã. Não se admite nenhum tipo de oposição. Uma viúva tirou o véu que cobria sua cabeça para mostrar à ativista visitante que o Talibã raspara sua cabeça, além de ficar com suas jóias, como castigo por reclamar a devolução de seu filho de 12 anos que estava desaparecido.
Qualquer desobediência motiva castigos, como decapitação e morte, segundo as fontes. Depois, os restos das vítimas são exibidos publicamente. Assim, não surpreende que as mulheres que hoje estão nos acampamentos de Swat se sentem em silêncio, sem que ninguém as console, disse a ativista, transmitindo as lamentações de muitas com as quais conversou.
Buscando pela primeira vez uma voz coletiva, as mulheres refugiadas juntaram coragem para falar, embora não fosse mais que sussurros, sobre os sofrimentos infligidos pelo Talibã. Na visitante, que pediu para não ser identificada, encontraram ouvidos dispostos a escutar suas experiências, reunidas em uma grande tenda de campanha. As histórias dessas mulheres incluem violações e mutilação dos seios. E também a dor das mães por seus filhos menores, recrutados à força pelos membros do TTP para integrá-los à “yihad” (guerra santa) e cujo paradeiro se desconhece.
Muitas disseram que mais tarde souberam que seus filhos eram carne de canhão para conter atentados suicidas. Outras mães testemunharam sobre as mortes de seus filhos e filhas em seus próprios braços e sob o indiscriminado fogo de morteiros do exército. As grávidas contaram que além das longas caminhadas até os acampamentos de refugiados, deram à luz prematuramente. E os doentes e idosos eram forçados a subir nos caminhões “como animais”. “Cada vez que as organizações islâmicas querem aplicar sua interpretação da sharuiá (lei islâmica), o fazem com o cano da arma e seu primeiro objetivo, depois dos opositores, sempre são as mulheres”, disse a famosa escritora Zahida Hina, resumindo a situação da população feminina de Swat.
O porta-voz do TTP, Muslim Khan, respondeu em uma entrevista telefônica que “a shariá dará às mulheres seu lugar correto na sociedade”. É a mesma resposta que essa fonte deu em conversas telefônicas anteriores cada vez que lhe foi perguntado sobre o tratamento que sua organização reserva às mulheres. Khan disse que a visibilidade das mulheres promove a vulgaridade na sociedade. O porta-voz se mantém na clandestinidade desde que começou a operação militar, dia 5 de maio. O governo ofereceu uma soma inicial de 10 milhões de rúpias (US$ 120 mil) por sua captura, vivo ou morto, além das de outros 19 comandantes do Talibã.
A situação das mulheres de Swat é muito semelhante à que tiveram de suportar as afegãs entre 1996 e 2000, disse por email o pacifista Pervez Hoodbhoy, se referindo ao período em que o Talibã controlou boa parte do Afeganistão. oTTP seguiu ao pé da letra as pautas de seus pares afegãos. Impediu a ida à escola de meninas maiores de 13 anos. Bombardeou quase 200 colegios, a maioria para meninas, e depois concordou que o governo local e a direção escolar garantissem que as meninas usariam a burca. As mulheres foram obrigadas a deixar seus empregos em escritórios, fabricas e organizações não-governamentais, e as que trabalhavam no campo das artes tiveram sua atividade proibida.
Boa parte da violência cometida pelos rebeldes no vale de Swat buscou erradicar o já muito restrito espaço público das mulheres, segundo ativistas pelos direitos humanos. “Éramos prisioneiras em nossas próprias casas, já que não podíamos sair sem nossos homens”, disse uma refugiada. O exército e o governo, cuja ajuda buscaram desesperadamente, fizeram vista grossa ao que ocorria, assegurou. Inclusive a sociedade civil paquistanesa, e nela as organizações femininas, permaneceram em silêncio, disseram alguns observadores. Praticamente não houve protestos.
Segundo Saba Gul Khattak, diretor do Instituto de Políticas para o Desenvolvimento Sustentável, com sede em Islamabad, os homens também têm culpa. “Por que eles não se manifestaram?”, perguntou. Hoodbhoy considera o silêncio masculino “condenável” e produto do “medo e do oportunismo”.
(IPS/Envolverde)


