DESENVOLVIMENTO-ÍNDIA: Introdutor de privadas na Índia ganha prêmio em Estocolmo

Estocolmo, 21/08/2009 – Bindeshwar Pathak recebeu o Prêmio da Água de Estocolmo 2009 na conferência da Semana Mundial da Água, que acontece na capital sueca desde domingo até amanhã. O fundador do não-governamental Movimento Sulabh de Saneamento, que promove a instalação e o uso de banheiros na Índia, recordou que antes do país ficar independente da coroa britânica, em 1947, era incomum ver latrinas nas aldeias.

Uma inglesa que pretendia viajar à Índia colonial escreveu uma carta ao proprietário de uma pequena pousada, que também era professor na escola do povoado. Estava preocupada em saber se o hotel possuía um “WC”, siglas em inglês que designam o banheiro (water closet). O professor, que não dominava as sutilezas das siglas em inglês, perguntou ao sacerdote do lugar se sabia o significado de “WC”. Juntos consideraram os possíveis significados dessas letras e concluíram que a mulher queria saber se havia uma capela à beira do caminho (wayside chapel). Nunca lhes passou pela cabeça que essas iniciais se referiam a um banheiro, contou Pathak.

Assim, o professor respondeu à mulher dizendo: “Prezada senhora: tenho extremo prazer em informar-lhe que o WC fica a nove milhas (quase 15 quilômetros) da casa, no meio de um bosque de pinheiros, rodeado por belos jardins. Com se espera que cheguem muitas pessoas nos meses de verão, sugiro que venha logo. Esta é uma situação infeliz, especialmente se a senhora tem o hábito de ir regularmente”, continuou. “Recomendo que planeje uma quinta-feira, quando há acompanhamento de órgão. A acústica é excelente e inclusive os sons mais delicados podem ser ouvidos em todas as partes. A mais nova incorporação é um sino que toca cada vez que alguém entra. Desejo acompanhá-la pessoalmente até o local e fazê-la sentar-se em um lugar onde todos possam vê-la. Atenciosamente, O Professor”, concluiu. “Não é de surpreender que a mulher britânica jamais visitou a Índia”, disse Pathak em meio às gargalhadas dos presentes. Pathak fez esse relato na conferência da Semana Mundial da Água, da qual participam cientistas, autoridades governamentais, representantes do setor privado, de organizações não-governamentais e doadores.

A Índia percorreu um longo caminho desde a época colonial em seus esforços para atender as necessidades de saneamento de uma população em crescimento de 1,1 bilhão de pessoas. Trata-se do segundo país mais povoado do mundo depois da China. Pathak disse que um dos maiores complexos de banheiros do mundo fica em Shirdi, no Estado indiano de Maharashtra, e conta com 120 privadas, 108 salas de banho, 28 privadas especiais e cinco mil armários com chave para uso dos peregrinos. Na Índia ainda existem 600 milhões de pessoas sem acesso a banheiros e, segundo a Organização das Nações Unidas, cerca de 2,5 bilhões de pessoas em todo o mundo carecem de acesso a saneamento básico e aproximadamente 1,2 bilhão não têm nenhum tipo de latrina.

Desde que criou o Movimento Sulabh de Saneamento em 1970, Pathak desenvolveu sistemas de saneamento baratos e trabalhou para mudar as atitudes sociais para práticas tradicionalmente nocivas para a saúde em favelas, aldeias rurais e áreas urbanas densamente povoadas. “Os resultados dos esforços de Pathak constituem um dos exemplos mais surpreendentes de como uma pessoa pode ter impacto no bem-estar de milhões”, disse o comitê que escolheu o ganhador do Prêmio da Água de Estocolmo. Apresentado pela primeira vez em 1991, este prêmio é considerado o de maior prestígio do mundo destinado aos êxitos destacados em atividades ligadas à água. O prêmio anual inclui US$ 15 mil e uma escultura de cristal.

Quando começou seu movimento de reforma social em 1970 buscava solucionar três problemas sanitários básicos que a Índia enfrentava: defecação ao ar livre, limpeza manual das privadas de balde por parte de pessoas conhecidas como “carniceiros humanos” e lugares públicos sem instalações para banheiros. Na Índia, as mulheres eram as que mais sofriam: tinha que defecar antes do amanhecer ou após o entardecer para garantir certa privacidade, disse Pathak. As meninas não iam à escola por falta de banheiros e muitas crianças morriam por diarréia e desidratação. E os estrangeiros não gostavam de visitar a Índia pela falta de instalações sanitárias. Os “carniceiros humanos” eram tratados como “intocáveis” e odiados, humilhados e insultados pelas pessoas para as quais trabalhavam.

Na sociedade indiana anterior à independência, uma pessoa nascida dentro de uma casta intocável morria como tal. Não havia nenhuma possibilidade de mudança na estrutura social, disse Pathak. Apesar de proceder de uma família ortodoxa da casta Brahman, considerada uma das superiores do país, Pathak decidiu se preparar para deixar de lado seus próprios preconceitos contra os intocáveis. “Fui viver em uma colônia de carniceiros durante três meses”, contou. Assim experimentou pessoalmente o estilo de vida dos intocáveis.

Até agora, o Movimento Sulbh de Saneamento instalou 1,2 bilhões de banheiros com base em sua tecnologia, e o governo da Índia também construiu 54 milhões. Pathak desenvolveu duas tecnologias. A primeira utilizou os excrementos recolhidos nas privadas de balde para transformá-los em adubo. Este tipo de latrina denomina-se Sulabh. E a segunda foi a criação de banheiros públicos em lugares como ponto de ônibus, estações de trem, pontos turísticos e lugares religiosos.

Na década de 70, os indianos nunca pagavam para usar o banheiro. Pathak introduziu o primeiro banheiro público em 1974, em Patna, no Estado de Bihar, mantendo-o com base no conceito de “pague e use”. No começo “as pessoas riam de mim e se mostravam cépticas, dizendo: quem pagará para usar um banheiro?”, recordou. Mas já no primeiro dia foi usado por 500 pessoas, e arrecadou-se um total de US$ 5, disse. Seu movimento instalou mais de 7.500 banheiros públicos baseados em novas tecnologias, e agora outras organizações não-governamentais e empresas privadas começaram a trabalhar neste setor.

Os banheiros construídos por Sulabh, tanto individuais quanto públicos, são utilizados por 10 milhões de pessoas diariamente. Nas últimas três décadas os indianos desenvolveram o hábito de pagar para usar os banheiros públicos em todo o país. Isto ajuda a reduzir a carga que supunha sua manutenção para os cofres públicos, disse Pathak

(IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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