SAÚDE-KENIA: Luvas de látex pra salvar mães

Kisumu, Quênia, 16/09/2009 – As luvas de látex são parte dos elementos essenciais que escasseiam no hospital do distrito de Yala, no oeste do Quênia, onde são atendidas cerca de 96 mil pessoas. “Por acaso alguém vai enviar uma mãe para comprar luvas no meio da noite? Temos de atendê-la, mas não podemos reciclar as luvas. E tampouco podemos tocar em sangue”, disse Eric Achira, enfermeiro encarregado da maternidade do hospital. Quem acompanha a mulher é enviado para comprar luvas, mas frequentemente não têm dinheiro suficiente, por isso, em muitas ocasiões, Achira é obrigado a pagar de seu próprio bolso.

O hospital do distrito de Kitale, o mais populoso de Yala, está a quase 180 quilômetros dali e também sofre escassez de suprimentos básicos. “O abastecimento de produtos não farmacêuticos é um problema. Deve em quando faltam luvas, e isto pode ser um desafio na hora de atender um parto seguro e limpo”, disse o obstetra e ginecologista Geoffrey Wasembeli, que trabalha em Kitale.

Com a falta de luvas e a necessidade de ir comprá-las, algumas mulheres podem se sentir desestimuladas em dar à luz em hospitais, disse Monica Oguttu, diretora-executiva da Fundação Médica e Educativa de Kisumu (KMET), uma organização que promove a saúde reprodutiva e que trabalha com comunidades do oeste do Quênia. Neste país, apenas cerca de 41% dos nascimentos ocorrem em hospitais e assistidos por pessoal qualificado, segundo dados do governo. Uma grande porcentagem dos partos, especialmente nas áreas rurais, são atendidos por parteiras tradicionais que, além de não poderem lidar com as complicações da gravidez, podem carecer do equipamento que permita as condições de higiene necessárias.

“Quando os centros de saúde não podem fornecer suprimentos básicos como luvas, e inclusive seringas, em alguns casos, simplesmente dizemos às mulheres que procurem outro lugar. Elas acabam sendo atendidas por pessoas não qualificadas, e podem morrer, somando-se à já elevada cifra da mortalidade materna”, disse Oguttu à IPS. A mortalidade materna nacional é de 414 em cada cem mil nascimentos. Algumas áreas do país, como Siaya, registram entre 800 e 900 mortes para cada cem mil, segundo a KMET. Entretanto, há esforços para atender a necessidade de suprimentos médicos básicos.

Por exemplo, a KMET embarcou em um projeto-piloto para distribuir equipamentos de parto às grávidas de Siaya. Cada um deles, popularmente conhecidos como “mama kits”, contém, entre outros elementos, um par de luvas, fio cirúrgico para amarrar o cordão umbilical do bebê, um aparelho de barba esterilizado, sabão para lavar as mas e um fralda de polietileno. As mulheres são aconselhadas a ter o equipamento pronto e à mão a partir do oitavo mês de gestação, para evitar atrasos na hora de buscar elementos básicos quando chegam a um centro de saúde. O equipamento é útil porque, no caso de a mulher precisar dar à luz em sua casa ou a caminho do hospital o fará em condições mais seguras. Cerca de dois mil kits foram distribuídos em Siaya, que tem a maior mortalidade materna devido às infecções, segundo os últimos dados governamentais disponíveis.

Outro problema que coloca as grávidas em risco é a falta de pessoa da saúde nos centros de saúde do governo. É ilustrativo o caso do hospital do subdistrito de Ambira, que presta serviços a uma população de 50 mil pessoas. Ali há apenas dois funcionários que também trabalham na unidade de saúde reprodutiva. “A escassez de pessoal é crítica. Não é possível ajudar uma mãe que dá à luz e ao mesmo tempo examinar outros pacientes. Existe o risco de atrasar casos médicos sérios”, disse Okado Ochieng, funcionário de uma clinica que trabalha mais de 16 horas por dia. Segundo Ochieng, Ambira deveria ter pelo menos oito funcionários médicos para funcionar de modo efetivo.

Embora nos últimos tempos tenha se contratado mais pessoal da área da saúde, ainda persiste uma enorme brecha. “Deveríamos ter colocado quatro mil trabalhadores da saúde nos últimos três anos, mas tudo indica que precisamos de aproximadamente 15 mil em um período semelhante”, disse à IPS Josephine Kibaru, diretora do Departamento de Saúde do Ministério da Saúde. A sobrecarga de trabalho é evidente. O médico Geoffrey Kasembeli, do hospital do distrito de Kitale, saiu de férias no final de agosto, um benefício que não usufruía desde que começou a trabalhar, em 1997. IPS/Envolverde

Joyce Mulama

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