Gaza, 16/09/2009 – Na faixa de pouco mais de 1,5 quilômetro que separa a passagem fronteiriça israelense de Erez no norte deste território palestino impera uma calma alucinante. As montanhas de escombros, metais retorcidos e crateras, resultado da Operação Chumbo Derretido lançada por Israel entre 27 de dezembro e 19 de janeiro, recordam que a guerra continua sendo uma possibilidade. A ofensiva israelense contra o Hamas (Movimento de Resistência Islâmico), que controla a faixa de Gaza desde junho de 2007, incluiu artilharia pesada, bombardeio aéreo e várias incursões de forças terrestres. Houve 1.400 mortos e mais de cinco mil feridos, boa parte deles civis.
As ruas desta cidade estão tranquilas, limpas e quase sempre desertas durante o dia, com pouquíssimos pedestres e veículos, em parte pelo sítio e por ser o mês sagrado muçulmano do Ramadã. Mas esse clima foi interrompido há cerca de uma semana quando forças israelenses invadiram o norte o centro deste território e trocaram tiros com combatentes palestinos de diversos grupos insurgentes. Soldados de Israel arrasaram grandes porções de terra cultivável, dispararam contra agricultores palestinos e levaram vários jovens detidos, segundo fontes locais.
Esse foi o maior enfrentamento entre combatentes palestinos e soldados israelenses desde o cessar-fogo unilateral decretado em janeiro, o que faz temer que possa ocorrer outro episodio semelhante. O fato foi seguido por um endurecimento por parte do exercito israelense, que divulgou uma declaração advertindo que irá disparar contra todo palestino que tentar capturar um soldado israelense. Israel procura garantir a libertação de um soldado capturado por guerrilheiros palestinos há três anos.
O chefe do politburo do Hamas, Khaled Meshall, exilado em damasco, redobrou a aposta na semana passada quando se dirigiu aos jovens do Partido do Congresso Nacional sudanês, em Cartum. O bloqueio israelense contra Gaza e o bombardeio contínuo contra os túneis por onde o contrabando entra neste território a partir da península do Sinai não impediram nossa organização de trazer armas e munições, disse Meshaal. O desenvolvimento da atividade militar percorre caminho distinto das negociações políticas e diplomáticas.
“Os israelenses procuram provocar um ataque com disparos de foguetes para justificar outra invasão terrestre”, afirmou Ahmed Yusef, assessor político do Líder do Hamas neste território, Ismail Haniya. “É pela discussão sobre o sitio contra Gaza que haverá no próximo dia 23 um encontro entre europeus e norte-americanos, no contexto da sessões da Assembléia Geral das Nações Unidas”, em Nova York, disse Yusef à IPS. “Grande parte da comunidade internacional se dá conta de que a resolução do conflito israelense-palestino deve incluir o Hamas porque fazemos parte da equação política. Os israelenses não gostam nada disso”, explicou Yusef.
O fato será significativo porque estará presidido pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse o analista Samir Awad, da Universidde de Birzeit, vizinha de Ramala. A agenda inclui uma discussão sobre o acordo de paz e a construção de assentamentos ilegais. Washington “já não usa a frase batida de ‘guerra contra o terrorismo’, o que indica uma mudança de atitude de russos, norte-americanos e europeus em relação ao Oriente Médio, e em especial ao Hamas”, disse Awad.
“O Hamas tenta tirar proveito político da atitude mais tolerante do Ocidente em relação à resistência e se mostra como uma organização mais moderada que compartilha a mesma agenda em relação a ‘grupos terroristas’ mais extremistas”, acrescentou. “Essa é uma das razões pelas quais o Hamas convidou a imprensa para cobrir sua campanha para manter as ruas de Gaza sem delinqüência nem distúrbios políticos”, destacou Awad.
Na semana passada, forças de segurança do Hamas instalaram controles de rua e revistaram veículos depois de vários ataques contra instituições do governo de Gaza. Presume-se que os registros de violência foram em represália à brutal operação contra Jund Ansar Alá, uma organização salafista com supostos vínculos com a rede extremista Al Qaeda, lançada pelo Hamas em Rafah há várias semanas, que deixou saldo de 24 mortos.
Alguns partidários do partido secular Fatah, liderado pelo presidente da Autoridade Nacional Palestina, afirma que o Hamas pretende provar à comunidade internacional que controla a situação e que, como o Ocidente, não vai tolerar ataques de extremistas. Ao mesmo tempo, há indícios de que as próximas conversações entre representantes do Hamas e do Fatah, no Cairo em outubro, poderão ter um resultado mais positivo do que em oportunidades anteriores. “Mediadores egípcios apresentaram às duas partes documentos detalhando os passos que cada grupo deve dar. Desta vez sua contribuição foi mais significativa”, disse Awad à IPS.
O plano egípcio prevê um acordo de reconciliação e celebração de eleições legislativas e presidenciais simultâneas no começo de 2010. As eleições combinarão a representação proporcional e por distrito eleitoral. Mas o Hamas e o Fatah ainda não se puseram de acordo sobre o grau de cada um. O primeiro pretende uma combinação de 50%, mas o segundo fala em 75% e 25% das cadeiras para cada sistema. “O governo do Hamas não pode atender as necessidades básicas dos moradores de Gaza, o que o leva a perder popularidade”, afirmou Awad.
“A destruição causada por Israel no último ataque e o ressurgimento do Fatah depois de seu congresso em Belém também acentuaram sua vulnerabilidade”, acrescentou Awad. “Os dois partidos se deram conta de que precisam estar unidos. Suas diferenças permanentes apenas servem aos interesses israelenses”, disse Yusef à IPS. IPS/Envolverde

