Fortaleza (CE), 02/09/2009 – “A vida de minha família mudou”, desde a maneira de comer e as regras de higiene até a segurança de saber onde estão minhas filhas e o fim do alcoolismo paterno, comemora Maria Erilma da Silva, mãe de três meninas e um adolescente em Fortaleza (CE).
Agora, deixaram de lado a colher e utilizam garfo e faca para comer. Também adquiriram o habito de escovar os dentes após as refeições, embora Raque, de 12 anos, ainda não o faça regularmente. Mas, o melhor efeito foi que “o pai deixou de beber todos os dias, embora já tenha caído da bicicleta, machucando a testa”, recordou Maria. “Quando saía para beber, podia-se esperar cenas de cinema”, disse uma das filhas, Rafaela, de 15 anos. Certa vez, alcoolizado, pensou que era o Super-homem, subiu em uma caixa de água e caiu lá de cima quebrando a perna, contou a mãe, que trabalha como auxiliar de cozinha em uma escola.
O país, Francisco Gomes Martins, admite que deixou a bebida “para não prejudicar minhas filhas” quando entraram para a Edisca. “Decidi na hora, assim como deixei de fumar, de repente, sem sofrer com a abstinência”, disse, embora continue tomando cerveja de vez em quando, afirmou este homem que é fiscal da prefeitura e agora está ameaçado de demissão. “Tenho o maior orgulho por minhas filhas estarem na Edisca, a dança é maravilhosa”, disse, embora a sua mulher garanta que, no começo, ele era contra as meninas dançarem. Vê-las dançando no espetáculo “Urbes favela” o levou às lagrimas. Hoje cobra delas presença assídua nas aulas e permite que viajem, mas “somente se for com a Edisca”. No bairro Bom Jardim, onde a família vive em uma grande casa construída com dificuldade, pode-se sentir a influência da Edisca, cuja sede fica do outro lado da cidade, a mais de uma hora de ônibus.
Edisca
Com cerca de 200 mil habitantes, Bom Jardim é um dos bairros mais pobres e violentos de Fortaleza, no extremo sudoeste do município. Bem dividido, suas ruas longas e ordenadas exibem a pobreza na falta ou na precariedade da pavimentação, na abundância de casas não terminadas e no caos arquitetônico característico da ocupação recente, causada pelo êxodo rural. É a maior fonte de educandos da Edisca, segundo Katiana Pena, que se converteu em professora de dança nessa escola e hoje ensina no Centro Cultural Bom Jardim, um prédio alto e moderno que se destaca no bairro e é freqüentado por cerca de 800 meninas e meninos.
Criada em 1991 e dirigida por Dora Andrade, a organização não-governamental Edisca acolhe exclusivamente crianças e adolescentes de bairros pobres. São cerca de 400 alunos permanentes, todos os estudantes de escolas publicas primárias e secundárias, uma exigência para freqüentar a Edisca. Ao tornar acessível o balé às pessoas pobres, antes ensinados quase exclusivamente às filhas das famílias ricas, “rompemos um paradigma” disse Andrade. A Edisca se dedica à dança contemporânea, mas a técnica do balé clássico é básica em sua formação, explicou.
O projeto educacional, no qual a formação de bailarinas e professores de dança é um resultado não deliberado, se expandiu à área social, com o serviço que presta a 1.500 famílias em cuidados médicos e odontológicos, psicologia e nutrição, de forma individual ou em grupos de convivência. Para a evolução da escola de dança, foi necessário realizar incursões em outras disciplinas, como canto, teatro e artes visuais, e em novas funções educativas, como reforço escolar, ensino de inglês e informática e assistência psicopedagógica.
Logo também se impôs a necessidade de oferecer alimentação aos alunos, sob orientação de nutricionistas, pois muitos eram desnutridos e tinham maus hábitos alimentares. A dança é uma linguagem corporal que exige excelentes condições físicas e cuidados higiênicos, como escovar os dentes com frequência, disse a diretora Andrade. Outro custo indispensável que a escola teve de assumir foi subvencionar o transporte, já que se trata de crianças que vivem na distante periferia da cidade e não podem pagar a passagem de ônibus.
Os alunos permanece, em média, quatro anos e meio na instituição. Poucos desistem, por isso a cada ano são admitidos apenas cerca de 50 crianças entre 7 e 12 anos, mas procura supera em 10 vezes essa quantidade. Formam-se longas filhas de candidatos, e a escola tem de assumir uma frustrante seleção sob critérios sociais e de aptidão. “Aprendi a comer verduras aqui”, admitiu Tatiane Gama, de 26 anos, cuja vida é a própria história do projeto, pois é a única do grupo inaugural que permanece na Edisca. Começou a aprender dança aos 8 anos, logo integrou o corpo de baile e aos 18 passou a professora.
A elite bailarina
Ao chegar aos 16 ou 17 anos, época de concluir o ensino secundário, os jovens têm de deixar a Edisca e recebem pressões familiares para conseguirem emprego, por isso a escola decidiu criar um corpo de baile, formado pelos melhores bailarinos, que ganham uma ajuda mensal de R$ 100,00, explicou a professora.o grupo, te tamanho variável que giram em torno de 40 jovens, quase profissional e de contínua capacitação, realizou aplaudidos espetáculos com coreografia de Dor Andrade, em alguns casos associada ao seu irmão, Gilano Andrade,.
“Jangurussu”, baseado na vida de centenas de famílias que sobrevivem buscando alimento e material para vender em um grande lixão de Fortaleza, iniciou em 1995 um repertório que inclui outras obras de denúncia social, como “Koi-Guera”, sobre o genocídio indígena, e “Urbes Favela”, sobre a vida nos bairros marginalizados. A obra “Mobilis”, de 2003, é mais abstrata, uma investigação coreográfica sobre o movimento. Até o ano passado, a organização não-governamental havia registrado 188.380 espectadores em suas 260 apresentações, no Brasil e no exterior.
Os espetáculos “me permitiram conhecer França, Itália, Alemanha, Áustria e Estados Unidos”, além de muitas cidades brasileiras, uma “oportunidade que outras escolas não me dariam”, destacou Tatiane Gama,que dá aula na Edisca e em outras instituições. Desta escola saíram as professoras de “maior sucesso” nas academias de balé de Fortaleza, assegurou, citando vários exemplos, como um ex-aluno que criou sua própria companhia de dança e se revelou um coreógrafo de talento e sucesso. Os donos das academias de dança reconhecem as vantagens de contratar seus ex-companheiros, segundo Gama, por terem disciplina, maior responsabilidade e os conhecimentos que adquiriram por participarem de espetáculos em grandes teatros do exterior e do Brasil.
Outros resultados
Mas o grande objetivo da Edisca não é formar bailarinos, mas oferecer uma educação de qualidade, “interdimensional”, pois combina razão, emoção, desejo e transcendência através da arte, preparando para a vida e gerando oportunidades, definiu Andrade. Érika Dayane, de 27 anos, aproveitou o teatro e o canto coral nos 11 anos que passou na Edisca. Não se concentrou no balé e não fez parte do corpo de baile, mas saiu com uma formação mais ampla que lhe é útil como terapeuta comunitária do Centro de Atenção Psicosocial (CAPS), uma unidade municipal de assistência aos que sofrem de transtornos mentais.
“Sou eclética, artista e terapeuta”, disse a funcionária do CAPS Bom Jardim e ativista do Movimento de Saúde Mental Comunitária do bairro, que busca “com a arte despertar o desejo de viver e a criatividade adormecida” nas pessoas deprimidas, vítimas da violência, das drogas e dos efeitos da miséria. “Busco romper o modelo de hospitalização e medicação com a arte. Muitos pacientes deixaram de necessitar de médicos por praticarem dança e canto”, afirmou. Com seu salário ajuda a família e paga seu curso universitário de terapia ocupacional, que terá longa duração, pois não pode pagar parte das matérias anuais.
Em Bom Jardim, a presença da Edisca também se reflete na liderança de seus alunos nas escolas e atividades culturais do bairro, afirma Ana Maria Marques, ex-líder estudantil secundária, hoje com 23 anos que luta para sobreviver com seu filho pequeno como instrutora de artesanato orgânico e trabalhos culturais. São ex-alunos da Edisca a maioria dos jovens que criaram a Casa de Cultura, depois substituída por Nosso Espaço, que oferece teatro, dança, biblioteca, artesanato e cursos preparatórios par à universidade a crianças e jovens do bairro.
Estimular a escolaridade formal é outra missão assumida pela escola de dança. São numerosos seus ex-alunos que já se formaram ou estão na universidade, uma raridade exemplar nos bairros onde vivem. Tatiane Gama estuda educação física e Daniele Monteiro, de 21 anos e 12 de Edisca, onde agora é funcionária administrativa, cursa jornalismo. Serão muitos mais os novos universitários graças ao programa de bolsas oferecidas por alguns dos melhores colégios particulares de Fortaleza a alunos selecionados da Edisca. Em 208 eram 49 os beneficiados.
Os próprios espetáculos da escola são um grande processo de aprendizagem. Para fazer “Urbes favela”, por exemplo, todos os estudantes participaram da pesquisa sobre a realidade local desses bairros densamente povoados, sua imagem divulgada pela imprensa e os desejos de seus moradores, além de painéis sobre cenografia, desenho, música, vídeo, maquiagem e outras áreas da produção teatral. Apesar dos efeitos sociais e educacionais do projeto, a Edisca enfrenta dificuldades financeiras, que não são atenuadas pelo fato de possuir desde 1999 uma sede própria projetada para suas atividades. A escola suspendeu as aulas nas sextas-feiras e promove uma campanha de doações individuais, tentando superar a crise.
KATIANA, O MILAGRA DA DANÇA
“Minha mãe teve 19 filhos, oito sobreviveram. Em minha casa ninguém teve infância, meu brinquedo era uma boneca sem cabeça nem braços”. A família mudou-se do campo para o nascente bairro Bom Jardim, onde a mãe se queixava de que “o sofrimento é pior aqui”. Katiana Pena Morais é a prova viva de que investir na superação da pobreza multiplica muitas vezes cada centavo. Com uma bolsa da Edisca de US$ 50 mensais, ela ampliou sua casa, de um só quarto para 10 pessoas e “um banheiro de lata”. Agora tem cinco quartos.
Ajudou a família desde os 7 anos, fazendo contorções no circo-escola do bairro, enquanto seus irmãos recolhiam lixo para reciclagem. Entrou para a Edisca aos 9 anos, vencendo a barreira materna, a fome e a distância. Chorava quando faltava às aulas porque não podia pagar a passagem de ônibus, que dura hora e meia. Começou a receber ajuda para o transporte, mas usava o dinheiro para alimentação da família.
Após dois anos de balé, atuou no espetáculo “Jangurussu”, sobre os pobres que sobrevivem de um lixão. Alguns anos depois chegou ao corpo de baile, ganhando a bolsa milagrosa, e em seguida se converteu em professora de dança assalariada.
Sendo adolescente, a diretora da Edisca, Dora Andrade, a ajudou acolhendo-a em sua casa durante um ano e meio. Agora, aos 26 anos e grávida, Katiana ensina dança a uma centena de meninas e meninos como funcionaria do estatal Centro Cultural Bom Jardim. Conseguiu que muitos deles fossem aprovados na Edisca, que deixou há dois anos, “com dor”, porque sentia “necessidade de fazer alguma coisa pelas pessoas sem oportunidades” do bairro onde sempre viveu. Seu trabalho atual é compartilhado com Silvana Marques, outra bailarina formada na Edisca. Elas são “duas pedras preciosas” que, com a “influência da Edisca”, fazem da dança o mais concorrido dos 11 núcleos do Centro, com 200 estudantes, reconhece Diana Pinheiro, administradora da unidade cultural, um imponente edifício em um bairro de casas pobres.
CONTRA A DESIGUALDADE ESCOLAR
Jamila de Oliveira Lopez viveu por dentro o desequilíbrio entre o ensino público e o privado, que agrava a desigualdade social no Brasil. Beneficiada por becas concedidas por algumas escolas particulares de Fortaleza a alunos da Edisca, em 2007 entrou para o Colégio Farias Brito, um dos mais competitivos e caros. Ali um “abismo entre realidades e comportamentos” foi constatado por esta bailarina de 17 anos que pretende estudar jornalista para estar “atualizada” e “também se expressar por palavras”.
Algumas matérias dadas no colégio nunca viram na escola pública. Mas ela, apontada como um exemplo, é uma exceção. Sempre esteve entre os melhores alunos, embora tivesse que estudar na cozinha, por dividir o quarto com suas duas irmãs, e viver em um bairro muito violento. No ano passado ganhou um computador como prêmio à estudante mais aplicada da Edisca.
A Escola Espaço Aberto, que iniciou o programa de bolsas em 2003 porque “nasceu com compromisso social”, agora tem 10 bolsistas da Edisca, informou o diretor Murilo Martins. Há quatro anos, um grupo de alunos humilhou um deles por sua pobreza e a escola aproveitou o fato para promover um debate sobre a discriminação. O professor de química Helder Filgueiras encontrou chorando uma bolsista do curso secundário que jamais tivera aulas de química, pois se “sentia incapaz de aprender”. Um longo diálogo lhe devolveu a autoestima e ela superou o obstáculo, segundo Filgueiras.
No colégio católico Nossa Senhora das Graças, com cerca de dois mil alunos e 15 da Edisca, além da difícil adaptação inicial, os bolsistas “chegavam sem saber nada de inglês”, disse Rosa Cavalcanti, orientadora pedagógica. Ela e o diretor Martins ressaltaram a força de vontade como fator de destaque que permite superar as deficiências de conteúdo dos cursos. Eles valorizaram a “oportunidade única” de estudar em uma escola que não poderiam pagar, disse Aparecida Raposa, coordenadora do Colégio Admirável Mundo. IPS/Envolverde
O projeto que deu origem a este trabalho foi ganhador das Bolsas AVINA de Investigação Jornalística. A Fundação AVINA e a Casa Daros, parceira na categoria Arte e Sociedade, não são responsáveis pelos conceitos,opiniões e outros aspectos de seu conteúdo.


