EDUCAÇÃO-BRASIL: Sistema educacional é refratário à inovação

Araçuaí (MG), 03/09/2009 – Duas experiências educacionais não-governamentais do Brasil conseguiram transpor os muros do ensino público, assumindo por um tempo a gestão de escolas nas quais deixaram sementes, mas, comprovaram o quanto o sistema escolar é refratário à inovação.

 - Mario Osava/IPS

- Mario Osava/IPS

Nas escolas rurais de Araçuaí, município pobre de Minas Gerais, o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD) apelou para um arsenal de instrumentos, como biscoitos em forma de letras ou cartazes escritos indicando portas, móveis e objetos; brinquedos e jogos pedagógicos, entre outras técnicas que desenvolveu desde sua criação em 1984.

A convite da prefeitura, esta organização não-governamental reconhecida por sua criatividade educacional, aceitou o desafio de tirar do abismo o ensino municipal e assumiu a direção da Secretaria de Educação entre agosto de 2003 e final de 2004. A imersão em um ambiente letrado buscava alfabetizar crianças da zona rural que, de acordo com avaliações especializadas, enfrentavam graves insuficiências para ler, contar e escrever nas oito séries do ensino fundamental. Em Araçuaí, a prefeitura cuida apenas do ensino rural, ao contrário da maioria dos municípios brasileiros responsáveis por todo esse ciclo educacional, inclusive nas áreas urbanas.

O programa levou o nome de “Da UTI educacional à Cidade Educativa”, em referência à necessidade de uma unidade de terapia intensiva para salvar “da morte cívica” as crianças analfabetas ou sem conhecimentos básicos para exercer sua cidadania, segundo o fundador e presidente do CPCD, Sebastião Rocha. Foi promovida uma intensa mobilização das comunidades, através da capacitação de “mães cuidadoras” e “agentes comunitários”, das “folias de livros”, imitações de festas religiosas, e de muitas “rodas” de conversação em circulo que são a base da Pedagogia da Roda do CPCD.

Tratou-se de “uma confusão pedagógica”, definiu Eliana Almeida, coordenadora do Araçuaí Sustentável, um programa do CPCD iniciado em 2005 que ampliou os objetivos educacionais à sustentabilidade social e ambiental do município. A valorização dos conhecimentos da população no processo de educação é outro princípio do CPCD. A contribuição de uma mulher que se confessava analfabeta foi a elaboração de biscoitos com formas de letras, em um esforço para dar expressão letrada a tudo o que estava à volta da população.

Araçuaí tinha na época cerca de 36 mil habitantes, quase metade deles no campo, e 2.700 alunos em suas 37 escolas municipais, que foram agrupadas em nove microrregiões porque muitas eram extremamente pequenas. Para aproveitar os longos períodos de viagem de boa parte dos alunos, criou-se o “educador do ônibus”, que fazia as crianças cantarem e contava historias às crianças enquanto o veiculo trafegava por estradas precárias.

Trauma

As avaliações feitas no final de 2004 constataram acentuadas melhoras, mas o novo prefeito, José Antonio Martins, não renovou o acordo com o CPCD quando assumiu em janeiro de 2005, embora seu governo fosse de continuidade, já que ocupara o cargo de vice-prefeito na gestão anterior e era membro do mesmo Partido dos Trabalhadores que sua antecessora, Maria do Carmo da Silva.

O Conselho de Infância e Adolescência do município “não se interessou em continuar o convênio” com a organização não-governamental, e os governos do PT “são participativos” e valorizam os conselhos populares, explicou o agora ex-prefeito Martins, derrotado em sua tentativa de se eleger em 2008.

“Fomos proibidos de entrar nas escolas em 2005, mas continuamos cuidando da educação do lado de fora, nas ruas, com as mães cuidadoras”, afirmou Rocha. O CPCD mantém em Araçuaí vários projetos, como “Ser Criança, dedicado a atividades extra-curriculares no período em que as crianças não estão na escola formal. A mesma campanha de UTI, com nome de Cidade Educativa, foi adotada pela prefeitura de Virgem da Lapa, município vizinho.

“Não nos interessa a escola, mas as crianças, para que não continuem analfabetas aos 9 ou 10 anos”, afirmou Rocha, destacando a participação das “mães educadoras que têm mais interesse e conhecimento da vida”. A experiência de Rocha e do CPCD comandando a Secretaria de Educação foi traumática para muitas professoras. “Fomos desvalorizadas, tiraram nosso papel de docente” a favor de “mães que fazem biscoitos sem nada saberem de pedagogia nem métodos”, queixou-se Rosangela Silva, professora há 15 anos, que se sentiu “decepcionada no final”, após “abraçar a iniciativa” por sua criatividade.

Segundo a teoria do CPCD, “os alunos não são uma página em branco, mas nós fomos tratadas como páginas em branco”, acusou Rosilene Santos, hoje subdiretora de uma escola urbana do governo estadual. O projeto UTI fracassou e seus resultados foram falseados, afirma, porque alunos que já estavam alfabetizados foram contados como analfabetos. As mães e os agentes comunitários “ensinavam a escrever com erros, confundindo os alunos”, segundo outra professora, Andréia Rocha. “Tudo foi imposto, não eram aceitas críticas, como se as professoras nada soubessem, e qualquer progresso era mérito das mães educadoras”, acrescentou Deusdilene Silva, com 13 anos de docência.

Outra professora, Adriana de Jesus Rocha, discordou de suas colegas, afirmando que seus 19 alunos da terceira série “aprenderam muito com os jogos, os livros e a horta”. Como resultado, todos acabaram dominando a leitura. No começo poucos sabiam ler, recordou. Talvez tenha faltado melhor diálogo prévio com as professoras, admitiu. Mas todas reconheceram a validade dos jogos pedagógicos e de outras novidades introduzidas pelo CPCD. “Aprendi muito” com Sebastião Rocha, mas sua gestão na Secretaria de Educação foi “autoritária”, disse Rosilene Santos, que atribui a “uma questão de poder” as queixas das professoras pela participação das mães no ensino. Algumas diretoras de escolas urbanas, que não fizeram parte da UTI, também se queixam do CPCD, por ter criado o coral Meninos de Araçuaí, cujos freqüentes espetáculos em outras cidades fazem com que os alunos faltem às aulas. Entre esses alunos há alguns que são indisciplinados e acabam premiados com as viagens, por isso “falta compromisso do CPCD com a escola”, criticou Marilda Guedes, diretora da Escola Estadual Leopoldo Pereira, que tem oito alunos no coro.

Janice Pereira Sá, diretora do colégio Arthur Berganholi, lamentou especialmente a ausência de uma aluna com dificuldades de alfabetização por quase três semanas em maio. Para não afetar a aprendizagem as viagens do coral deveriam ser planejadas em período de férias escolares, ou pelo menos prever-se e informar-se com antecipação, mas falta integração entre o projeto e a escola, afirmou. Outra espécie de “invasão bárbara” em uma escola oficial ocorreu em Salvador (BA), onde o não-governamental Projeto Axé conseguiu criar em 1999 a Escola Municipal Barbosa Romeo, destinada aos seus alunos, que são crianças em risco social, como os que vivem nas ruas.

A escola, também chamada Ilé Ori (que significa casa do conhecimento na língua africana yoruba – permitiu ao Axé por em prática suas idéias de um ensino de qualidade, baseada em “projetos”, isto é, temas interdisciplinares pesquisados de forma coletiva, formação permanente dos professores e o papel das crianças como “sujeitos de direitos, conhecimento e desejo”. Também se falava em “desescolarizar”.

“O Axé nos deu outra visão da criança, menos escola, não apenas como aluno, mas como pessoa cognitiva, humana e social”, resumiu Elizabete Monteiro, coordenadora pedagógica e uma das nove professoras iniciais, “com desejo de aprender” e que podem dedicar a essa finalidade parte de suas horas semanais de trabalho. O primeiro ano, em um prédio alugado e pequeno, foi um pouco caótico. Havia cerca de 400 alunos de 6 a 19 anos, divididos em dois turnos. Algumas classes funcionavam no pátio e eram frequentes a indisciplina, crianças entrando e saindo de seus cursos quando bem entendiam, as ameaças de agressão e os palavrões. “Queriam nos enfrentar, testar a escola”, recordou Raidalva da Silva, outra das professoras do grupo inicial.

Diante das dificuldades, como as de Sonia Rossi, houve choros e renúncias. “Foi importante sair e importante voltar”, confessou a professora que partiu “por medo de não suportar o desafio” e retornou porque “aprendi a ser professora, a ver valores, tudo colocado em xeque, porque não bastava dar aulas, mas tinha de ser especial”. A nova postura acabou vencendo. Um ano e muito diálogo depois, começou a reinar certa ordem. Os alunos diziam “Gosto de vocês porque somos importantes para vocês, não desistem de nós”, disse Rita Brito, professora da escola desde 2000. Comprovou-se ser possível “uma escola para infratores, rebeldes e crianças de rua”, concluiu.

A escola ganhou prédio novo, se converteu também em um “centro irradiador de discussões pedagógicas” e algumas professoras que por ali passaram hoje são diretoras, disse a coordenadora Monteiro. A experiência, sustentada por suas professoras, continua sem a participação do Projeto Axé desde 2005, porque as novas autoridades municipais não renovaram o convênio com a organização. Assim, não se concretizou o sonho de César La Rocca, fundador e presidente do Axé, de “contagiar” com suas propostas o ensino público municipal de Salvador. IPS/Envolverde

* Com reportagens adicionais desde Salvador (BA).

O projeto que deu origem a este trabalho foi ganhador das Bolsas AVINA de Investigação Jornalística. A Fundação AVINA e a Casa Daros, parceira na categoria Arte e Sociedade, não são responsáveis pelos conceitos,opiniões e outros aspectos de seu conteúdo.

(Envolverde/IPS)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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